E se a mão humana também tiver evoluído para bater?

Uma equipa de investigadores foi estudar a anatomia do punho e a sua funcionalidade no combate para tentar responder a questão.

A mão dos chimapanzés não consegue fazer um punho
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A mão dos chimapanzés não consegue fazer um punho DR

Quando chega a altura de lutar, os primatas como os chimpanzés costumam abrir a mão para bater. O homem cerra os dedos e a sua derradeira ferramenta de destreza que utiliza no dia-a-dia transforma-se numa arma. Uma equipa de investigadores foi estudar a anatomia do punho e a sua funcionalidade no combate para tentar responder a uma questão: Será que a mão também evoluiu para bater? A resposta parece ser afirmativa, defendem os cientistas que publicaram os resultados agora na revista Journal of Experimental Biology.

"O papel que a agressão teve durante a nossa evolução não foi suficientemente tido em conta”, diz David Carrier da Universidade de Utah, Estados Unidos, líder do estudo. “Há pessoas que não gostam desta ideia, mas é evidente que os grandes símios são um grupo relativamente agressivo, quando comparados com outros mamíferos, com imensas lutas e violência, e isso inclui-nos”, sugere, num comunicado. “Somos os filhos pródigos em relação à violência.”

Para compreender melhor esta questão, os cientistas foram analisar a força de um soco e a anatomia da mão. Pediram a dez homens, com idades entre os 22 e os 50 anos e com experiência em artes marciais, para darem socos com o punho fechado e baterem com a mão aberta num saco de boxe.

O saco media a força da estalada e do soco. Os cientistas descobriram que a força máxima exercida pelos dois métodos era semelhante. No entanto, a área que o soco exerce a força é um terço da área de uma chapada com a palma aberta. Por isso a força exercida durante um soco naquela área era entre 1,7 e três vezes maior em relação à chapada. “Como há uma pressão maior quando se bate com o punho, é provável que se cause um dano maior” nos tecidos, nos ossos, nos olhos ou nos dentes, explica Carrier.

As experiências seguintes avaliaram a anatomia do punho. Um chimpanzé tem um polegar mais curto do que o homem e os outros quatro dedos são mais compridos do que os nossos. Quando tenta fechar a sua mão, como os humanos fazem, o chimpanzé fica com a mão numa forma de donut. Nos humanos, o punho é uma estrutura muito compacta, em que o polegar dá suporte ao indicador e ao dedo do meio.

Os cientistas tentaram avaliar se esta forma, com o apoio do polegar, protegia o resto da mão quando dava socos. A experiência mediu a rigidez dos nós dos dedos, quando a força é transferida dos dedos para o polegar. Para isso, pediram a outros dez homens para darem socos com o punho completamente fechado e com o punho sem o apoio do polegar. Os resultados mostraram que quando o polegar apoia os dedos, a rigidez dos nós dos dedos quadruplica e a força transmitida pelos durante o soco duplica.

Os autores defendem que a mão poderia ter evoluído para formas diferentes e que algumas estariam adaptadas só para o manusear e outras formas funcionariam bem só para lutar. “No entanto, é possível que só haja uma proporção esquelética correcta que permita as duas funções”, escrevem no artigo.

E notam aqui um paradoxo: “[A mão] é indiscutivelmente a nossa arma anatómica mais importante, usada para ameaçar, bater e em algumas situações matar para resolver um conflito. No entanto, é também a parte do nosso sistema muscular e esquelético que produz e utiliza utensílios delicados, toca instrumentos musicais, produz arte, transmite intenções e emoções complexas, e nutre. Em última análise, o significado evolutivo da mão humana talvez se deva à sua capacidade impressionante de cumprir duas funções aparentemente incompatíveis, mas intrinsecamente humanas.”

Para Carrier, olhar para uma evolução humana adaptada à agressão e à violência é, ainda, um tabu. “Há muita resistência para pensar que, a certos níveis, os humanos são por natureza animais violentos. Acho que seria melhor se encarássemos esta ideia de que temos emoções fortes e que, algumas vezes, elas levam-nos a comportamentos violentos. Se tivermos isto em conta somos capazes de prevenir melhor a violência no futuro”, defende, citado pela BBC News.