Numa floresta do Panamá, há 25 mil espécies de artrópodes

Trabalho inédito avaliou a biodiversidade numa dada área de floresta tropical à procura de escaravelhos, abelhas, formigas e outros artrópodes.

O escaravelho Megasoma elephas vive no solo, por baixo da folhagem, na floresta de San Lorenzo
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O escaravelho Megasoma elephas vive no solo, por baixo da folhagem, na floresta de San Lorenzo Cortesia de Thomas Martin, Jean-Philippe Sobczak e Hendrik Dietz

Ao contrário dos mamíferos, dos répteis ou das aves, o número de espécies de artrópodes que vivem nas florestas tropicais é uma grande incógnita. Os biólogos diziam que eram muito mais do que as que existem nas florestas temperadas e têm sido feitas várias estimativas. Mas nunca, até agora, se tinha realizado uma amostragem intensiva numa floresta tropical das espécies deste grupo animal.

Um consórcio de cientistas foi para uma floresta de Panamá, à procura de artrópodes de todos o tipo. Recolheu em dois anos 129.494 exemplares de 6144 espécies diferentes e estimou que, nos 6000 hectares dessa floresta, existiam 25 mil artrópodes, segundo relatou a equipa nesta sexta-feira na revista Science.

O trabalho de campo, em 2003 e 2004, foi na floresta de San Lorenzo. Os 102 cientistas envolvidos no estudo, liderados por Yves Basset, coordenador da Iniciativa Artrópode do Instituto Smithsonian de Investigação Tropical do Panamá, passaram os oito anos seguintes a analisar os exemplares recolhidos e a catalogar as suas espécies. Esta informação serviu ainda para analisar a biodiversidade da floresta.

“Desenvolvemos vários tipos de métodos para recolher diferentes subtipos de artrópodes que poderíamos encontrar na floresta”, explicou Basset em declarações num podcast da Science. “Aplicámos estes métodos desde o solo até à parte superior das copas florestais.”

Ao todo, usaram 14 métodos diferentes em cada sítio de amostragem no Panamá. Puseram técnicos a subir às árvores, foram à procura de nichos ecológicos, utilizaram balões de ar para alcançar os estratos mais altos da copa das árvores. Tentaram apanhar borboletas, moscas, escaravelhos, abelhas, formigas, insectos herbívoros, carnívoros, parasitas. Repetiram esta amostragem em mais 12 locais, em várias épocas do ano para ter a certeza de que apanhavam as várias fases de metamorfose das espécies.

A equipa utilizou depois modelos de biodiversidade para extrapolar o número de espécies que existem naquela floresta. Estimaram que há ali 25 mil espécies de artrópodes. O número de espécies novas para a ciência ainda não foi revelado, mas, segundo a estimativa da equipa, em grupos como os dos escaravelhos as espécies novas podem chegar aos 60 a 70%.

A equipa concluiu ainda que cerca de 60% desta biodiversidade pode ser encontrada em apenas um quilómetro quadrado de floresta, o que facilita este tipo de investigação noutros locais do mundo. Além disso, há uma relação estreita entre o número de artrópodes e de outros grupos de seres vivos: por cada espécie de planta vascular, ave ou mamífero existe respectivamente 20, 83 e 312 espécies de artrópodes.

Estas relações ecológicas podem ajudar a determinar o número de espécies noutras florestas tropicais. “As 25 mil espécies estimadas indicam que há um grande número de genes de artrópodes. A tragédia é que estas florestas tropicais estão a desparecer muito rapidamente, por isso podemos perder todos estes genes antes de sabermos o que fazer com eles e se podem ser úteis à humanidade”, defende Yves Basset numa entrevista aos jornalistas proporcionada pela Science.
 
 
 
 
 
 

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