Ariel Pink. O Cristo da pop obscura

Foto
PIPER FERGUSON

Em miúdo, era um inadaptado que detestava tudo o que os outros miúdos idolatrassem. Agora que é adulto tem uma obsessão pela época em que nasceu - e é toda a música esquecida dessa época que quer resgatar, como nos mostrará hoje em Guimarães, no Primavera Club, e amanhã em Lisboa.

Não estamos aqui para chatear ninguém, mas convém que saibam que, a meio de uma longuuíssima - para cima de duas horas - conversa telefónica com Ariel Pink, este resolveu informar-nos que já percebeu como isto funciona e é assim: "Na vida nada acontece e depois morremos."

Bom, isto é uma chatice. Quanto mais não seja, dá cabo do fim-de-semana a quem comprou bilhete para o Optimus Primavera Club, que se inicia hoje em Guimarães (ver caixa), e estava à espera que acontecesse alguma coisa. Felizmente, a seguir Pink deixou uma réstia de esperança: "Temos de esquecer isto, se não a vida seria insuportável."

Menos mal para quem deu 35 euros pelo passe geral ou 25 euros pelo bilhete diário (cerca de dez e sete quilos de costeletas de porco, respectivamente). Talvez sempre aconteça alguma coisa, se não na vida, pelo menos em Guimarães - ou, para quem quiser ver só Ariel Pink, no Lux, em Lisboa, onde ele actua amanhã.

Não que Ariel Pink não preferisse "mandar um impostor em vez" dele, uma manobra que Thomas Pynchon aprovaria veementemente. Tocar ao vivo, diz, é "estranhíssimo": "Faço sempre de conta que as pessoas estão lá para ver a banda de suporte." E, no entanto, estão lá para o ver a ele, pelo menos desde que em 2010, contrariando todo um passado lo-fi, editou Before Today, disco todo sedas e óleos e curvas sem esquinas que o tornou uma espécie de estrela underground.

Before Today parecia sintetizar todos os fios perdidos da pop ocidental que nos finais da década de 1970 tentou ser comercial e falhou. Tinha aquele ranço da produção de início dos 1980s, quando cada canção aspirava a ser maior do que a vida, porque ainda não havia a MTV, e, simultaneamente, alguns momentos de brilhantismo típicos dessa época. Mas se disserem a Pink que Before Today foi um êxito ele abespinha-se. "Não sei porque é que dizem isso. A verdade é que não vendeu assim tanto, quando muito manteve-nos [a Pink e à sua banda, os Haunted Graffiti] vivos durante um pouco mais de tempo."

Mas isso não é o mais importante acerca de Ariel Pink - o mais importante é ele próprio que o diz: "Os meus discos sempre deixaram as pessoas sem saber o que fazer". E ainda deixam. O que fazer, por exemplo, com Mature Themes, o mais recente? Em Kinski assassin, a primeira canção do disco, ele lembra o psicadelismo da década de 1960; dois temas à frente chegamos à canção que dá nome ao disco e sentimos ecos de Lionel Ritchie. Schnitzel boogie põe-nos a pensar que se os membros dos Beach Boys tivessem sido ainda mais traumatizados talvez fizessem música assim. Meio a medo, lemos a Pink um apontamento que tomámos sobre Drift wood, a quinta canção do álbum: "Uma linha de baixo meio parolinha, sintetizadores a pairar. Não sei o que pensar disto". Ele não se zanga. Até ri: "Cada canção minha parece provocar uma reacção diferente em cada pessoa. Já por várias vezes reparei que há pessoas que gostam de uma canção num disco meu e detestam tudo o resto. Há pessoas que nem ouvem os discos todos", diz, e isto parece deixá-lo estranhemente contente, o que faz questão de justificar: "É como se eu fosse um músico de final de anos 1970, início dos anos 1980".

Preso no passado

Mas Ariel Pink não estava propriamente a ir a lojas de discos na época que mais o fascina. Na realidade, estava a nascer: a mãe trouxe-o a este mundo em Junho de 1978. Desde puto, a música foi, mais do que a sua paixão, a sua vida. Ou ele próprio, mais do que a música, foi a sua paixão. É confuso: "Desde miúdo que estou obcecado com música. Muito antes de haver Facebook e Internet eu já tinha identidade e toda a minha identidade foi criada à volta da música", sublinha, e aqui se calhar é necessário fazer uma pausa para a) recordar que as pessoas já tinham identidade antes de haver Facebook e Internet e b) assinalar que a identidade de Ariel Pink não só dependia da música como dos seus aspectos mais obsessivos (como por exemplo: "Passar os dias a contar quantos discos de death metal tinha ouvido e a recordar tudo o que sabia de cada disco").

A acreditar no que ele diz sobre si, não deve ter sido fácil ser Ariel Pink. Nos anos 1990 estava "contra o grunge e as coisas indie" e "não ouvia coisas como os Sonic Youth", que ainda hoje detesta. Em condições normais ponderaríamos partir para cima de Ariel com uma catana; mas era tarde, não havia catana à mão, e ele estava em Los Angeles. Além disso, ele tem sempre o tom de um rapaz que, apesar de abandonado e mil vezes pontapeado pelo vil mundo, nunca irá rebelar-se e pontapear de volta. As suas revoltas são mais cerebrais: "Acho que nessa altura eu estava a reagir, no liceu, à sociedade contemporânea. Por isso rejeitava tudo o que os outros ouviam. Mais tarde comecei a escrever mais música e a ouvir menos, e assim tornei-me eu próprio: preso no passado e obcecado com ele."

É uma declaração majestosa: uma espécie de Dorian Gray hertziano e estranho como o camandro. Mas porquê estar preso ao passado? Porque não ouvir a mesma música que os coleguinhas? "Porque eu era tremendamente inadaptado. Andei em terapia a infância toda e isso traumatizou-me", declara num tom absolutamente sério - e damos por nós a pensar que nunca recorre à ironia. Esse, aliás, é um paradoxo fascinante: Pink é adorado por hipsters, e no entanto cada uma das suas palavras soa a confissão de vítima de maus tratos em programa da Oprah. "Sempre analisei tudo. Isso levou-me desde cedo a voltar às primeiras memórias. Acho que mesmo no início dos anos 1980 já estava sempre a pensar no momento que estava a viver. É uma fixação. É uma procura de retorno a um momento de pura música antes de o meu corpo ser corrompido".

O que faz agora que é adulto, acrescenta, é menos sobre a música do que sobre a sua "memória pessoal": "A minha arte - como toda a minha identidade - investiga a obscuridade. Por exemplo, o cânone do rock"n"roll: toda a gente o toma por certo, mas no fundo só existe tal como está nos últimos 30 anos. A história da música popular é a história da Billboard, mas há um mundo infinito de coisas que nunca chegaram ao top - e é esse mundo que eu quero fazer ressurgir".

É aqui que entra a grande declaração: "Espero que o Bob Dylan seja esquecido. E vai ser.". (Agora a sério: era uma catana e uma passagem para Los Angeles, se faz favor.) "A história, a história que interessa, que não foi contada, está a morrer e eu lanço uma luz para a preservar", acredita Pink. Fomos-lhe perguntando exactamente o que é que ele queria salvar e ele começou a tecer loas ao middle of the road, ao AOR [Adult-Oriented Rock, um pavor que deu origens a coisas como a Dave Matthews Band] e a uma série de tipos de que honestamente nunca ouvimos falar mas ainda são estrelas no Japão: aquilo a que ele chama "essa grande massa de música esquecida".

"Não vim para falar do que é cool", conclui, assumindo um tom crístico que irá repisar mais à frente. "Vim à procura do que é invisível". E vai saltando de ideia em ideia, de forma disconexa.

Ressuscitar os mortos

A conversa com Ariel Pink durou duas horas e podíamos ter pousado o telefone e ido passar a ferro: quando voltássemos, ele ainda lá estaria. Os tópicos incluíram a falta de negritude em Billy Ocean; ecos de Sinatra na voz de Stevie Wonder; e uma comparação entre o nascimento da gravação musical e a chegada de Cristo: "Com as gravações, os iletrados puderam fazer com que a música dos pobres fosse ouvida - do mesmo modo que Cristo ofereceu o seu povo para que todos pudessem ser os eleitos." Em alguns momentos soou como um guru da auto-ajuda, como quando disse que "temos de aprender a casar as pessoas que temos dentro de nós e a amar o nosso ódio".

Na música de Pink, sintetizadores ambientais chocam com melodias orelhudas e linhas de baixo gongóricas acolhem-se junto a arranjos arrojados; quando se tenta sintetizá-la numa expressão, vai-se parar a conceitos contraditórios como simplicidade épica ou barroco popular. Mas é natural que assim seja, quando ele próprio é uma contradição ambulante, um misto de confiança absoluta em si próprio ("Os meus pais disseram-me que eu era um grande talento desde muito novo e eu tornei-me muito bom ou assim-assim") e total niilismo ("Sou um grande idiota e há imensa gente que pode confirmar isto e nunca vou aprender com os meus defeitos porque só sei fazer música").

Quando mesmo no fim ele diz que quer "ressuscitar os mortos", quase acreditamos que não desatou a rir quando desligou o telefone. "Isto é religioso, meu", são as suas penúltimas palavras. As últimas, que chegam a angustiar, foram "Obrigado por ouvires".

É difícil perceber se estava a referir-se à sua música ou a si próprio.