Turismo: aumento de cursos está desfasado do mercado

Aumento de licenciados na área do turismo criou uma situação "desfasada da realidade do mercado". Cátia Rebelo, de 27 anos, queria gerir um hotel, mas está desempregada há sete meses

Seis anos depois de ter concluído a licenciatura em Turismo e de breves passagens por estágios e empregos na área das vendas e consultadoria, Cátia Rebelo percebeu que o “canudo”, tal como lhe diziam familiares, “não abre portas”. “Eu era muito positiva, achava que as coisas não deveriam ser tão más como diziam e que com força de vontade qualquer estágio ou emprego iria aparecer. Não podia estar mais enganada. Depois da licenciatura vieram estágios não remunerados, trabalhos a recibos verdes e à comissão. Durante estes seis anos só consegui um contrato de seis meses, que não me permitiu ter acesso ao subsídio de desemprego”, contou, Cátia Rebelo, de 27 anos e desempregada há sete meses.

Quando terminou a licenciatura em turismo, com especialização em gestão de empresas turísticas, Cátia tinha como objectivo gerir um hotel. “Claro que, depois, quando comecei à procura de emprego, deparei-me com excesso de licenciados no sector do turismo e [com o facto de] as saídas, afinal, serem poucas, porque o sector é um dos mais afectados pela crise”, disse. Ainda assim, Cátia Rebelo acabou por ir trabalhar numa empresa de consultadoria de turismo a recibos verdes, tendo depois estado dois anos na área comercial de uma outra empresa, onde ganhava à comissão, e, mais recentemente, numa clínica dentária, como directora e assessora comercial.

“Foi o único sítio onde trabalhei com um contrato de trabalho, de seis meses, mas à séria, mas durou pouco. Com a crise, a clínica teve de dispensar pessoal e, como já vai sendo hábito, os contratados são sempre os primeiros a sair”, referiu. Desde então tem enviado currículos, estando também inscrita no centro de emprego da sua área de residência, mas, até agora, não foi contactada nem com propostas de emprego nem para fazer formação.

A viver em união de facto e sem filhos, Cátia diz que, apesar de desempregada, a sua situação já esteve bem pior do que hoje. “O meu marido é engenheiro eletrotécnico e esteve desempregado durante dois anos”, mas, numa altura em que “eu não recebo qualquer subsídio e o dele estava a acabar, começou a trabalhar há um mês”, disse. Mesmo assim, diz já ter sido obrigada a cortar nas despesas correntes, reduzir viagens e refeições fora. “Cortamos em tudo excepto na comida e nas contas básicas. A conta do supermercado é cada vez maior e com menos coisas no carrinho”, disse, salientando que, até agora, ainda não tiveram de pedir ajuda aos familiares porque conseguiram fazer algumas poupanças nos últimos anos e não contraíram dívidas.

O perigo do aumento de licenciados

O presidente da Confederação de Turismo Português (CTP), Francisco Calheiros, considera que, nos últimos anos, houve um aumento de licenciados na área do turismo, criando uma situação “desfasada da realidade do mercado”. “Houve um aumento de licenciaturas em cursos da área do turismo que estão desfasados da realidade das empresas e que não preparam suficientemente os seus alunos para o mercado de trabalho numa altura de crise”, disse Francisco Calheiros.

 

O presidente da Confederação lembrou que o sector, nomeadamente a actividade do alojamento, restauração e similares, integra, “infelizmente”, o ranking das principais actividades económicas que representam 62% da taxa de desemprego registado pelo Instituto do Emprego e da Formação Profissional (IEFP).

“A CTP não tem informação estatística sobre o número de alunos que terminaram este ano uma licenciatura em turismo, mas se atentarmos que o desemprego jovem cresceu 26,7% relativamente ao mês homólogo de 2011 e que destes, os habilitados com cursos de nível superior, representam mais 43,1%, a situação relativamente aos licenciados dos cursos de turismo não será melhor”, realçou.

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