"A informação que vier do telescópio SKA será maior que o tráfego da Net"

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Daniel Rocha

Phil Diamond é o director-geral do consórcio do Square Kilometre Array, ou SKA, o radiotelescópio que será construído a partir de 2016. O Governo português pondera se vai entrar nessa aventura

Phil Diamond esteve em Lisboa, na última sexta-feira, e deu uma palestra sobre aquele que será o maior radiotelescópio do mundo. O britânico é director-geral da organização do Square Kilometre Array (SKA), que vai captar ondas de rádio do Universo para investigar os seus mistérios. O telescópio custará, pelo menos, 1500 milhões de euros e será instalado na África do Sul e Austrália. Portugal não faz parte do consórcio - mas as suas "capacidades estão entre as melhores do mundo" para ajudar na construção.

Por que se escolheu a Austrália e África do Sul para instalar o SKA?

Por serem dos locais mais silenciosos do mundo em termos de ondas electromagnéticas. A densidade populacional é extremamente baixa, mas o acesso a infra-estruturas, energia eléctrica e fibra óptica é bom.

Quais são os principais objectivos do SKA?

Para a primeira fase do SKA 1 [construída entre 2016 e 2020], há dois grandes objectivos: primeiro, observar [a radiação do] hidrogénio, o elemento mais comum do Universo, que permite estudar o início do Universo e compreender como as primeiras estrelas e galáxias apareceram. Também ajuda a compreender o que é a energia escura [que está a acelerar a expansão do cosmos]. O segundo é sobre os pulsares, núcleos de estrelas que explodiram e têm um movimento rotativo. Emitem ondas de rádio, que podemos usar para estudar a física de estruturas muito densas.

Que tecnologias novas são necessárias para o SKA?

Temos de construir antenas de rádio mais baratas, desenvolver electrónica que gasta pouca energia eléctrica. Vamos precisar de sistemas que consigam transportar grande quantidade de informação. O rácio de informação que vier do telescópio SKA será maior do que o tráfego da Internet. Vamos precisar de supercomputadores e teremos de desenvolver software para lidar com tanta informação. Vão ser necessários painéis solares para ter energia eléctrica sustentável.

Na sua palestra, disse que o custo do telescópio iria ser superior ao previsto.

Em 2007, estimámos um custo de 1500 milhões de euros, quando ainda não estavam definidos os detalhes do projecto. Daqui a quatro anos, esperamos ter uma estimativa mais precisa e o valor deverá ser maior.

Qualespera que seja o papel de Portugal no projecto?

Há capacidades em Portugal que estão entre as melhores do mundo, nas áreas do transporte de sinais electrónicos, energia eléctrica sustentável e sistemas de software para controlar grandes instalações. Sei que os cientistas e a indústria estão interessados em levar essas capacidades para o SKA, mas é necessário que haja financiamento do Governo português.

Quanto?

Para um período de quatro anos [a fase inicial de construção], serão poucos milhões de euros.

Os países que estão fora do consórcio terão acesso aos dados recolhidos pelo SKA?

O modelo ainda não foi decidido, mas penso que o acesso será restrito. Os países que contribuem com recursos e dinheiro nas fases de construção poderão utilizar o SKA. Os outros só poderão ter a informação quando ficar disponível ao público, talvez dois anos depois das observações.

Há mais países a entrar no consórcio?

Esperamos que a Alemanha entre dentro de algumas semanas. A Índia é um dos membros e quase de certeza que se juntará. Portugal, Espanha, Coreia do Sul e Japão poderão ser outros.

Sem os Estados Unidos, disse que será difícil haver dinheiro para a segunda fase de construção, entre 2020 e 2024.

É o que acredito. Os EUA vinculam-se a grandes projectos de ciência a cada dez anos. A próxima altura em que o farão será em 2017. Espero que os EUA se juntem, se não os desafios da segunda fase de construção serão muito maiores. Mas os EUA têm mostrado um enorme interesse.

Que ciência produzirá o SKA na segunda fase?

O telescópio terá maior sensibilidade. Vamos conseguir estudar o magnetismo do Universo, uma das quatro forças fundamentais da natureza e da qual sabemos muito pouco. Poderemos fazer astrobiologia: vamos olhar para a assinatura de moléculas ligadas à vida e procurá-las nos planetas extra-solares já descobertos.