Solidariedade e economia

Quando, em 1776, Adam Smith publicou A Riqueza das Nações, obra que o imortalizou, procurou demonstrar que a riqueza das nações resultava da atuação de indivíduos que, movidos apenas pelo seu próprio interesse, promoviam o crescimento económico e a inovação tecnológica.

"Assim, o mercador ou comerciante, movido apenas pelo seu próprio interesse egoísta (self-interest), é levado por uma mão invisível a promover algo que nunca fez parte do interesse dele: o bem-estar da sociedade." Como resultado da atuação dessa "mão invisível", o preço das mercadorias deveria descer e os salários deveriam subir.

Quase dois séculos e meio depois são conhecidas as enormes vantagens que o liberalismo trouxe para a dinâmica económica, que na Idade Média era travada pelas relações feudais ou pelo controlo das guildas profissionais e pelos preconceitos reinantes contra os empréstimos com juros e contra as "profissões lucrativas".

Mas também são conhecidos os inconvenientes da economia e das finanças totalmente liberais, sem os necessários mecanismos de feedback que, tendo em conta as consequências indesejáveis, as reintroduzam no sinal de entrada para as reequilibrar e as redireccionar para os objectivos desejados.

Apesar de muitos Governos continuarem a decidir com base em visões lineares simplistas, ignorando os efeitos colaterais das suas decisões, com cujas consequências se vêem depois surpreendentemente confrontados, manda o bom senso que, a bem das pessoas e da saúde económica das sociedades, se seja menos autista e se olhe para a complexidade da economia com realismo, se introduzam mecanismos reguladores de feedback e se lhe dê o sentido que deve ter, ao serviço das pessoas.

O mercado é importante para o funcionamento da economia e a procura do interesse próprio dá-lhe uma enorme dinâmica. Mas quando o funcionamento do mercado financeiro gera pobreza, desemprego, fome e exclusão, em qualquer parte do mundo, a mão invisível do mercado tem que ser guiada por uma mão visível dirigida pela solidariedade e a justiça para recolocar as finanças ao serviço da economia e esta ao serviço das pessoas. O novo paradigma da economia tem, pois, que incluir também a solidariedade, de forma eficaz e sustentável.

Para que isso aconteça, é necessário que os cidadãos assumam as suas responsabilidades cívicas, estejam atentos, se informem para compreender e influenciar os rumos das finanças e da política que as deve determinar de forma a robustecer a economia ao serviço do bem comum, em vez de fecharem os olhos e se deixarem arrastar pelos interesses financeiros.

Para isso é fundamental uma pedagogia ativa e o permanente exercício da cidadania mundial para viabilizar uma economia sustentável para o desenvolvimento humano integral.