Valongo, entre o ser e o não querer ser um cemitério de prédios inacabados

População cresceu 46% entre 1981 e 2011. Mas a cidade cresceu sem alicerces para resistir ao fim do crédito fácil e à crise da construção, do imobiliário, do país

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O prédio inacabado na Avenida do Dr. Fernando Melo é, ele próprio, um mote. Com o seu cartaz - retirado este ano, já depois de feita a fotografia ao lado - a anunciar uma "Nova Valongo", a imagem condensa o resultado do choque entre a vontade política de atrair a este concelho milhares de novos moradores, abrindo para isso o terreno à explosão urbanística e à habitação barata, e o arrefecimento provocado pelo excesso da oferta e a crise no mercado imobiliário.

Em Valongo, como noutros espaços suburbanos das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, a cidade moderna convive com a sua própria ruína, a dos esqueletos inacabados à espera de uma solução. Vizinho desta realidade, o fotógrafo Helder Sousa fez do levantamento destas promessas por cumprir a sua tese de mestrado. E a Câmara de Valongo aceitou expor estes retratos de um problema que anda a tentar resolver.

Entre os Censos de 1981 e 2011, a população de Valongo cresceu quase 46 %, passando de 64.234 habitantes para os actuais 93.753. O fluxo, facilitado pela melhoria das acessibilidades ao concelho, por um lado, e ao crédito bancário por parte da classe média, por outro, foi alimentado, no destino, com novas urbanizações a prometer qualidade de vida, proximidade ao Porto e preços bastante inferiores aos praticados na área central da região.

Aos 29 anos, o finalista de Comunicação Audiovisual da Escola Superior das Artes do Espectáculo Helder Sousa cresceu lado a lado com este fenómeno, que travou a fundo nos últimos anos. Valongo, por si só, não tinha capacidade de atracção que lhe permitisse, em três décadas, duplicar o número de residentes. E à natural retracção na procura somou-se uma profunda crise de financiamento bancário que levaram à falência alguns construtores e promotores imobiliários.

O resultado está à vista, e Helder Sousa, que conhecia na sua vizinhança um ou dois casos de prédios que esta dupla crise deixou inacabados, começou uma procura mais sistemática, noutras zonas do concelho, para fazer de um olhar sobre esta realidade o seu trabalho final do mestrado em Fotografia e Cinema Documental. Foi surpreendido pela quantidade. Foi, admite, surpreendido pelas razões. "Pensei que quem construía estas coisas obedecia a um plano, a um qualquer estudo de procura".

O geógrafo Álvaro Domingues, que aceitou escrever um texto para a exposição, patente no Fórum Cultural de Ermesinde, diz-lhe que não. "A desregulação e a globalização dos mercados financeiros e dos outros instalou a selva na aldeia global onde cresce o mato e cada um está entregue a si próprio; o "mercado" substituiu o lugar da política por mecanismos que supostamente se auto-regulam por mãos (in)visíveis que tudo financiam, incluindo o desastre."

O mato que cresce na aldeia feita cidade que este valonguense retratou - num trabalho orientado, entre outros, pelo fotógrafo Paulo Catrica - é também o da natureza, a retomar o seu lugar, aproveitando a falência dos homens. De novo, a voz a Álvaro Domingues: "Nas fotografias de Helder Sousa percebe-se uma tensão entre o silêncio que se abateu sobre a impotência ou a indiferença que se sente, e o enorme ruído, a injustiça sobre o que se esconde por trás de tanto desperdício, disfuncionalidade ou excesso".

Um excesso que era fácil de prever, lembra o docente Nuno Travasso, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, que o enumera: "De acordo com os dados do Censos 2011, Portugal possui uma média de 1,45 fogos por família, dos quais 12,5% (738.846) se encontram vagos".

Perante este dado, noutro texto de suporte à exposição, este arquitecto considera que se "compreende por isso que se verificasse já desde o ano 2000 uma diminuição, lenta mas contínua, da promoção de habitação nova. Algo que corresponderia a uma mutação do sector - e do próprio modelo económico - que se esperava lenta e progressiva". Só que, como sabemos, a crise de 2008, com origem, precisamente, no mercado imobiliário, norte-americano no caso, lançou o Ocidente num período de anemia económica com reflexos, graves, no nosso país. E a quebra, que se esperava lenta, ocorreu rapidamente, "sem que houvesse, da parte dos promotores, dos construtores ou do próprio sistema económico e financeiro, qualquer capacidade para uma reacção adequada".

Isto não diz apenas respeito à Avenida do Dr. Fernando Melo, homenagem a um autarca vivo, cujo lugar na presidência da câmara é ocupado, há quase um ano, pelo antigo "vice", João Paulo Baltazar. No resto do concelho, Helder Sousa descobriu pelo menos oito zonas em que as ruínas do que não foi terminado convivem, às vezes lado a lado, com prédios habitados. Alguns dos edifícios estão incluídos num plano, iniciado ainda por Melo, de demolição ou reconversão para outros usos. Outros estão simplesmente à espera. Para não lhes dar uma carga mais negra do que a da humidade que os corrói, Helder Sousa fotografou-os em dias "sem sol", para não acrescentar sombras a esta sombra de cidade. Foi o seu gesto de neutralidade, num trabalho que, assume, não tem nada de neutral.

O trabalho de Helder Sousa é inspirado no levantamento que a dupla alemã Bernd e Hilla Becher fez, a partir de 1959, de antigas instalações industriais em vários países, preservando e documentando a memória de uma arquitectura a que chamaram esculturas anónimas, por serem, normalmente, obra de engenheiros desconhecidos, mais preocupados com a funcionalidade dos edifícios do que com a sua estética.

Pelo meio do seu levantamento, na micro-escala de Valongo, o fotógrafo português deu ainda de caras com Skeleton Cost, a Costa dos Esqueletos, manifesto fotográfico do venezuelano Alexander Apóstol, hoje radicado em Espanha, sobre o boom de construção que, na década de 80, espalhou pela ilha de Margarita estruturas que, fruto de corrupção e lavagem de dinheiro, nunca chegaram a ser os prometidos hotéis e edifícios de habitação.

Em Valongo, mesmo sem petróleo, o dinheiro escorreu fácil para a grande indústria do Portugal na transição do século XX para o XXI, a construção. Até que um dia parou, deixando os seus esqueletos. Que Helder Sousa expõe, com a crueza que o tema merece. Considerando que "a qualidade do trabalho do Helder confere dignidade ao problema", o presidente da câmara, João Paulo Baltazar, aceitou que a exposiçãoUnfinished Projects fosse exibida num espaço municipal. Ainda a aquecer a cadeira que foi de Fernando Melo, que saiu da câmara há quase seis meses, o autarca é clarividente. "Não é por tentarmos esconder os problemas que eles desaparecem. Isto tem de deixar de ser discutido em surdina e assumido de forma pragmática".

"Há uma solução em vista para quase todos os prédios"

A Câmara de Valongo criou, ainda durante a presidência de Fernando Melo, um grupo de trabalho para tentar encontrar uma solução para os prédios inacabados que mancham a imagem do concelho, principalmente na freguesia de Valongo. O problema é privado - quase todos os imóveis caíram nas mãos da banca - mas as suas consequências têm impacto na sociedade. Ainda assim, lamenta o actual presidente, João Paulo Baltazar, num caso um tribunal inviabilizou a demolição de um edifício por considerar que o prejuízo para o dono, um banco, era superior ao prejuízo da permanência de um esqueleto de betão na paisagem urbana.

Para essa situação está a ser negociada uma solução que poderá passar pela demolição parcial e pela reconversão de uma outra parte, para o mercado de arrendamento social. O sucessor de Fernando Melo garante que, de todas as situações fotografadas por Helder Sousa, só duas ou três têm ainda um futuro indefinido. Para as restantes, há já soluções em andamento ou em fase final de negociação, garante.

Este programa foi iniciado em 2009, com a demolição de um prédio. Outro já foi transformado em hotel, um outro está quase a abrir como lar de idosos, mas a crise acabou por atrasar outros projectos, como o da transformação de um edifício numa unidade hospitalar.

Nestes 30 anos, em que a população de Valongo cresceu quase 50%, muito graças a uma oferta de habitação a preços convidativos, o grande desafio do poder local, nota o autarca, foi o de "criar infra-estruturas e equipamentos públicos" que servissem toda esta gente, um esforço que acabou por gerar problemas financeiros graves para o município que este ainda está a tentar resolver.