A evolução da alternativa ao academismo contada às criancinhas

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Nos anos 50/60 foram centrais na defesa de um cinema moderno. As vanguardas de ontem são os academismos de amanhã...

Quando, no final da passada semana, a lista dos 10 filmes do ano para os críticos da revista francesa Cahiers du Cinéma foi publicada, Tabu de Miguel Gomes lá estava entre os dez mais, em oitavo lugar. (Nada mau, sobretudo se compararmos com a ausência do cinema esquimó.)

Mas, nas declarações que o director-adjunto Jean-Philippe Tessé deu ao PÚBLICO a propósito da lista - encabeçada por Holy Motors, de Léos Carax - , é peculiar vê-lo a explicar a lógica subjacente às escolhas dos Cahiers. Numa lista onde apenas encontramos três realizadores com obra ainda curta (para além de Gomes, os americanos Jeff Nichols e Ira Sachs), Carax, David Cronenberg, Francis Ford Coppola, Abel Ferrara (com dois filmes), Aleksandr Sokurov e Hong Sang-Soo são defendidos pelos críticos da revista como praticantes de um cinema da liberdade criativa e alheia aos grandes sistemas de produção, ao mesmo tempo que cineastas como Michael Haneke e os irmãos Taviani são acusados de um "academismo artístico autoritário".

Não se trata aqui de questionar os gostos individuais dos críticos dos Cahiers, mas sim de desmontar o discurso da ortodoxia subjacente às declarações de Tessé. Nos anos 1950/1960, os Cahiers foram centrais na redefinição do olhar sobre o cinema, na defesa de um cinema moderno em sintonia com o seu tempo, urgente, pulsante e apaixonado, por oposição a um cinema acomodado, burguês e confortável. Mas as vanguardas de ontem são os academismos de amanhã, e as posições extremaram-se ao ponto do resultado mais evidente da "política dos autores" que a revista impôs globalmente ser uma oposição comummente aceite entre "cinema comercial" e "cinema de arte" ou "cinema de autor", muito mais entrincheirada nas suas posições do que a geração fundadora dos Cahiers alguma vez o esteve. O escândalo causado na altura pela corrente "Hitchcocko-Hawksiana" ao reavaliar como obras "de autor" o cinema "comercial" de Alfred Hitchcock e Howard Hawks equivaleria, hoje, a erguer a "autor" (passem, evidentemente, as diferenças) um realizador como Christopher Nolan - coisa que aos Cahiers de hoje, entrincheirados no academismo que eles próprios criaram, nunca passaria pela cabeça.

É evidente que o problema central das listas dos "melhores do ano" - aspirar a um consenso possível que possa representar uma unanimidade inexistente ou difícil de atingir - não é exclusivo da revista francesa. Só que os Cahiers têm uma imagem "canónica" e uma reputação de referência a manter, sobretudo numa época em que a crítica - e particularmente o tipo de crítica densa e socio-cultural em que a revista se especializou - está a ser minada por todos os lados: pelas temíveis "estrelinhas" que procuram quantificar o inquantificável, pela disponibilidade cada vez menor para a reflexão demorada, pelos blogues que multiplicam opiniões, pelos comentários online que se aparentam mais a uma manifestação de clubismo, pela redução da opinião a um capricho impulsivo.

Não são declarações como as de Jean-Philippe Tessé que vão contribuir para a solução. Muitos dos nomes que os Cahiers defendem na sua lista como cineastas livres fazem parte do academismo do cânone "autorista", ao qual pertencem em alguns casos mais pela sua postura perante o cinema do que pelos filmes em si. Sim, claro que é preciso defender vozes minoritárias ou marginais como Ferrara, Sokurov ou Hong - mas não deste modo programático, que corre o risco de menorizar os reais talentos dos cineastas e empolar o real valor dos filmes em nome de uma ortodoxia ideológica (e todos sabemos como a ortodoxia é prejudicial à arte).

Para uma revista que se impôs como anti-consenso e anti-cânone, o que os Cahiers hoje fazem - e, por arrasto, muitas das publicações que seguem na sua esteira e almejam ser os "novos Cahiers" ou os "Cahiers do futuro" - é serem guardiões de um outro cânone. Um cânone tão político como qualquer outro mas um cânone de sua própria autoria, que se coloca declaradamente de um dos lados da barricada e não raras vezes tomba num fundamentalismo rebuscado e retorcido, invocando como santo fundador André Bazin mas passando ao lado da mensagem central daquele crítico: "Dizer "mal" de um filme não significa de todo que dissuadamos o leitor de o ver; tal como não garantimos que o leitor tenha certamente prazer a ver um outro filme de que dizemos bem, não apenas porque a infalibilidade não é o nosso forte, mas porque esse bem e esse mal não tem muitas vezes nenhuma medida comum." Dizer, como Tessé diz, que há filmes "generosos" e outros "autoritários" implica uma certeza (quiçá autoritária?), uma ortodoxia, um absoluto - quando na crítica, como Bazin sempre explicou, tudo é relativo.

É bom que Tabu esteja entre os dez mais dos Cahiers? Claro que sim. O que não é bom é que Tabu seja um dos poucos filmes verdadeiramente livres e verdadeiramente novos de uma lista onde a tão apregoada liberdade parece pertencer mais aos veteranos do que aos jovens realizadores que buscam, livremente, um lugar ao sol.