Quem é aquele? Eu sou aquele? As sombras de Sancho Silva

Sancho Silva criou na sala da Kunsthalle Lissabon uma atmosfera que nos inquietaSombras, lentes, membranas, peles criam ilusões
Miguel Manso
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Sancho Silva criou na sala da Kunsthalle Lissabon uma atmosfera que nos inquietaSombras, lentes, membranas, peles criam ilusões Miguel Manso

Effigiae, a primeira exposição individual de Sancho Silva em Lisboa, é uma crítica à degradação da visão e um resgate das sombras que habitam o mundo real. Na Kunsthalle Lissabon

A entrada para a sala de exposições da Kunsthalle Lissabon (KL) desapareceu. No primeiro andar deste espaço na Avenida da Liberdade, em Lisboa, um espelho barra-nos a entrada e desorienta-nos. Onde estamos?

Sentida a experiência física, uma tensão apodera-se de nós. Eu sou aquele? É assim que me vêem? Entretanto alguém aponta para uma porta de serviço e sussurra: "Entra-se por aqui." Entramos e descobrimos que o espelho é afinal um vidro espião. Agora somos nós que vemos o escritório da KL. Vazio ou ocupado.

A peça descrita, que apresenta analogias com os trabalhos anteriores do artista, é parte integrante de Effigiae, a primeira exposição individual do artista em Lisboa, que fica até ao final do mês.

Rearticular o espaço, fazer construções que lidam com a percepção, pensar e interrogar as modalidades receptivas da visão são princípios que têm orientado o trabalho de Sancho Silva (Lisboa, 1973). Recordemos Scanner (2000), estrutura no interior do qual espectador via apenas um segmento da paisagem envolvente, ou Gazebo (2002), apresentado na bienal europeia de arte contemporânea Manifesta 4, onde a partir da rua os visitantes entravam num bunker de madeira e daí "vigiavam" todo o espaço da exposição.

Inspirado na teoria materialista das imagens de Lucrécio, Sancho Silva criou na sala da KL uma atmosfera que nos inquieta (pelas criaturas, os monstros que a habitam), tanto quanto nos elucida (porque essas criaturas têm corpos). Recuperemos um excerto do poema do poeta e filósofo romano, que pode ser lido no texto de apresentação: "Concluo pois que cada corpo sempre/ Lançando está da superfície sua/ Tenues emanações, que o nome devem/ Ter de membrana ou cortical embrulho;/ Porque no aspecto sãoiguaes aos corpos/ Donde se elevam a fender os ares." Ora é uma contemplação das coisas que os corpos lançam que Effigiae nos propõe.

Suspensos do tecto, um polvo seco e uma armadilha giram em simultâneo e criam, sob o efeito de um strobe, uma imagem compósita: o corpo no interior da armadilha. De uma pedra presa na parede "solta-se" um molde no qual se projecta, através de uma lente, a sombra de uma osga seca. Molde e corpo sobrepõem-se e a sombra deste confunde-se, na principal parede da sala, com outra sombra projectada: a da perna de uma galinha. Sombras, lentes, membranas, peles criam ilusões. Monstros, seres indefiníveis, que uma vez postos em relação denunciam aquilo de que são feitos: matéria. Esta dedução deve ser entendida no contexto da crítica que Sancho Silva dirige à padronização a que os poderes sujeitam a visão. "A padronização ocorre sempre que o leque do possível, das escolhas possíveis, se vê limitado ao real. Quando o futuro se dissolve no presente, num destino mecânico evidente, incontornável e unívoco", diz o artista ao PÚBLICO. "Hoje, nos países desenvolvidos, [a padronização] aparece muitas vezes camuflada em diversidade. Temos a impressão de termos muitas escolhas, talvez até demasiadas. Esquecemo-nos dos inúmeros diferentes mundos possíveis que existem a todo o momento como sombras do mundo real."

Resgatar o real

Effigiae constrói-se exactamente como uma recuperação dessas sombras e, sublinha o artista, "como crítica da degradação da visão, na medida em que tenta recuperar o possível das garras do real", pois a "questão central [de Effigiae] não é o que é a visão ou a percepção, mas o que estas poderiam ser". "O pensamento, filosófico ou artístico, é neste sentido sempre uma tentativa de resgate."

Este é o momento na conversa para confrontar o artista com a sua formação em Matemática. O que o levou desta disciplina aos estudos em filosofia e à prática artística? "Senti que era altura de partir para outros mundos. A matemática dá-nos o prazer de formas bem definidas, claras e consensuais. Mas para isso paga um preço demasiado caro para mim. Fecha as janelas à confusão do mundo, àquilo que apenas se vislumbra, que se encontra em mutação. Não que o matemático viva fora do mundo. Pelas frinchas das janelas entra um pequeno fluxo de confusão de que se alimenta, purificando-o e ordenando-o. Continuo a gostar muito de matemática. Talvez um dia nos reencontremos."

Regressemos às sombras. Uma lente projecta a imagem da perna da galinha numa pintura romântica. O efeito é estranho e maravilhoso. Em rotação e iluminado, o corpo cria uma fenda na superfície da tela perturbando a cena representada: o bucólico encontro no campo partilha o espaço com um fenómeno potencialmente ameaçador: outra ilusão. Na parede, vemos mais uma sombra projectada. É a do corpo de um sapo que se sobrepõe, por meio de uma lente, à imagem de um molde de gesso de um pé. Duas sombras criam uma nova sombra ou a ilusão de narrativa (o que aconteceu ao sapo?).

A luz natural também está presente na exposição. Aparece por intermédio de um buraco e de uma camera obscura e detém-se na "membrana" (no molde) de um pedaço suspenso de cortiça. Este é a superfície onde vemos, sobretudo de dia, a imagem invertida das árvores da Avenida da Liberdade. A utilização pelo artista deste procedimento motiva uma questão. Depois de décadas a explorarem a tecnologia do vídeo, entre outras, como explicar o acentuado interesse (no contexto português e não só) pelos dispositivos pré-cinemáticos? "Com o tempo, numa espécie de selecção não natural, o cinema tornou-se no dispositivo padrão, tendo sido incorporado no real", sugere Sancho Silva. "Não creio que esse regresso seja mero movimento nostálgico, mas antes, mais uma vez, uma tentativa de salvação do possível que se encontra enterrado sob as ruínas do real."