Afinal, há seis (e não três) espécies de lampreias em Portugal

Passam grande parte da vida enterradas no leito dos rios — na realidade, quatro a cinco anos, como larvas. Umas vão para o mar e são as comestíveis, outras mantêm-se sempre nos cursos de água doce.

A lampreia-do-sado (<i>Lampetra lusitanica</i>) é uma das novas espécies identificadas
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A lampreia-do-sado (Lampetra lusitanica) é uma das novas espécies identificadas Filipe Lopes

Tanto quanto se sabia, só viviam três espécies de lampreias em Portugal. De uma só assentada, uma equipa de biólogos portugueses anuncia agora a descoberta de outras três espécies, que vivem em áreas muito limitadas de alguns rios. Assim, à lampreia-marinha, à lampreia-de-rio e à lampreia-de-riacho juntam-se agora a lampreia-da-costa-da-prata, a lampreia-do-nabão e a lampreia-do-sado, nomes que remetem para os seus locais de origem.

A lampreia-marinha (Petromyzon marinus) é aquela que é um autêntico pitéu e que leva muita gente em romarias gastronómicas. Já a lampreia-de-rio (Lampetra fluviatilis) e a lampreia-de-riacho (Lampetra planeri) não se comem e são mais raras do que a sua congénere marinha, pelo que estão classificadas como “criticamente em perigo” de extinção, na última versão do Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, de 2005.

Tanto a lampreia-de-riacho como a lampreia-de-rio encontram-se distribuídas pela Europa, onde são abundantes — mas, na Península Ibérica, a sua situação muda de figura e concentram-se quase só em Portugal. A lampreia-de-riacho está presente sobretudo em Portugal, desde o Douro até ao Sado, pois em Espanha limita-se a dois núcleos populacionais muito circunscritos no Norte do país. Já a lampreia-de-rio foi declarada extinta em Espanha e, em Portugal, encontra-se somente no troço inferior dos rios Tejo e Sorraia. Para cada uma destas espécies, a população não ultrapassará os dez mil indivíduos.

Agora, o trabalho desenvolvido na tese de doutoramento de Catarina Mateus — orientada por Pedro Raposo de Almeida, do Centro de Oceanografia da Faculdade de Ciências de Lisboa e da Universidade de Évora, e Judite Alves, do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em Lisboa — permitiu a identificação das três novas espécies. Serão descritas num artigo já aceite para publicação na revista alemã Contributions to Zoology, assinado ainda pelo biólogo Bernardo Quintella, também da Faculdade de Ciências de Lisboa.

Este resultado é o culminar de dez anos de trabalho, que remonta ao início da revisão do Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, realça Pedro Raposo de Almeida. “Nessa revisão, fizemos um levantamento em todo o país da distribuição das espécies e encontrámos uma série de pequenas populações que não estavam descritas.”

Essas populações ficaram então incluídas como lampreias-de-riacho no livro que avalia o estatuto de conservação dos vertebrados portugueses: “Percebemos que havia pequenas diferenças, sobretudo genéticas, num grupo de lampreias-de-riacho. Mas, até se confirmar que são espécies diferentes, há um trabalho muito grande pela frente”, explica Pedro Raposo de Almeida.

Ainda que as diferenças sejam principalmente genéticas, elas também têm menos dentes.

As três novas espécies são endémicas de Portugal, o que significa que vivem apenas aqui. A lampreia-da-costa-da-prata (Lampetra alavariensis) é endémica das bacias hidrográficas do Vouga e do Esmoriz, enquanto a lampreia-do-sado (Lampetra lusitanica) existe só nesta rede hidrográfica e a lampreia-do-nabão (Lampetra auremensis) se restringe a esta bacia afluente do Tejo.

Para a equipa, não há grandes dúvidas de que as três novas espécies devem ser consideradas como “criticamente em perigo” de extinção, até porque a espécie de onde foram agora retiradas já tem esse estatuto de conservação. “Além de serem espécies endémicas e as áreas de distribuição serem muito restritas, as populações são muito pequenas e sofrem muitas pressões antropogénicas. As linhas de água, sobretudo do Sado, têm muitas pressões em termos agrícolas.”

Ao todo, as três novas espécies terão 10 mil a 20 mil indivíduos, embora só com um levantamento populacional se possa fazer uma estimativa mais rigorosa.

Caminhos diferentes após a metamorfose

Uma das fases em que as lampreias estão muito vulneráveis é aquela em que ficam enterradas nas zonas arenosas do leito dos rios, como larvas — na verdade, passam quatro a cinco anos nisso, filtrando a água para se alimentarem de pequenos organismos em suspensão. Na fase larvar, se for feita uma regularização do leito do rio, se houver extracção de areias ou for construída uma barragem na zona onde elas estão enterradas, uma parte da população é eliminada. “Não lhes pode faltar a água”, diz ainda Pedro Raposo de Almeida.


Decorridos aqueles anos todos entre os sedimentos, elas sofrem uma metamorfose, em que, por exemplo, desenvolvem uma boca circular em forma de ventosa. E então as espécies seguem caminhos distintos.

A lampreia-marinha, que pode ter um metro de comprimento, faz uma migração para o mar, onde fica durante um a dois anos, parasitando outros peixes, até que regressa ao rio para desovar e morrer. A lampreia-de-rio também migra, mas pouco: “A nossa percepção é que tem uma migração muito restrita: achamos que nem sai do estuário do Tejo. Também é parasita.”

Já a lampreia-de-riacho e as suas primas agora identificadas, que podem ter cerca de 15 centímetros, não se alimentam depois da metamorfose. Na fase adulta, de alguns meses apenas, limitam-se a reproduzirem-se e, depois disso, morrem.