Portugal divergiu desde a criação do euro e a tendência deverá acentuar-se

Dados de 2011 mostram a maior queda do PIB per capita português face à média europeia desde pelo menos 1995.

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Ao fim de 14 anos com o euro como divisa, Portugal não conseguiu concretizar a desejada convergência com os seus parceiros da União Europeia. No final do ano passado, o seu nível de bem-estar económico em comparação com a média da UE era já mais baixo do que no ano da criação da moeda única e a tendência, neste ano e nos próximos, é, segundo as últimas previsões, de ainda mais divergência.

Na quinta-feira, o Eurostat e os diversos institutos de estatística nacionais da UE, incluindo o INE, apresentaram os dados referentes ao PIB por pessoa, em paridade dos poderes de compra, dos 27 países da União Europeia em 2011. Este indicador - que mede o que se produz por pessoa, levando em conta as diferenças de preços registadas em cada economia - é um dos mais usados para medir e comparar os níveis de bem-estar económico em diferentes países.

Evolução decepcionante
No ano passado, Portugal registou um valor equivalente a 77,4% da média dos 27 países da UE, uma descida de 2,9 pontos percentuais face a 2010. De acordo com a série publicada pelo Eurostat desde 1995, este é o valor mais baixo alguma vez registado (idêntico ao de 2004, 1995 e 1996) e fica cerca de dois pontos percentuais abaixo do que acontecia em 1998, o último ano desde a entrada no euro.

Esta divergência no nível de vida dos portugueses é o resultado de uma evolução bastante decepcionante da economia portuguesa durante a última década, período em que as taxas de crescimento do PIB foram sistematicamente inferiores às da média europeia, com o país limitado pelos elevados níveis de endividamento no sector privado e público e incapaz de fazer face à concorrência de economias como a chinesa.

A descida registada em 2011 foi, de longe, a mais forte que se registou desde pelo menos 1995 e revela o efeito de afastamento da média europeia que a actual crise da dívida soberana está a ter sobre o país e, provavelmente, continuará a ter. É que, tanto para este ano como para os próximos, as previsões para o PIB per capita feitas pela Comissão Europeia no seu relatório de Outono apontam para novas descidas acentuadas do PIB per capita português face à média da UE.

Os números da Comissão Europeia não podem ser comparados directamente com aqueles que foram agora divulgados pelo Eurostat, mas mostram bem a tendência que é esperada: uma descida de mais dois pontos percentuais em 2012, seguida de mais quebras de 0,9 pontos em 2013 e de 0,5 pontos em 2014. No final deste período, o PIB per capita português, comparado com o europeu deverá assim ficar abaixo da barreira dos 75%.

15.º entre 17 países do euro
Entre os 17 países da zona euro, Portugal manteve, no ano passado, a mesma 15.ª posição que tinha em 2010, apenas acima da Eslováquia e da Estónia, segundo os dados divulgados na quinta-feira.

Portugal está em 21.º lugar no conjunto de 37 países europeus para que este indicador foi calculado pelo Eurostat, sendo 19.º entre os 27 da União Europeia.

Avaliado em euros, o PIB por habitante de Malta ou da República Checa é inferior ao de Portugal, mas, quando avaliado em paridades de poder de compra (PPC), o PIB por habitante daqueles países é superior ao português, devido a terem um menor nível de preços.

Os gabinetes estatísticos europeus medem ainda a despesa em consumo individual per capita em paridade do poder de compra. Também neste caso, Portugal registou uma descida do seu valor em percentagem da média da UE, passando de 84,1% para 81,4%. O valor é superior ao do PIB per capita, o que mostra o peso relativamente superior que o consumo tem na economia portuguesa.

No entanto, com a descida verificada no ano passado, este indicador já está também abaixo daquilo que se verificava no momento da entrada de Portugal no euro. Embora não haja previsões disponíveis neste caso, a tendência de descida deverá ser também inevitável, tendo em conta aquilo que está a ser a evolução do consumo nos actuais momentos de austeridade.