Berlusconi ataca Merkel e responsabiliza Monti pela crise italiana

O actual chefe de Governo não se recandidatará. Adivinha-se uma campanha eleitoral complicada em Itália.

Berlusconi abriu a crise política para dizer que só ele a pode resolver
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Berlusconi abriu a crise política para dizer que só ele a pode resolver FILIPPO MONTEFORTE/AFP

O antigo primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi acusou o actual chefe de Governo, Mario Monti, de ter levado a Itália para a recessão ao seguir a política ditada pela Alemanha.

Numa entrevista na segunda-feira à noite à estação de televisão Canal 5, Berlusconi, que anunciou que voltará a tentar ser chefe do Governo nas eleições de Março ou Abril, acusou Monti – que não será candidato – de ter aplicado uma política de austeridade "nociva". Esta política, disse, foi planeada para beneficiar a Alemanha e permitir a este país, liderado por Angela Merkel, reduzir os custos do seu endividamente à custa dos outros países.

"O Governo de Monti seguiu a política alemã que a Europa trata de impor a outros estados e criou uma situação muito pior do que quando estávamos no Governo", disse Berlusconi, forçado a demitir-se em Novembro de 2011 devido ao agravamento da crise financeira italiana.

Monti anunciou a demissão e marcou eleições legislativas antecipadas depois de Silvio Berlusconi ter dito que tentaria o seu regresso político, retirando o apoio do seu Partido Povo da Liberdade (PdL) ao Governo.

"Creio que é importante que o jogo político seja retomado em Itália e espero que com um maior grau de responsabilidade e maturidade", disse Monti, que sucedeu a Silvio Berlusconi, ao confirmar que não será candidato ao cargo de primeiro-ministro e retomará o seu lugar no Senado de Roma.

Os mercados reagiram mal a esta crise – a bolsa de Milão caiu, arrastando consigo as praças europeias –, mas Berlusconi disse que não há motivo para "os mercados se agitarem". "Quando eu representava a Itália na Europa, era um dos dois ou três chefes de Governo mais respeitados", disse na entrevista. "E a verdade é que me opunha às exigências alemãs que arrastaram a Grécia para uma quase guerra civil."

A campanha eleitoral em Itália, e à luz destas declarações, adivinha-se um período difícil, de grande desentendimento e de possíveis rupturas. O próprio Berlusconi anunciou que pode romper com o Povo da Liberdade, deixando de lado os antigos aliados que contestam o seu regresso e criando uma nova formação política de centro-direita para combater a esquerda e uma aliança que surja neste campo. Na semana passada, Pier Luigi Bersani foi eleito candidato à liderança do Governo nas primárias do Partido Democrata.

Berlusconi aproveitou o momento da eleição de Bersani para definir o seu regresso e abrir uma nova crise política em Itália dizendo que não permitiria que o país pudesse vir a ser governado por um ex-comunista. Ao Canal 5 disse que usará de todas as suas armas para manter a direita no poder, falando de uma aliança eleitoral com a Liga Norte.

Berlusconi apresentou-se, pois, como a figura da política italiana capaz de retirar o país da crise (financeira e política), depois de ter sido afastado do Governo precisamente pelo seu papel na criação dessas crises.

Quando foi forçado a demitir-se, em 2011, a revista Economist escreveu "Aleluia. Nunca desde que o patrocinador político de Silvio Berlusconi, Bettino Craxi, fugiu para a Tunísia para evitar ser preso por corrupção houve um primeiro-ministro italiano a sair do cargo de um modo tão humilhante. A noite passada, depois de finalmente se demitir, Berlusconi saiu por uma porta lateral do palácio presidencial para escapar uma multidão hostil, que gritava 'palhaço' e 'mafioso'”.

 

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