Opinião

Identidades religiosas em Portugal: novas paisagens sociais

No passado dia 14, na assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, foi apresentado um estudo sobre identidades religiosas nas regiões autónomas.

Completava-se assim o retrato sócio-religioso da sociedade portuguesa, depois de, em Abril passado, terem sido apresentados os resultados do estudo realizado em Portugal continental. O conjunto das três amostras permite agora o desenho de uma geografia das identidades religiosas por regiões (NUTS II): uma paisagem religiosamente diversificada.

Os Açores apresentam-se como a região do país mais compactamente católica: 91,9% dos respondentes declaram-se católicos, valor que ultrapassa a região Norte (89,5). A Madeira, quanto ao peso relativo dos católicos (88,3%), situa-se num plano comparável ao Norte e ao Centro (87,5), distanciando-se das regiões a sul, o Alentejo (75,9%) e o Algarve (59,5%). A região autónoma dos Açores na comparação com a região da Madeira, descreve-se numa mais acentuada diversidade de posições religiosas (ou posições face à religião). De facto, encontramos aí frequências para cada uma das sete classes de posição religiosa estudadas: não crentes, crentes sem religião, católicos, protestantes (incluindo evangélicos), outros cristãos, Testemunhas de Jeová, outras religiões. A amostra construída para a Madeira não foi sensível à presença de outros cristãos ou de pertencentes a outras religiões.

O país apresenta-se regionalmente diverso quanto à distribuição das identidades religiosas. Observando o conjunto das sete regiões, pode afirmar-se que o Norte, o Centro, a Madeira e os Açores constituem aquele conjunto populacional em que a maioria católica se aproxima do limiar dos 90%. Na amostra continental, a região Norte contribui com 43,6 dos católicos. Na região de Lisboa (Grande Lisboa e Península de Setúbal) encontramos mais de metade dos não crentes, 43,5% dos crentes sem religião, 62,2% dos protestantes (e evangélicos), e contribui com 28,1 % dos católicos. Tendo em conta o peso demográfico desta região, é fácil perceber o seu lugar na caracterização da diversidade de posições religiosas no país.

A diversidade, quanto às identidades religiosas, acompanha a diminuição relativa do peso dos católicos na sociedade portuguesa (79,5% na amostra continental). Mas a tendência mais expressiva é a do crescimento dos sem religião. Se tivermos em conta os dados de um estudo similar patrocinado, em 1999, pela Conferência Episcopal Portuguesa, podemos notar que os sem religião passam de 8,2% para 14,2%. Este crescimento é mais expressivo que o conjunto constituído por outras denominações religiosas: de 2,7% para 5,7%. Neste sentido, pode afirmar-se que, sob o ponto de vista demográfico, a diferenciação na sociedade portuguesa se acentua mais pela via do crescimento dos sem religião do que pela afirmação de outras pertenças religiosas. Sublinhe-se, no entanto, que desse agregado fazem parte – para além dos ateus, indiferentes ou agnósticos – os que se autoclassificam como crentes sem religião – na amostra continental, eles são 32,5 dos não pertencentes a uma religião. Se voltarmos à comparação com o estudo de 1999, esta categoria sobe dos 2,7% para os 4,1% – de entre os sem religião é mesmo o subconjunto que mais cresce.

A análise dos dados mostrou que estes crentes sem religião, em parte, constituiriam uma última periferia católica, se não dispusessem desta categoria, mais adequada à sua autorrepresentação. Fizeram os percursos habituais de socialização primária no habitat católico; alguns fizeram escolhas similares para os seus filhos; rezam; aderem a enunciados crentes. Mas essas representações, valores e práticas não se condensam na objetividade de qualquer regime de comunitarização ou de inscrição institucional.

A Igreja católica romana, em Portugal, implementou, nos dias 16 e 17 de Novembro, um dispositivo de diálogo com os «não crentes», apelidado de Átrio dos Gentios (um dinamismo apoiado pelo Conselho Pontifício da Cultura). Tendo em conta a emergência de novas formas de identificação religiosa, talvez se venha a revelar pertinente, nesta demanda de diálogo, a criação de um «átrio» para o encontro com os «não pertencentes».