As máscaras de: Papercutz

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Canções pop electrónicas feitas de pormenores, de sombreados, de máscaras que vão caindo - o mundo interior de Bruno Miguel desvenda-se em The Blur Between Us.

São cada vez em maior número os projectos portugueses que alcançam maior visibilidade fora antes de o conseguirem dentro, pelo menos de uma forma mais visível e expressiva. É o caso de :Papercutz, uma ideia desenvolvida por Bruno Miguel, com um segundo álbum no mercado, The Blur Between Us. Sobretudo ao longo dos dois últimos anos, ganhou visibilidade junto de várias pequenas famílias internacionais, através de remisturas (Sun Glitters, Abadabad ou os Heart Shaped Rock com a cantora Nite Jewel), de alguns concertos e de lançamentos em editoras americanas e europeias. O novo álbum foi produzido em Nova Iorque por Chris Coady, conhecido por ter trabalhado com os americanos Beach House, TV On The Radio, Gang Gang Dance ou Yeah Yeah Yeahs.

Nada disto interessaria verdadeiramente se a música não fosse estimulante. Mas acontece que o é, situando-se algures entre a pop electrónica de contornos sombrios, que tanto pode evocar os suecos Knife como a americana Zola Jesus, e as circulações pop mais sonhadoras de Julia Holter ou Laurel Halo.

No último álbum, ao lado de Bruno, ideólogo de todo o design sonoro, esteve a nova-iorquina Melissa Veras, que canta. Para já, ele vive em Vila do Conde, mas no próximo ano irá ser o representante português da Academia RedBull em Nova Iorque e promete ficar uns meses, ou até mais, nos Estados Unidos. "Com a Internet as regras mudaram", começa por afiançar, falando da sua vocação global, para relativizar logo de seguida: "Apesar de Portugal não ter por hábito exportar muita música, o que dificulta as coisas. E não é só na música."

Durante muito tempo, Bruno foi professor e informático em Portugal, sem muito tempo para a música, mas há dois anos que só se dedica à sua paixão. Um facto intensificado pela relação com os Estados Unidos, alicerçada durante o período de gravação do novo álbum. "Tenho afecto pelo país, pelas pessoas que fui conhecendo", diz, "e pelo que pude crescer como músico."

E aí chegamos ao nome do produtor Chris Coady, uma opção que Bruno justifica pelo facto de querer aprender com outras pessoas e desejar levar a música do projecto para outro patamar, depois da estreia com Lylac, em 2008. "Queria um som mais orgânico, mais elaborado e menos caseiro em termos electrónicos", afirma. O encontro com o produtor não foi difícil. "Pelo contrário, foi até muito simples. Limitei-me a convidá-lo e ele aceitou, porque existiam algumas referências comuns e ele tinha um furo na agenda." Acabou por aprender imenso, diz, apesar de nem sempre ter existido total acordo. "Tivemos discussões saudáveis sobre música e percebi que a aproximação dos americanos é muito diferente. Nos EUA começam por pensar nos processos em termos de concertos e só depois passam o registo. Na Europa é o contrário, com perdas e ganhos. Eles são mais pragmáticos e focam-se no núcleo da canção; o estúdio é a extensão do processo ao vivo."

Há semanas, no Ritz Clube, em Lisboa, e no Plano B, no Porto, fez-se a apresentação ao vivo do novo álbum. A noção de que o palco é fundamental na maturação dos :Papercutz não é uma ideia nova, mas dir-se-ia que depois da experiência americana essa relação foi consolidada, até porque ali os discos são projectados dessa forma.

Ou seja, o processo de gravação já tem em atenção a apresentação em palco. "Existe quase uma visualização de como o disco irá ser mostrado em concerto", explica ele. "Essa preocupação está sempre presente, ao nível dos instrumentos por exemplo. Já a componente estética deste disco está muito ligada aos concertos anteriores. A percussão, por exemplo, foi experimentada ao vivo em primeiro lugar."

Persona

Do ponto de vista estético, há uma tentativa de unir todas as pontas soltas, visível na forma como a foto da capa, as letras, a colaboração com o escritor José Luís Peixoto (é dele a letra da canção Between) e a sonoridade global das canções acabam por traduzir um universo exterior algo obscurecido, mas do ponto de vista interior expondo claridade. Uma opção conceptual definida desde o início: "Há pessoas que olham para a sua relação com a música como algo instintivo e primário. No meu caso, talvez porque não tenha formação formal em música, tenho uma maior preocupação para que todos os elementos, em conjunto, produzam um sentido", justifica Bruno. Isso não significa que o músico deseje intelectualizar o processo de composição. Pelo contrário, a sua vontade é criar um espaço que lhe permita potenciar o máximo de impacto emocional. "Gosto de conceitos e de ideias que possam conciliar diferentes elementos", diz. E exemplifica: "Isso ajuda-me a escolher os temas, as letras, as pessoas com quem vou trabalhar e as imagens." Mas nem sempre é assim tão objectivo: "A foto de capa, por exemplo, acaba por evocar não só a forma como nos relacionamos uns com os outros, mas também a construção da persona social, as máscaras, e isso só foi evidente quase no fim. O álbum é sobre isso também."

As máscaras são muito utilizadas, principalmente nas electrónicas, por agentes que desejam manter-se incógnitos (dos The Knife a Burial), com o argumento de que a música deve comunicar por si. Mas a estratégia tem sido tão repetida que também já se tornou um lugar-comum. "Sim, é verdade, abusou-se disso", assume Bruno. "Já não usamos máscaras ao vivo, embora me reconheça nessa ideia de o trabalho falar por si, como reacção a um cenário contemporâneo onde há excesso de cultura da personalidade."

Para já, não precisa de colocar nenhuma máscara para passar despercebido, mas no futuro próximo tudo pode acontecer.

Ver crítica de discos pág. 28 e segs.