Pelos altifalantes do ginásio, Jessica ouviu "tiros e gritos, choro e depois silêncio"

Centenas de pessoas juntaram-se na igreja de Newtown para chorar as vítimas do massacre na escola. Frente à Casa Branca em Washington vigília pediu regulamentação urgente do uso das armas.

Fotogaleria
Jovens em vigília junto à igreja de Santa Rosa de Lima, em Newtown Reuters
Fotogaleria
Crianças prestam homenagem às vítimas do massacre Reuters
Fotogaleria
Jovens confortam-se depois do massacre Reuters
Fotogaleria
As autoridades permaneceram no local Reuters
Fotogaleria
Comunidade acorreu à igreja onde rezou pelas vítimas Reuters
Fotogaleria
Mãe e filha dentro da igreja de Newtown Reuters

As primeiras vozes de quem lá esteve fazem-se ouvir e permitem reconstituir parte do horror vivido por crianças, professores e funcionários da escola de Sandy Hook em Newtown, no estado do Connecticut , no segundo pior massacre em estabelecimentos de ensino nos Estados Unidos. No país, em choque depois do massacre de sexta-feira, na escola de Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, as bandeiras estarão a meia haste em memória das vítimas, entre as quais 20 crianças.

Também morreram oito adultos, entre os quais o atirador que se terá suicidado e a mãe dele, professora na mesma escola. O atirador regressou à escola onde tinha sido aluno. Chamava-se Adam Lanza e tinha 20 anos. Entrou armado e começou a disparar.

Jessica Eisele, estava no ginásio. Nos altifalantes, ouviu "gritos e choro, tiros e depois o silêncio". Jessica ainda não fala. Foi o seu irmão que contou ao Washington Post o que a menina lhe disse.

Num vídeo de imagens recolhidas pela CBS, uma mãe, ainda em choque, agradece à professora que lhe salvou o filho. "Sabe que a professora o salvou?" A mãe tem a certeza. O filho comprova e conta que foi puxado para uma sala pela docente quando estava no átrio e via as balas a passarem à sua frente.

A directora da escola Dawn Hochsprung está entre as vítimas mortais. Tinha recentemente instalado um novo sistema de segurança. Nele, as portas ficavam trancadas todo o dia a partir das 9h30. Segundo alguns pais, o atirador terá conseguido entrar, sem levantar suspeita, por ser conhecido dos funcionários da escola, onde trabalhava a mãe e ele tinha sido um dos seus 600 alunos. Ainda há pouco tempo, mascarara-se de Fada dos Livros para estimular o interesse das crianças pela leitura e frequentemente partilhava no Twitter o que sentia ser o entusiasmo das crianças com as actividades da sua escola, como o concerto de Inverno que algumas estavam a ensaiar.

Assim que foram tendo conhecimento do sucedido, logo pela manhã de sexta-feira, os pais acorreram à escola sem saber se encontrariam os filhos vivos. “Toda a gente chorava”, conta ao Washington Post Joseph Wasik, um pai que viveu 20 minutos de horror antes de finalmente encontrar a filha. “Todas as pessoas gritavam: ‘Diga-me que não é o meu, diga-me, por favor, diga-me que não é meu!'” Os pais que não encontraram os filhos foram chamados para uma sala onde o governador Dan Malloy lhes deu a notícia.

Os residentes de Newtown, localidade com 27 mil pessoas é "unida", segundo alguns relatos. Ali toda a gente se conhecia e, agora, está em estado de choque. Centenas de pessoas juntaram-se na igreja católica de Santa Rosa de Lima para chorar as vítimas. “Nunca estamos preparados para uma coisa destas”, disse o governador.

“É muito cedo para falar de recuperação”, afirmou o responsável numa declaração ao país. Lamentou não ter palavras de conforto para pais e familiares das vítimas destroçados mas prometeu fazer o possível para que a comunidade, “visitada pelo mal”, recuperasse desta tragédia. Garantiu que isso seria um dia possível.

Mas Joseph Wasik diz que não é possível a sua filha regressar àquela escola e que a família deverá agora partir de Newtown. 

Apelos ao controlo de armas 
Frente à Casa Branca, em Washington, dezenas de pessoas juntaram-se numa vigília a pedir a regulamentação urgente do uso e porte de armas. “Senhor Presidente, estamos a rezar pelas suas acções”, lia-se num dos cartazes. “Estamos devastados, em luto profundo pelas crianças mortas que o que faziam era apenas estar a aprender." 

Newtown fica na história com o segundo tiroteio mais mortífero nos EUA até agora. Em 2007, o estudante Seung-Hui do Instituto Politécnico da Virgínia matou a tiro 32 pessoas antes de se suicidar. A investigação que se seguiu determinou que Seung-Hui sofria de graves perturbações mentais desconhecidas da direcção da Virginia Tech. 

Quando ainda ontem numa breve mensagem , o Presidente Barack Obama se dirigiu à nação, não contece as lágrimas ao falar das "lindas crianças” vítimas em mais um massacre numa escola. “Os nossos corações estão hoje partidos pelos pais, os avós, as irmãs, os irmãos, destas crianças pequenas e pelas famílias dos adultos que desapareceram”, disse Obama, que evitou alongar-se nas questões políticas da legislação relativa ao porte de armas de fogo, mas observou: “Já tivemos de passar por demasiadas tragédias como esta neste país. Independentemente das questões políticas, vamos ter de tomar medidas.”

Hoje na sua habitual mensagem semanal pela rádio e Internet, Obama apelou à união e solidariedade dos americanos neste momento de luto pelas vítimas e repetiu a mensagem da véspera sobre a necessidade de deixar a política de lado e “assumir acções concretas para prevenir tragédias como esta”, numa referência à tradicional oposição republicana a um maior controlo do uso de armas nos EUA.

O presidente da câmara de Nova Iorque Michael Bloomberg apelou ontem ao Presidente para que avance com uma proposta de lei apesar da previsível oposição dos republicanos que têm o domínio da Câmara dos Representantes.  Obama manteve-se afastado do assunto durante a campanha eleitoral que levou à sua reeleição, lembra a Reuters que escreve que continua a ser pouco claro se o Presidente está disposto a assumir uma posição mais assertiva sobre a matéria.

Quem era o atirador?
Duas pistolas foram encontradas na escola e uma espingarda no carro onde seguia Adam Lanza. De acordo com um responsável policial, citado pelo Washington Post, mas não identificado, as armas terão sido adquiridas legalmente.

O atirador de Newtown foi identificado como Adam Lanza. Entrou na escola e andou de sala em sala a disparar contra crianças e educadores. Ter-se-á depois suicidado. É descrito por alguns vizinhos e antigos colegas da escola como alheado, tímido mas nada ameaçador.  Mas há quem trace um perfil de uma pessoa que não se relacionava com ninguém e por isso levantava algumas suspeitas, que não olhava ninguém "olhos nos olhos" e que sentia desconforto em situações de convívio social. Um familiar disse que Adam Lanza teria uma forma de autismo.

Num retrato possível do atirador traçado um dia depois do massacre, o New York Times diz que Adam Lanza era inteligente e tímido, e que deixou poucos vestígios na vida. Não tinha página no Facebook e a sua fotografia não aparecia no livro de fim de ano da sua turma. Foi aluno daquela escola. Os pais separaram-se há dez anos e o pai Peter Lanza é contabilista e refez a vida em Stamford, também no Connecticut.

Adam Lanza tem um irmão Ryan Lanza, de 24 anos, que a polícia começou por confundir com Adam. Ryan vive em New Jersey, foi interrogado pela polícia mas está fora de qualquer suspeita, refere o Washington Post. Um vizinho dos Lanzas, ouvido pelo mesmo jornal, Ryan Kraft realça o estado depressivo dos rapazes depois da separação dos pais, há dez anos. Beth Israel, 43 anos, ouvida pelo New York Times “conhecia a família do tempo em que viveu na mesma rua. Recorda Adam Lanza como um miúdo "alheado” da realidade, fechado sobre si mesmo, mas “nada ameaçador”.  

Díficil de evitar, segundo peritos
Peritos em questões de segurança consideraram à Reuters que a escola, sem informação prévia, nada podia ter feito para evitar o massacre. Ao contrário do tiroteio de Columbine no Colorado em que dois estudantes mataram 12 crianças e um professor, o atirador de Newtown não era um estudante da escola mas um adulto da comunidade.

O secretário-geral das Nações Unidas expressou as suas mais profundas condolências e qualificou este crime contra crianças como “odioso e inconcebível”.

Numa carta ao governador do Connecticult Dan Malloy, Ban Ki-moon manifestou-se “chocado” por um crime destes atingir crianças e estendeu as suas orações às famílias das vítimas e a todos os que ficaram traumatizados.

Também do Irão, há 30 anos sem relações diplomáticas com os EUA, chegou uma reacção a condenar o massacre de sexta-feira. Numa declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Teerão apresentou condolências às famílias das vítimas, lamentou “o incidente” e apelou à “sociedade americana que participe no movimento de luta contra a guerra e o massacre de inocentes pelo mundo”. O Presidente Putin da Rússia apesentou a Obama as suas “sinceras condolências”. “O facto de a maioria das vítimas serem crianças causa um desgosto especialmente particular”, dizia o telegrama enviado do Kremlin.