Portugal perde um milhão de toneladas de alimentos por ano

O primeiro estudo nacional sobre as perdas ao longo da cadeia de aprovisionamento alimentar é apresentado quinta-feira na Gulbenkian. O país desperdiça 17% dos alimentos produzidos para consumo humano - menos do que a média europeia

Há quem deite fora um iogurte que está fora do prazo, quem ponha no lixo os restos do jantar, ou o lanche que o filho não comeu, a fruta que amadureceu de mais, as sobras que guardou durante uma semana com a intenção de os aproveitar e que, entretanto, se estragaram. Podem ser pequenas quantidades, mas, se somarmos o que cada um de nós, consumidores, deitamos fora, percebemos que estamos a contribuir para o milhão de toneladas de alimentos que anualmente são desperdiçados em Portugal. Um valor que corresponde a 17% do que o país produz.

Do Campo ao Garfo - Desperdício Alimentar em Portugal, o primeiro estudo deste tipo feito no país, é apresentado quinta-feira (a partir das 15 horas) na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na última sessão-debate do ciclo sobre Alimentação, em parceria com o PÚBLICO.

Os autores do estudo - os investigadores Sofia Vaz, Pedro Baptista, Inês Campos, Iva Pires e David Silva e Sousa - lançaram o PERDA - Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar (ligado ao Cestras - Centro de Estudos e Estratégias para a Sustentabilidade), com o qual ganharam o Prémio Ideias Verdes financiado pelo jornal Expresso e a Fundação Luso, o que lhes permitiu fazer o estudo.

Queriam perceber se em Portugal se confirmava o que outros estudos, nomeadamente o realizado em 2011 pela FAO (Food and Agriculture Organization, das Nações Unidas) mostravam: o maior desperdício na cadeia alimentar dá-se na fase final, do consumo pelas famílias. E os dados recolhidos confirmaram que deitamos fora uma parte significativa do que compramos para comer.

Mas enquanto a FAO estima que, na Europa, as perdas e desperdícios atinjam os 280 quilos per capita por ano, sendo que 34% provêm dos consumidores, o PERDA calcula que, em Portugal, esse valor seja de 97 quilos por habitante, muito inferior, portanto, à média europeia, embora com a mesma percentagem de responsabilidade dos consumidores.

Mas é fundamental fazer-se uma leitura mais fina dos dados. Nas duas fases iniciais da cadeia de aprovisionamento, a produção e a indústria, fala-se em "perdas", porque grande parte do que ali poderia destinar-se à alimentação humana é reaproveitado - quer para alimentação dos animais, quer por reintegração no solo.

"A indústria é altamente eficiente", explica Pedro Baptista. "Primeiro, selecciona a matéria-prima para minimizar o desperdício e, depois, tudo o que sobra de comestível transforma-se em subprodutos para rações".

Mas essa eficiência da indústria já não se verifica na distribuição (embora, também aí, a situação tenha vindo a melhorar) e, sobretudo, não se verifica na fase do consumo familiar - e então já se fala em desperdício. Daí que o estudo tenha dado uma especial importância aos hábitos de consumo, começando com um inquérito online a 800 pessoas e passando depois para entrevistas com 41 famílias.

Os dados recolhidos mostram que a maior parte das perdas é de hortícolas, cereais, frutos e lacticínios. Um dos alimentos mais afectados é o pão, com muitas perdas nas padarias (por dificuldade em calcular as vendas) e nos consumidores. No caso do arroz , Portugal é um grande produtor (quase atinge a auto-suficiência) e não se perde muito no consumo final porque os prazos de validade são longos. As maiores perdas ocorrem na produção (ceifeiras mal afinadas), no armazenamento (risco de pragas) e na indústria (grãos partidos ou com defeito são excluídos).

No pescado, as perdas maiores registam-se na produção, com um nível elevado de devoluções ao mar, ao qual se soma o que chega à lota sem valor comercial e é encaminhado para a indústria de farinhas ou usado como isco. Na transformação industrial, o peixe representa uma excepção ao padrão nacional de eficácia: perdem-se, no processamento, oito mil toneladas/ano, ou seja, um quarto do total das perdas de pescado. A indústria de conservas, por exemplo, "aproveita apenas metade do peixe, devido à extracção de vísceras, barbatanas e cabeça".

E o que acontece quando, finalmente, os alimentos chegam às nossas casas? O estudo conclui que famílias com filhos tendem a desperdiçar mais, devido a "alterações nos apetites das crianças". Há também problemas no armazenamento - o congelador poderia ajudar a preservar os alimentos mais tempo, mas o que acontece é que ficam lá esquecidos, até já não poderem ser aproveitados.

O tamanho das embalagens também é um problema. Sobretudo em famílias de uma ou duas pessoas, algumas são demasiado grandes, e o conteúdo acaba por se estragar. Isto mesmo tendo em conta que os portugueses encaram os prazos de validade dos alimentos com alguma descontracção - apenas sete dos 41 entrevistados disseram respeitá-los rigorosamente.

Quanto às sobras, a intenção da maioria das pessoas é reaproveitá-las, mas frequentemente são guardadas e esquecidas, e acabam no lixo. Entre os entrevistados, há quem confesse que não gosta de comer sobras, há quem mostre a preocupação com a eventualidade de faltar comida ("Não pode faltar comida ao jantar, não é?"). E há quem, confrontado com o desperdício que existe, conclua: "Bem, a verdade é que - tenho que dizer a verdade, não é? - se gastarmos 100 euros, em média, acho que 30 vão para o lixo!".