Entrevista

“Um dia cada um terá a sua própria moeda”

Stan Stalnaker, fundador da rede social Hub Culture, criou a Ven, uma moeda mais imune a flutuações do mercado e mais sustentável. No futuro, antevê que cada um terá a sua própria moeda. Entrevista do bloco consumo-poupança, da série Conversas de fim de ano.

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Stan Stalnakeré o fundador da rede social Hub Culture – uma espécie de rede privada que funciona por convite e que desenvolve ferramentas de colaboração online de partilha rápida de informação e conversa.

Além de organizar vários acontecimentos e promover serviços em que põe em contacto pessoas que estão à procura de determinados serviços e pessoas que os fornecem, a Hub Culture transacciona a Ven, uma moeda digital que diz ser das mais sustentáveis e que é usada nas transacções da rede, on e offline. Nos Pavillions, espaços físicos reais espalhados pelo mundo, organiza acontecimentos e encontros. Americano,Stan Stalnaker trabalhou em Londres e Hong Kong na área de marketing da Time Warner. Antecipa um futuro não longínquo em que o dinheiro vai estar associado á informação em que X “gostos” no Facebook valem X moedas. 

Como é que a Ven evoluiu?
Começámos em 2007 e usávamo-la entre os membros como troca e sistema de pontos. Começámos a comercializá-la no Facebook e percebemos que não era muito útil, depois indexamos a Ven ao dólar: 1 Ven equivalia a 10 cêntimos. Percebemos que para fazer uma moeda global tínhamos que ter um cabaz e em 2009 tornámo-nos na primeira moeda digital a passar para um cabaz. Ou seja, o valor da Ven é calculado com uma mistura do valor das moedas internacionais, de bens como ouro, prata e crude e carbono tornando-a mais “verde”. Ao incorporar os preços do carbono no cabaz ligámos a moeda ao ambiente, e tornámo-nos na única moeda que tem o carbono incluído. Actuamos um pouco como o Banco Central: temos reservas. A maior parte dos países só tem em reserva cerca de 2% da moeda emitida; como somos muito pequenos temos que ter 100% em reserva. Não damos números sobre as reservas mas já trocámos o equivalente a 1.5 milhões de dólares e estamos a crescer rapidamente.

Porque é que só os membros do Hub Culture podem usar Ven?
Para se usar Ven tem que se ter uma conta para onde se possa enviá-la – como uma conta no banco. O registo é feito através de convite para ter a certeza que estamos a lidar com pessoas reais. Queremos seguir a política de saber quem são os nossos clientes porque na Internet há muita robotização. Quando alguém se regista no site, oferecemos 10 Ven. Temos 12 mil contas Ven. Pode-se comprar Ven com dinheiro real ou pode-se ganhar trocando serviços – lavando o meu carro, tomando conta dos meus filhos… Enfim, tudo o que se pode fazer por dinheiro pode fazer-se por Ven.

Quanto é que podemos poupar com a Ven?
É engraçado ver a psicologia das pessoas à volta do dinheiro. Mesmo com o dinheiro digital as pessoas são muito conservadoras, não há diferença com o dinheiro real. Muitos tentam poupar Vens, mas não encorajamos as pessoas a poupar porque é bom que circule – não há juros. As taxas de juro são pagas quando o banco fica com o seu dinheiro e empresta-o em seu nome. Não emprestamos, nem pagamos juros.

Mas o movimento natural da moeda é muito positivo: se tiver investido 100 dólares em 2008 hoje terá 108 dólares porque a Ven ganhou 8% em relação ao dólar, e 6 ou 5% em relação ao euro e à libra. Por causa da inflação, essas moedas desceram e a Ven é uma óptima barreira contra a inflação. É uma moeda naturalmente menos flutuante: desce e sobe menos do que as outras moedas e do que os bens.

Disse que imagina que em cinco anos vamos ter mais de 5 mil moedas digitais, não vai ser ainda mais caótico e dispendioso trocar dinheiro?
Vai trazer mais escolha e isso é fantástico sobretudo quando actualmente não temos muitas escolhas em termos financeiras. O que está a acontecer é que temos moedas diferentes para coisas diferentes: temos milhas, pontos de hotéis, que são uma espécie de moedas. Estava justamente agora ao telefone com a companhia aérea Virgin que perdeu todos os meus pontos - cinco anos a viajar na Virgin são muitos pontos! Vão devolver-me o crédito mas isso é assustador. É um bom exemplo de como as milhas começam a ganhar valor - só que não podem ser usadas em todo o lado, não posso usar as minhas milhas da Virgin para lhe oferecer o jantar mas talvez as possa usar para ir a Portugal. Isto é a história de todas as moedas, e as moedas deveriam oferecer mais escolha ao consumidor – acho que um dia cada um terá a sua própria moeda e essas moedas serão transaccionadas umas com as outras. Você é boa escritora e eu um bom conferencista, provavelmente vamos trocar uma coisa pela outra.

Vamos voltar aos velhos tempos de troca directa?
Já é um pouco assim, mas do que estamos a falar é de outra coisa. Estamos a falar de informação acoplada a cada transacção. Acredito que as moedas digitais serão todas digitais, ou seja, comparáveis e susceptíveis de lhes traçarmos o rasto – e uma vez que isso aconteça a capacidade de as usar em diferentes circunstâncias torna-se muito mais fácil. O dinheiro e a informação vão-se misturar. Se pensarmos na Internet: no Facebook há pelo menos 80 mil milhões de pontos de informação: temos pessoas, lugares, etc. Os algoritmos vão um dia calcular o valor dessas coisas e a partir daí cria-se a capacidade de negociar cada uma dessas informações: quantos “gostos” no Facebook valem um Ven? Isso é o futuro do dinheiro – todos os pontos no gráfico social vão tornar-se monetizáveis, adquirem valor e esse valor será transaccionado.

Quão diferente é realmente a Ven do sistema monetário actual?
É uma extensão do sistema monetário. Agora estamos numa situação em que o valor do dinheiro é importante, e por isso é também importante para a Ven porque queremos promover a facilidade de utilização e permitir que as pessoas troquem valor entre elas. Mas o ADN, os valores de Ven, são muito positivos para o planeta – essa é uma razão forte para as pessoas a usarem. Não é imediatamente óbvia, é apenas a forma como as nossas reservas estão a ser usadas e idealmente usadas bem – o que não podemos dizer de outras moedas.

O que está errado com o actual sistema monetário?
O actual sistema monetário tem tendência para deixar de fora algumas pessoas e esse é o problema – uma sociedade bem-sucedida tem o máximo de inclusão possível, e acho que muita gente se sente excluída, especialmente desde a crise. Muitas pessoas acham que o sistema não está a funcionar. O bom da Ven é que é um movimento das pessoas e para as pessoas se empoderarem economicamente – porque com a Ven podemos criar actividades específicas para serem pagas em Ven.

Querem crescer até onde? Por enquanto controlam a Ven através do registo obrigatório na Hub Culture, como é que mantêm esse controlo se crescerem demais?
Isso é um desafio, preferimos crescer menos e bem do que depressa e mal. Tudo depende das referências, como a conversa que estamos a ter agora – e é óptimo porque há imensa gente em Portugal que não conhece a Ven e queremos inclui-las na comunidade. Somos muito conservadores sobre o que fazemos; queremos que o site seja mais útil, mas temos que ter cuidado nos nossos investimentos. Não temos lucro com a Ven – é quase apenas um serviço que prestamos porque emitimos a Ven e depois temos que guardar o seu valor para ser recuperado depois. Temos conseguido gerir a Ven porque temos outros serviços na rede, e a Ven sustenta esses serviços e vice-versa.

Acreditamos que tem vantagens sociais. Pensamos na micro-finança e em empoderar as pessoas, não há custo de troca. No banco, se fizermos uma transferência entre países, cobram-nos uma taxa. Na Ven não há taxa. Depois é muito estável, portanto o valor da moeda mantêm-se muito mais constante. Finalmente, há o carbono - quanto mais dinheiro as pessoas tiverem em Ven, mais dinheiro haverá para se investir no carbono e no impacto positivo no planet. De cada vez que se usa Ven está-se a ajudar o planeta, porque teremos mais capacidade de investir nas reservas de carbono. Até agora, salvámos 25 mil hectares de floresta na Amazónia usando a Ven.

Qual é o significado de ter sido a primeira moeda privada a entrar para a lista da Thomson Reuters?
É muito importante. A nossa ambição é que a Ven se torne uma moeda de troca no mercado como as outras moedas nacionais e isso seria interessante porque nunca ninguém o fez. Ter sido listada na Thomson Reuters dá o preço por isso os mercados financeiros sabem que é de confiança. Depois dá à Ven acesso a 500 mil terminais no mundo; um trader ou um banco que digitalize Ven verá aparecer a moeda ao lado de outras. 

Uma das críticas num relatório feito pelo Banco Central em relação às moedas digitais foi o perigo de esconderem lavagem de dinheiro e negócios da droga, como é que evitam que isso aconteça?
Isso é um risco para casos como a Bitcoin (outra moeda digital), que é descentralizada e anónima e em que é muito difícil obter o rasto do dinheiro. Connosco, há uma conta e é fácil ter o registo de cada transacção, é muito fácil conseguir o email que vem associado a cada transacção. Em segundo lugar, a troca para fora em dinheiro é limitada, não é possível comprarem-nos dinheiro real. Por isso não há grande incentivo para lavagem de dinheiro.

Quando diz que acredita que cada pessoa terá a sua própria moeda daqui a cinco ou dez anos, acha que o dinheiro real continuará a ser usado?
Claro. Isto não é uma ameaça às moedas actuais, as pessoas continuarão a usar euros, dólares, libras. É o oposto da ideia de uma moeda controlar as outras mas ter várias que permitem uma maior escolha. Mais escolha dá mais oportunidades, mais flexibilidade e isso cria um maior crescimento económico.