“A maioria age como se Deus existisse”

O filósofo e esloveno Slavoj Zizek, crítico da religião, diz que não devemos procurar a dimensão religiosa de forma directa nas estruturas religiosas, mas no nosso quotidiano. Entrevista da série Conversas de fim de ano sobre ateísmo.

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É conhecido pelo seu estilo provocatório e pelo seu humor. De há uns tempos para cá, a intervenção política tem-se tornado mais mediática.

O filósofo e esloveno Slavoj Zizek é ainda um forte crítico tanto do capitalismo como do estalinismo – e da religião. Professor na Universidade de Ljubljana, e director do londrino Birkbeck Institute for the Humanites, Zizek tem sido professor convidado de várias universidades americanas, como Pinceton e New York University (NYU). Ateísta convicto, Zizek desenvolveu as suas posições sobre o tema em livros como A Marioneta e o Anã: o cristianismo entre a perversão e a subversão, A Monstruosidade de Cristo: paradoxo ou dialéctica(Relógio d’Água, 2006) ou no mais recente God in Pain: Inversions of the Apocalypse. Defende que não devemos procurar a dimensão religiosa de forma directa nas estruturas religiosas mas de que formas ela está presente nas nossas rotinas diárias – nas instituições e nas práticas sociais.  

Qual é o argumento mais forte de que Deus não existe?
Concordo com Jacques Lacan que diz que a verdadeira fórmula do ateísmo não é que Deus está morto mas que Deus é inconsciente. Isto é, o que defendo, e que aprendi com a psicanálise, é que é fácil dizer que Deus não existe mas a maioria age como se Deus existisse.

O meu maior exemplo, pensemos nos estalinistas que parecem ser ateus e na forma como pensam, em que supostamente existe uma necessidade objectiva e histórica que justifica e não justifica determinados actos. Por outras palavras, a estrutura continua a ser teológica. É o que Lacan chama o Grande Outro, uma entidade simbólica que pode fazer julgamentos sobre o significado dos nossos actos.

O ateísmo, especialmente nos Estados Unidos, de repente tornou-se uma moda, com os novos ateus como Dawkins e Hitchens a serem best-sellers. Mas esses defendem uma versão simplificada que não responde à verdadeira questão de como a teologia funciona.

Concordo com a teoria do cepticismo de Marx – para ele o cepticismo não está no que dizemos mas no que fazemos. Como sujeitos burgueses não acreditamos em nada – o capitalismo é cínico, só existe dinheiro, lucro, etc – mas a forma como o mercado actua e como os produtos se comportam é inerentemente teológica. A teoria de Marx é que acreditamos na nossa actividade social muito mais do que aquilo que estamos dispostos a admitir. É a forma como actuamos hoje: há crenças que se manifestam nas nossas práticas sociais. É isso que Walter Benjamin queria dizer quando afirmava que o capitalismo era uma forma de religião – tem uma estrutura religiosa.

Outro exemplo: é fácil dizer que vivemos num mundo hedonista, só pensamos no prazer, no lucro, etc. mas isto não corresponde ao capitalismo! Um capitalista ideal não é um hedonista que só pensa nos seus prazeres, o verdadeiro capitalista está pronto para trabalhar quase 20h por dia e para renunciar aos seus prazeres só para que o capital continue a circular – isto tem uma dimensão religiosa. Hoje é muito difícil ser um verdadeiro hedonista.

Acho que a afirmação do ateísmo hoje é paradoxal, e estou a pensar nos novos ateus, porque não questiona a estrutura religiosa do nosso quotidiano. Até está presente na Constituição. Ninguém acredita na democracia e na justiça, mas mesmo assim actuamos como se funcionassem. Este fenómeno interessa-me. Em Portugal, por exemplo, têm o grande ateísta José Saramago que escreveu o livro sobre não votar – quando as pessoas deixam de votar, a estrutura de poder cai, isto é que é um acto de verdadeiro ateísmo. O meu ponto é que não se deve procurar a dimensão religiosa de forma directa nas estruturas religiosas mas nas formas em que ela está presente nas nossas rotinas diárias.

Por isso digo que para ser um verdadeiro ateísta tem que se ir à cristandade – acho que a cristandade é uma religião ateísta no sentido que aquilo que acontece é que Deus morre, literalmente. E Deus permanece no espírito santo – mas não é Deus, é a comunidade de crentes.

É por isso que diz que o verdadeiro ateísmo é a experiência da ausência radical da transcendência? E tem que se passar pela cristandade?
Sim. Mas o que defendo é que se tem a experiência do Grande Outro de Lacan, que não há garantia de significado e que qualquer garantia de significado é uma ficção simbólica. Foi erradamente atribuído a Dosteiveski a citação: ‘Se Deus não existe, então tudo é permitido’. Lacan diz: ‘Pelo contrário, se Deus não existe então tudo é proibido’. Eu digo: ‘Se Deus não existe tudo é permitido àqueles que pensam ser os instrumentos de Deus’. O fundamentalismo significa que se Deus existe, actuo como instrumento de Deus, não tenho que me preocupar com restrições morais – desta forma também podemos explicar os casos de pedofilia na Igreja. É estranho para mim como a Igreja protege os casos de pedofilia. De novo, é como dizer: ‘finge que jogas o nosso jogo, e nós protegemos-te’.

Um cristão poderia dizer que está a falar da Igreja e não do cristianismo, da instituição e não da religião.
O ponto fundamental da cristandade para mim é que a crença não interessa, o que interessa é a instituição. Dou o exemplo: acontece muitas vezes que um marido ou uma mulher enganam o parceiro. Sonham todo o tempo com o quanto gostariam de deixar o marido ou a mulher, mas mantêm o caso com o/a amante em segredo. O amante diz: ‘Quero casar contigo, deixa o teu marido ou a tua mulher’. E ele ou ela não o conseguem fazer. No interior, pensam que gostariam de estar com o/a amante, mas no momento em que são forçados a fazê-lo não são capazes.

As instituições externas nunca são apenas externas – são a nossa verdadeira identidade. Quando há um conflito entre a instituição à qual pertencemos e a nossa experiência interior a verdade fica no lado das instituições. Isto foi a minha experiência no comunismo. Ninguém acreditava no comunismo mas todos participavam nele. É como o poder funciona.  

Acreditar é uma coisa muito paradoxal. Somos demasiados tomados por esta ideia de acreditar na primeira pessoa: eu acredito que Deus existe, etc. mas isto não é como a crença funciona. 

Mas quando fala na crença está a fazê-lo de forma racional.
Percebo o ponto. Mas então o que é a crença? Não é apenas uma convicção interior mas uma coisa muito mais misteriosa. De qualquer forma, está ligada às instituições – recuso-me a opor sentimentos internos a instituições externas. As instituições têm a sua própria mística, não são racionais como Kafka tão bem sabia.

A minha crítica não é naïf, o que me intriga é o que leva as pessoas a acreditar, mesmo sabendo que não é verdade. Há uns anos um jornalista esloveno fez uma sondagem a perguntar: ‘é cristão?’ 90% disse que sim. Depois perguntou: ‘acredita que há dois mil anos havia um homem filho de Deus que andou na Palestina?’ 80% disse que não. Consideravam-se cristãos, mas quando se perguntavam coisas específicas, não acreditavam.

Sim, acredito que a crença não funciona de forma racional, mas não tem que ser uma coisa superior. Pergunto: e for uma coisa inferior? Sim, há crenças misteriosas mas não têm nada de superior. As pessoas queixam-se de que hoje não há espírito religioso. Já reparou no grande hit, o Gangnam Style? Isto é religião hoje – toda a gente sabe que é ridículo mas centenas de milhões participam no ritual. 

O exemplo da sondagem que deu pode ser explicado por as pessoas acharem que a questão concreta é uma metáfora e faz parte de uma narrativa.
É isso precisamente que a religião faz! Oferece uma narrativa, uma ficção simbólica. Tenho uma amiga judia que me contou uma história que põe isto de forma fantástica: há um rabi que está a contar uma história de milagres a um rapaz. O rapaz pergunta: ‘isto é tão bonito, mas é verdade, aconteceu?’ O rabi respondeu: ‘Não, não aconteceu, mas é verdade’. Isto é o truque da religião. Na religião a ficção simbólica morre – o que morre com Jesus na cruz é o próprio Deus. O que vem a seguir à crucificação? O espírito santo. Que é amor e une a colectividade de crentes – quem resta somo nós, homens, sozinhos.

A religião é uma dimensão eterna, assenta numa ficção simbólica que faz, provavelmente, parte da linguagem humana como tal – porque a partir do momento em que usamos uma língua, temos que aceitar uma narrativa maior que lhe garante significado. Sou mais pessimista: a religião no sentido mais radical faz parte da linguagem humana. Quando Cristo está na cruz e pergunta: ‘Pai, porque é que me abandonaste?’, é o momento em que Deus se torna um ateísta, morre por ele próprio.

Porquê?
Claro que é apenas uma história, mas é a mensagem da cristandade. Não é suficiente não acreditar em Deus, inconscientemente ainda contamos com Deus. Ser um ateísta radical é ainda mais difícil.  

O universo tem um significado e uma finalidade?
Não, o universo é um erro, uma contingência total, e isto é difícil de aceitar – isto é a lição do darwinismo. É fácil defender que somos parte da natureza, o que é mais difícil de argumentar é que a natureza é um mecanismo contingente, maluco, cheio de catástrofes como nós, seres humanos.

Como é que imagina que quem acredita imagina Deus?
A maior parte das pessoas acredita que deve existir uma entidade superior que garante que a nossa vida tem sentido, ou seja, que deve existir algo superior. Acho que devíamos abandonar isto, que seria muito melhor para a moralidade porque se esquecermos a transcendência então somos confrontados com a nossa responsabilidade – aceitar a nossa liberdade e não deitar a culpa para ninguém é uma posição mais forte.