Crítica

A paranóia é um círculo

Compararam-no ao Ulisses, de Joyce - na complexidade, na ambição, na erudição -, mas Arco-Íris da Gravidade vive por si

Uma cantiga pode matar e se não mata maldiz. O amor vivo chora o que morreu. Fala-se de absoluto e uma mulher atira: “Eu sei que há quem se venha ao mesmo tempo.” Dizem-lhe da inevitabilidade da solidão. Disso sabe ela. Mas nada do tal absoluto a dois. Talvez seja absoluta a ambição deste livro, arrogância autoral de quem quer dizer tudo. O que faz um flambé de banana num território atingido por rockets? Absurdo? Não. Thomas Pynchon (Long Island, 1937) na sua tremenda espiral narrativa, na terceira e mais ambiciosa das suas obras, que o levou à reclusão da qual ainda não saiu. Recluso em plena Manhattan. Parece que é possível continuar um enigma em Manhattan, mesmo quando o eremita se chama Thomas Pynchon e é colocado na estratosfera ao lado de nomes como Cormac McCarthy ou Philip Roth.

Foram precisos 39 anos. Gravity''s Rainbow, editado em 1973 com grande estrondo, ganhou, finalmente, título em português. Arco-Íris da Gravidade, traduzido com cuidado de ourives por Jorge Pereirinha Pires, é também uma reflexão sobre a Humanidade. Para o ler é preciso ultrapassar o medo de ser derrotado. Pela erudição, pelo detalhe, pela capacidade de convocar saberes e fantasia e de os juntar numa receita impiedosa.

“Uma berraria vem através do céu. Já aconteceu antes, mas nada há que a compare com agora.” Primeiro parágrafo do calhamaço de 1021 páginas. Estamos na Europa do final da Segunda Guerra Mundial, no tempo que vai de 1944 a 1945, no local onde aterram rockets enviados de Londres. Chamam-se V2 e não são meros foguetes de guerra, mas a metáfora de um trajecto de destruição e paranóia, circular como a estrutura do livro, dividido em quatro partes, com o autor a recuar até à Primeira Guerra Mundial, a avançar até ao mundo de Nixon, a passar por todos os traumas e vícios de uma sociedade que desmonta invertendo não apenas os recursos estilísticos, mas os padrões sociais, recriando o discurso, falando de morte e de amor com ironia, pícaro, angústia, poesia. Para chegar à tal paranóia. É preciso perseguir o trajecto do V2, o arco que dá título a um livro que traz referências - da Geração Beat, do negrume de Faulkner, dos clássicos da literatura europeia, mas também da dele, Pynchon, o pós-modernismo, transportando dos anteriores romances (V e Leilão do Lote 49) personagens e uma música de fundo, tão dramática e obsessiva quanto o rendilhado narrativo.

Caiu um V2 e nos destroços há quem prepare um flambé de banana para o pequeno-almoço. Há um autismo de sobrevivência. A loucura da guerra, as drogas que a permitem suportar. E toda uma indústria que vive disso. É o colectivo do avesso, para dizer da impossibilidade humana de saber de si. Não haverá maior absurdo e então vai de explorá-lo até ao osso, até ao pós-guerra e às feridas, mas até lá... uma história do século XX.

Sai-se tonto desta leitura, um loop entre o riso, a angústia, o non-sense, e uma sensibilidade... Como se diz isto sem parecer cliché, tentando arranjar nome para esta capacidade de contar uma história (devia ter maiúscula) onde se fantasia uma realidade suportada por factos verídicos? Isto não é só ficção. Talvez metade ficção. É política, tratado de guerra, música, cinema, psicologia, física, matemática, filosofia, literatura de relações humanas a atingir uma comicidade de ir às lágrimas, ou não. É a maneira exímia de dizer o excesso com a ajuda de - há quem tenha contado - 400 personagens.