Edifício que ruiu em terramoto na Nova Zelândia tinha "falhas graves"

Relatório de comissão de inquérito critica construção, em 1986, e avaliação após outro terramoto registado em 2010.

O terramoto de Fevereiro de 2011 fez 185 mortos
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O terramoto de Fevereiro de 2011 fez 185 mortos Reuters/Kyodo

O relatório sobre a queda do edifício da televisão neozelandesa CTV no terramoto de Fevereiro de 2011, em Christchurch, não poupa nas palavras para descrever os motivos que contribuíram para a morte de 115 pessoas: o engenheiro responsável pela construção "estava a trabalhar acima das suas competências", o seu chefe "sabia" desse facto e as autoridades não deveriam ter emitido uma licença de construção com base nos planos originais, de 1986.

O documento final sobre a qualidade da construção dos edifícios que sofreram danos no terramoto do dia 22 de Fevereiro de 2011 na região de Canterbury, na ilha sul da Nova Zelândia, resultou de um inquérito que começou em Abril de 2011 e que ficou concluído em Novembro passado. A principal conclusão? "Como alguns elementos do código aplicável eram confusos, não deveria ter sido emitida uma licença para a construção do edifício tal como ele estava planeado."

Na análise ao desastre natural – que fez um total de 185 mortos, 115 dos quais no edifício da Canterbury Television (CTV), em Christchurch –, os membros da comissão nomeada pelo Governo não poupam os responsáveis pela construção, mas também são muito duros em relação às autoridades de supervisão.

Quanto à competência do engenheiro David Harding para liderar o projecto de construção, em 1986, os membros da comissão não têm dúvidas: como se pode ler no relatório, Harding "estava a trabalhar acima das suas competências". Para a comissão, o engenheiro "deveria, ele próprio, ter reconhecido esse facto", devido à sua falta de experiência, mas também acusa o seu empregador, Alan Reay – dono da empresa Alan M Reay Consulting Engineer –, de saber que o projecto de construção do edifício da CTV "estava a levá-lo [ao engenheiro David Harding] para além dos limites da sua competência". "O dr. Reay não deveria ter deixado que o sr. Harding trabalhasse sem supervisão", concluem os membros da comissão.

Sobre a atribuição de um rótulo verde ao edifício após o terramoto de 4 de Setembro de 2010 – cinco meses antes do tremor que provocou a queda da CTV e a morte de 115 pessoas –, a comissão de inquérito conclui que os técnicos que avaliaram os danos "foram enviados sem instruções claras, o que levou à decisão de tratar esta inspecção como uma Avaliação Rápida de Nível 2 (uma breve inspecção visual exterior e interior), que resultou na atribuição de um rótulo verde, apesar de nenhum engenheiro ter avaliado o edifício, algo que é exigido num caso de Avaliação Rápida de Nível 2".

Ainda assim, a comissão conclui que "não é possível ter a certeza de que, se a inspecção tivesse contado com a presença de um engenheiro, o rótulo verde teria sido substituído por um rótulo amarelo (um aviso que limitaria o acesso ao edifício)".

Num comunicado publicado esta segunda-feira no seu site oficial, o primeiro-ministro da Nova Zelândia, John Key, afirma que o documento proporciona uma leitura “cruel” e salienta que 175 das 185 vítimas mortais “resultaram de falhas em edifícios ou em parte de edifícios". "Devíamos-lhes [às vítimas mortais], aos seus entes queridos e às pessoas que ficaram gravemente feridas no terramoto, a busca de respostas para perceber por que razão alguns edifícios falharam com tal gravidade", afirma o primeiro-ministro neozelandês. Quanto a eventuais medidas para punir responsáveis, John Key diz apenas que "o Governo precisa de tempo para analisar com cuidado o relatório e as recomendações da comissão para transmitir a sua resposta", o que deverá acontecer "entre o início e meados de 2013".

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