Crítica

O peso da responsabilidade

Às vezes, é preciso entender que não escrever é melhor do que escrever. E isso deveria ter pensado José Luís Peixoto quando se deixou seduzir pela possibilidade de visitar a Coreia do Norte

Há um segredo muito mal guardado neste livro: José Luís Peixoto, o próprio, na primeira pessoa, fazendo toda uma viagem aparentemente reveladora, uma epifania, pelo país mais fechado do mundo. E há outro que nunca chega a revelar-se apesar do título afirmativo do livro: a Coreia do Norte. O país mais fechado do mundo continuará a ser o mais fechado do mundo e dele pouco sabemos mais do que já sabíamos depois deste livro. A não ser que pecado meu - tenha interpretado mal as intenções do narrador e o segredo que nos pretenda revelar seja próprio e não alheio: o de José Luís Peixoto na Coreia do Norte e não o próprio país, o regime, a fome, a tortura, a morte na ditadura mais maquiavélica da era moderna, com a sua capacidade não só de matar mas, pior ainda, de transformar um povo num conjunto autómato de gente que vive apartada do mundo e respira propaganda.

Reconheça-se, à partida, que a tarefa estava demasiado espartilhada para chegar a bom porto. Uma visita oficial guiada sem possibilidade de contacto directo com os norte-coreanos realizada por um escritor cheio de boas intenções mas que nem sequer fala coreano, com visita a monumentos e museus e discursos programados, estava condenada à partida. Mas Peixoto não resistiu a querer fazer dela mais do que foi: uma visita turística à Coreia do Norte. E se, como escreve três vezes para não termos dúvidas, é contra ditaduras e regimes totalitários, a verdade é que se deixa levar pelo entusiasmo e embarca na propaganda do regime norte-coreano de uma maneira ingénua e perigosa; dá-lhe um rosto humano de incrível tranquilidade e mansidão: “Nesse momento, pareceu-me saber exactamente porque tinha ido à Coreia do Norte. Entre as casas, no emaranhado de ruas estreitas, podia ver um homem a passar de bicicleta, uma mulher velha a puxar uma vaca, ou um grupo de rapazes que corriam atrás de um papagaio de papel, uma cor tranquila que deslizava e que continuava a ver sobre os telhados, mesmo depois de os rapazes desaparecerem.”

É como se, na câmara de torturas, José Luís Peixoto fosse o encarregado de descrever o ambiente geral, mas sem torturadores nem torturados. E a câmara de torturas passasse a ser apenas um espaço de tranquilo silêncio, afastado do mundo, onde o escritor pudesse pensar e ler Dom Quixote tranquilamente à luz de uma lanterna. Até a escolha de levar uma cópia clandestina do Cervantes para a Coreia do Norte (é proibido entrar com livros) parece adequada ao retrato do escritor enquanto desafiador dos moinhos norte-coreanos; escapulindo-se para entrar numa loja quando ninguém está a ver, tirando fotografias sem autorização, fazendo jogging em Pyongyang quando especificamente lhe tinham dito para não deixar o hotel; concluindo que uma mulher no laboratório está a fingir que é uma mulher num laboratório.

José Luís Peixoto vai a um país que inventou uma narrativa heróica para o seu próprio povo que morre à fome ou nos campos de reeducação; está numa cidade como Pyongyang que é ela mesmo o cenário para essa narrativa heróica - só as pessoas com autorização podem entrar na capital norte-coreana e a maioria dos norte-coreanos não tem autorização para lá entrar -; vai numa visita guiada onde se papagueiam as histórias propagandísticas sobre Kim Il-sung e Kim Jong-il e afirma, como se fosse isso o sinal importante, a chave para desvendar tudo: “Este tipo de encenações arrasava a credibilidade dos momentos que tinha acabado de viver e lançava suspeitas sobre os que se aproximavam.” A Coreia do Norte é um país onde marido e mulher podem denunciar-se mutuamente por pensamentos impuros, por duvidarem da magnanimidade da dinastia Kim; onde as pessoas vivem num regime feudal em que os senhores da terra dispõem da sua vida e da sua morte, e José Luís Peixoto descobriu, porque tem uma irmã engenheira química e um cunhado professor e investigador, que aquela mulher é uma impostora num laboratório a fingir. E o mais interessante é que o escritor considera credíveis os momentos que acabou de viver numa fábrica inventada, num país a fingir que é o paraíso na terra e que Kim Il-sung é Deus.

De acordo com várias fontes que escreveram sobre a Coreia do Norte, muitas das fábricas do país não produzem por falta de matéria-prima, por obsolescência da maquinaria e por falta de peças. Continuam a existir e a empregar pessoas que nada recebem e nada fazem: fogo-fátuo industrial num país que sobrevive por estar ligado à máquina chinesa. Não serão aquelas fornalhas com esse fogo que o escritor tanto admirou maior ilusionismo do que uma mulher num laboratório fandango? Não será esta viagem, este livro, sob a capa do segredo desvendado, a verdadeira ilusão?

Os maiores especialistas na Coreia do Norte colocam sempre reticências quando falam do país. Porque se o regime totalitário conseguiu a proeza de fechar o seu povo ao mundo, alcançou outra proeza de vulto, fechar o seu povo à percepção do mundo. E quando esses especialistas falam deixam sempre espaço para a dúvida, porque nada na Coreia do Norte é o que parece. Como se não conseguíssemos distinguir as fachadas falsas dos verdadeiros edifícios. Como essas sofisticadas contrafacções dos produtos de luxo que em nada se distinguem do original, a não ser pelo facto de serem falsas. Como as lágrimas de pranto nos funerais de Kim Jong-il - se não chorar é sinal subversivo e chorar o esperado, o exigido, o obrigado, como se distingue aqueles que choram sinceramente dos que choram porque das lágrimas depende a sua vida?

Todos nós que escrevemos já caímos nessa armadilha, a de pensar que podemos contar algo diferente do que já foi contado. De contribuir para a narrativa de um lugar, de uma pessoa, de uma instituição. Às vezes por ingenuidade, na maior parte das vezes por entusiasmo. Daí não vem mal ao mundo, a não ser quando deixamos de ter sentido da proporção, quando nos deixamos transformar na história: “No quarto, com tempo para pensar, parecia-me às vezes que também eu estava assim, fechado duas vezes. Fechado naquele país que não me deixava ter telemóvel, que não me deixava receber emails e fechado num segredo. (...) Ali era eu que estava desligado e guardado numa gaveta. Aquela era uma morte sem notícias do que deixava para trás.”

Adorno afirmou que depois do Holocausto “escrever poesia era bárbaro”, Hannah Arendt mostrou-nos que tratar o mal como excepção, calá-lo como experiência e não ter em conta a sua condição intrínseca à humanidade impede-nos de evitar que se repita. Porém, falar sobre o mal implica responsabilidade. E a Coreia do Norte é o Holocausto que nunca termina.