Alt-J, como num jogo de computador

Ganharam o Mercury há pouco mais de um mês com "An Awesome Wave" e passam por Portugal a 7 de Dezembro, primeiro dia do Vodafone Mexefest. Ao P3, o baixista dos Alt-J, Gwil Sainsbury, passa em revista este ano/jogo de computador

No mês passado, deram de caras, pela primeira vez, com "merchandising" muito pouco oficial, acabadinho de sair do mercado negro. À chegada a Hong-Kong são surpreendidos pelos fãs com porta-chaves e biscoitos exclusivos. Há pouco mais de um mês, estavam a ganhar o Mercury para melhor álbum do ano com "An Awesome Wave". E têm pela primeira vez um autocarro de digressão ("quite cool"). Tem sido um ano "incrível", repete, a partir de Berlim, Gwil Sainsbury, baixista e guitarrista de um dos fenómenos da pop britânica — Alt-J. Já foram Films, já foram Daljit Dhaliwal (pivô da Al-Jazeera), mas foi o atalho do Mac para criar o delta que vingou como nome final. Porque soava bem: "Não, não temos nenhuma obsessão por triângulos", garante o músico, entre risos.

Actuam no Teatro Tivoli BBVA, esta sexta-feira, dia 7 de Dezembro, primeiro dia do festival Vodafone Mexefest, pretexto para uma conversa sobre este ano/jogo de computador. Já explicamos. Primeiro, uma confissão: "Estou curioso em relação ao tempo que está em Lisboa."

Lembras-te do vosso primeiro concerto em Portugal [festival Milhões de Festa]?


Sim, foi incrível, mesmo incrível. Nenhum de nós tinha estado antes em Portugal e nem sabíamos se o nosso disco tinha sido lançado no país. E acabámos por tocar ainda para uma multidão, até porque no festival os concertos não eram ao mesmo tempo. Muita gente conhecia o álbum, foi muito fixe. E havia uma festa na piscina inacreditável. 




Foi este Verão e, enquanto Inglaterra inteira estava a falar sobre vocês, por cá ainda eram ilustres desconhecidos. Regressam, mas já como um dos destaques do Vodafone Mexefest. Vão ser concertos diferentes?

Sim, provavelmente vão ser concertos diferentes. Ainda não temos uma equipa para a luz (risos), mas... acho que nos tornamos mais confiantes no palco. No início, não éramos mesmo uma banda. Não era sobre tocar ao vivo, era sobre escrever canções e gravá-las. Tocar ao vivo, para nós, foi sempre uma coisa assustadora. Mas agora estamos constantemente em digressão, a tocar todos os dias.

Se não fosse a Internet, não teríamos chegado nem de perto ao nível de sucesso que tivemos este ano, diz Gwil

É uma vida cansativa?

Toda a gente descarrega ficheiros via 'torrents'. A indústria tem de mudar e os concertos e o merchandising são uma saída

Sim, é cansativo, às vezes. Andar em digressão é um estilo de vida difícil. É muito intenso. Tem-se momentos incríveis e outros terríveis. É como a vida, mas condensado numa digressão. Um bocado como uma montanha-russa. 

As vossas músicas têm, muitas vezes, várias camadas, vários ritmos, folk versus rock, vozes "a capella" conjugadas com uma bateria furiosa. Nem sempre é fácil, por isso, definir o vosso som. Há algum género que pretendam atingir? 

Não, de todo. O resto da banda está numa posição bastante invulgar porque nos apercebemos que a voz do Joe [Newman, vocalista] é tão diferente que pode funcionar como a única coisa constante no álbum. Não temos de nos preocupar muito em ter um "som da banda" porque a voz do Joe é o factor que define o nosso som. Isso dá ao resto da banda a liberdade de baralhar as coisas, depois juntá-las e, basicamente, de nos divertirmos. 

"Matilda" remete para "Léon" de Luc Besson, "Breezeblocks" para "Where The Wild Things Are", "Taro" conta a história de amor de Robert Capa e Gerda Taro. O Cinema e a Literatura são inspirações?

O Joe inspira-se muito em cenas de filmes. Mesmo a maneira como ele escreve — basicamente anota tudo aquilo que acha interessante e depois compõe tudo para fazer uma canção. É uma técnica de colagem aplicada à escrita de canções. Mas acho que nos inspiramos uns nos outros. É, acho que é isso. Quando nos juntámos pela primeira vez e começámos a fazer música acho que ficámos todos surpreendidos como é que o conseguíamos fazer enquanto grupo. Eu já tinha tocado com outras pessoas mas nunca tinha sido muito bom. E quando os quatro nos juntámos e começámos a tocar... acho que ficamos surpreendidos uns pelos outros. 

Isso deve dar jeito em digressão...

Sim. O problema é que nem sempre estamos com os nossos instrumentos em viagem. Recorremos a guitarras acústicas, mas nunca há grande tempo. 

 

Estão a enfrentar o drama do segundo álbum? 

Sim, estamos a pensar muito nisso. Principalmente porque nos estão sempre a perguntar isso (risos). Estamos com a agenda repleta até final de Setembro do próximo ano. Não há hipótese de entrar no estúdio de gravações.

 

Mas têm tido tempo para compor?

Tentámos aproveitar os "soundchecks". Normalmente são rápidos e, por isso, temos o resto do tempo para trabalhar em novas canções. Mas esse é o único esse o único tempo que temos — e talvez no autocarro de digressão. É difícil. Perguntam-nos muitas vezes isso e pensamos muito nisso, em maneiras de o fazer. Tendo isto em conta, convém dizer que o "An Awesome Wave" demorou quatro anos a ser feito. Se o próximo tiver de demorar quatro anos para nós ficarmos contentes com ele, então demora quatro anos. 

Há pouco mais de um mês estavam a ganhar o Mercury Prize. O que se segue? O mundo?

(Risos) Este ano foi como um jogo de computador. Daqueles que se completares as tarefas vais subindo de nível. Hmmm.... vou tentar não pensar nisso. Nós nunca tivemos um objectivo definido. Na Universidade estávamos a fazer música; depois tirámos o curso e, de repente, a indústria musical começou a ficar interessada; precisámos de uma editora, tivemos de oficializar a band a. Foi sempre mais como "ok, isto está a correr mesmo bem, devíamos ser uma banda para ver como corre". Essa sempre foi a atitude. Nunca foi muito ambicioso. Nível por nível, vamos indo, vamos vendo. Se tentarmos fazer planos, perdemos a diversão e a espontaneidade.