Entrevista

“Ainda não existe capital de risco na dimensão de que o país precisa”

Carlos Oliveira, secretário de Estado do Empreendedorismo, criou uma nova sociedade de capital de risco público para dar corpo a este modelo de financiamento, mas garante que a Portugal Ventures não vai concorrer com os privados.

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“As empresas existem para criar emprego, valor para a economia e para pagar impostos” Helena Colaço

Portugal não pode ser o Silicon Valley da Europa, mas há um “enorme potencial para o país” na área das tecnologias da informação, diz Carlos Oliveira, um dos fundadores da Mobicom, vendida à Microsoft em 2008. O secretário de Estado do Empreendedorismo e Inovação diz que “durante muitos anos” as universidades não tiveram uma orientação para formar empreendedores.

Veio do mundo das empresas. Quando aceitou o cargo, tinha um plano? E está a cumpri-lo?
Tinha um conjunto de ideias que estão no programa do Governo e têm vindo a ser concretizadas. Por isso, a resposta é sim. O que queremos é gerar emprego qualificado e a capacidade de o país sair desta crise. O empreendedorismo é uma ferramenta fundamental. Temos muitas iniciativas na área da simplificação da vida dos empresários e dos empreendedores. Esta batalha sem tréguas à burocracia é fundamental para assegurar que temos um Estado que não dificulta a vida aos empreendedores.

Isso passa por mudanças a nível fiscal? O peso dos impostos é uma das queixas dos empreendedores.
Naturalmente que a competitividade fiscal não pode ser escamoteada. No Orçamento do Estado para 2013 há propostas muito concretas a nível fiscal, nomeadamente uma que está inserida no programa +Empresas, de reembolso da taxa social única ou parte dela a empresas com menos de um ano e meio de actividade que dêem emprego a pessoas qualificadas. Temos também um regime fiscal de apoio ao investimento que pretende trazer melhorias para a competitividade fiscal. Há propostas para que os business angels [investidores em firmas em início de actividade] de empresas até três anos possam ter um regime fiscal que lhes permita abater à colecta até 20% dos investimentos que façam, no máximo de dez mil euros. Sabemos que o país nos limita nas iniciativas fiscais, dado o momento em que se encontra e o programa subscrito pela maioria parlamentar.

Quando criam uma empresa, os empreendedores têm logo custos fiscais mesmo que não tenham receitas. O que é que está a ser feito para facilitar a vida às start-ups?
As empresas existem para criar emprego, valor para a economia e para pagar impostos. Um dos problemas que o país tem tido é que há poucas empresas a pagar impostos. Se houvesse mais, pagariam talvez em média menos.

Há países como o Reino Unido onde as start-ups estão isentas de vários impostos nos primeiros anos. Não teme uma fuga de empreendedores?
Não tenho dados de que estejamos a ter fugas de empreendedores. Tenho visto até empreendedores estrangeiros a olharem para Portugal como uma oportunidade por vários motivos. E já agora é muito bom que empreendedores portugueses possam ter relações e até criarem as suas empresas no estrangeiro.

O Governo analisou a fundo as potencialidades empreendedoras do país? Há actividades prioritárias?
Não cabe ao Governo dizer aos empreendedores onde apostar. Perguntam-me muitas vezes: “Em que sector devo apostar?”

A verdade é que os incentivos são quase todos focados em tecnologia.
São focados na inovação e no conhecimento e a tecnologia é uma das declinações. Há áreas que identificamos, como a aeronáutica, onde é preciso um estímulo público. Mas encontramos outros sectores: tecnologias da informação, ciências da vida, a área de materiais, mas também actividades mais tradicionais. Não há áreas milagrosas. O sucesso das empresas depende dos seus empreendedores e dos trabalhadores. É por isso que também queremos acabar com sectores protegidos e ter um ambiente mais concorrencial. Como empreendedor nunca pedi nada ao Estado a não ser que não me complicasse o caminho.

Há empresas e empreendedores que vivem de subsídios?
Ao longo de várias décadas, o país foi muito habituado à existência de um Estado que, nos momentos difíceis, acudia sempre, independentemente da sustentabilidade desses negócios. Aconteceu no passado, mas essa não é a nossa visão. Quando falo de apoios e financiamento, refiro-me ao que tem potencial de futuro. Não é criar uma cultura de subsídio-dependência, mas dar estímulos numa altura em que é preciso que se criem mais empresas vocacionadas para os mercados externos. O país precisa rapidamente de vencer a barreira dos 35,5% de exportações em percentagem do PIB para chegar aos 42%, que é a média europeia, e almejar estar nos 50, 60 ou 70%, que é onde estão os países com dimensão similar a Portugal.

O capital de risco em Portugal é suficiente e de qualidade? Os empreendedores dizem muitas vezes que o capital de risco não arrisca.
Não concordo com essa visão. Por acreditarmos que ainda não existe uma indústria de capital de risco na dimensão que o país precisa é que uma das primeiras iniciativas foi reformar o capital de risco público. Não para concorrer com os privados, mas para ser um instrumento público, a funcionar de acordo com aquilo que são as boas práticas internacionais e como um pilar fundamental de apoio para que a indústria privada possa co-investir. Quando converso com os operadores de capital de risco, nenhum me diz que não tem dinheiro para investir.

Mas há uma verdadeira mentalidade de risco?
No capital de risco diria que sim. Se for aos business angels, já depende muito...

Não basta ter uma boa ideia. É preciso trabalhar a montante. Preparar os empreendedores para ter conversas de investimento com este capital de risco, o que muitas vezes não acontece. O empreendedor acordou de manhã e acha que tem uma excelente ideia e vai ao capital de risco, que lhe faz três ou quatro perguntas e não vai investir num projecto que não tem um business plan sustentado, que não tem um conjunto de respostas claras a perguntas objectivas do capital de risco. 

Um dos objectivos que temos com o capital de risco público é que seja um “íman” para capital estrangeiro.


Como é que o capital de risco público pode ser um “íman”?
Fazendo aquilo que fomos fazer a Israel, que foi conhecer operadores de capital de risco e potenciais investidores e dizer-lhes que, se quiserem investir em empresas nacionais, não precisam de abrir cá escritórios. Mas podem co-investir nessas empresas com o capital de risco público.

Porque demorou tanto tempo a reorganizar o capital de risco público e a criar a Portugal Ventures?
Estou muito satisfeito com o tempo que demorámos. Foi pouco, sabendo que outros no passado pensaram fazê-lo e não conseguiram. Em menos de 12 meses, pensámos, executámos e, à data de hoje, só num dos programas (específico para novos empreendedores) recebemos 184 projectos, de 360 promotores, com um total de investimento previsto de 140 milhões de euros. Cem desses projectos são nas áreas das TIC [tecnologias da informação], os restantes nas ciências da vida e recursos endógenos. Vão ser avaliados de acordo com regras bem claras e alinhadas com as práticas internacionais.

Esses fundos serão atribuídos até ao final do ano?
Nas próximas semanas as candidaturas serão avaliadas. E em Fevereiro abre mais uma call for entrepreneuship [chamada para empreendedores]. O capital de risco público, para esta fase inicial, tem a ambição de investir 20 milhões de euros por ano.

Estão identificadas áreas com potencial externo. Quais são?

No capital de risco, são as áreas das tecnologias de informação, da Web, do mobile... Estão alinhadas com aquilo que são tipicamente áreas de investimento do capital de risco internacional. Mas isto não limita a apresentação de projectos empreendedores noutras áreas.

Mas essas são áreas em que Portugal não está nem particularmente bem, nem particularmente mal posicionado.
São áreas em que Portugal tem de se posicionar melhor.

Não há um excesso de empresas de Internet? O empreendedorismo na área da Web e do mobile tem muito o imaginário de Silicon Valley.
A nossa motivação não é dizer: “Agora Portugal vai ser o Silicon Valley da Europa.” Podemos olhar para Silicon Valley, Israel, Singapura e perceber o que têm feito. Não me quero focar só na área das TIC. Mas acredito que é onde há um enorme potencial para o país. Numa fase inicial, são pouco intensivas em capital, o que quer dizer que com pouco dinheiro é possível criar empresas e produtos. Numa fase seguinte, quando é preciso apostar fortemente na internacionalização, já não é preciso tão pouco capital.

Quando estão a falar de Silicon Valley, estão a falar com aquela imagem romântica de que todas as start-ups de Silicon Valley são altamente bem sucedidas. E não são. O rácio de falha é enorme. E depois há aqueles casos “um num milhão” que são muito bem sucedidos. Portugal só precisaria de um desses para ter um caso de grande sucesso.


Não acha que há uma aversão ao risco e uma pouca tolerância ao falhanço?
A questão cultural da aversão à falha é muito do Sul da Europa. De facto existe e é uma prioridade europeia. Nos conselhos da competitividade está-se a discutir como tornar um conjunto de normas mais amigas dos empreendedores que falham. Não é no falhar que está o ganho, mas é no falhar que está a aprendizagem e o ganho de experiência. Dar segundas oportunidades a empreendedores que honestamente falhem - a questão do honestamente é o ponto-chave - é uma prioridade das políticas europeias e nós estamos também a olhar para ela.

O ensino superior português cria empreendedores?
As nossas universidades e o nosso sistema de ensino não formam empreendedores. No Global Entrepreneurship Monitor [índice mundial que mede a taxa de empreendedorismo], Portugal surge como um país onde há muitas pessoas interessadas em ser empreendedoras. Mas ficamos abaixo da média europeia em termos de criação de empresas. Ser um empreendedor é muito mais do que ter uma boa ideia. O empreendedor até pode não ter tido a ideia. Tem é que ser a pessoa, ou grupo de pessoas, que, pegando numa boa ideia, seja capaz de a levar à prática.

Quando diz que as universidades não formam empreendedores, refere-se a questões de currículo ou à falta de ligações ao mundo empresarial?
O que eu quis dizer foi que as universidades não tiveram durante muitos anos uma orientação para formar empreendedores. Tiveram uma orientação para formar pessoas altamente qualificadas nas suas áreas e é esse o papel principal das universidades. Não estamos a querer alterar isso.

Até há pouco tempo, a criação de empresas não era apresentada aos estudantes como alternativa ao emprego por conta de outrem.
Mas muitas universidades já o estão a fazer. No último ano e meio tenho visto o surgimento de clubes de empreendedorismo nas universidades. O que queremos estimular é a criação de mais spin-offs das universidades através do conhecimento gerado. Não é obrigar um investigador a tornar-se empresário. Queremos potenciar dinâmicas para que se criem novas empresas ou para que as universidades possam aplicar conhecimento na inovação das empresas. Se as universidades podem ter conhecimento e competências com valor para as empresas, é preciso que as empresas conheçam e reconheçam isso.