Crédito malparado vai continuar a crescer, avisa Banco de Portugal

Relatório de Estabilidade Financeira do Banco de Portugal diz que os bancos têm mais capital e colateral, mas a sua rendibilidade está a descer.

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal
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Carlos Costa, Governador do Banco de Portugal NFACTOS/JORGE MIGUEL GONCALVES

O crédito malparado dos particulares e das empresas deverá manter, durante os próximos meses, uma tendência de subida, prevê o Banco de Portugal, algo que deverá continuar a pesar na rendibilidade do sector bancário.

"O incumprimento dos particulares e, principalmente, das empresas deverá continuar a aumentar nos próximos trimestres", afirmam os responsáveis do banco central. No relatório, dá-se conta de uma subida do rácio de crédito malparado desde o início de 2008, quer nos particulares quer nas empresas.

No caso das famílias, a subida do incumprimento tem vindo a acontecer de forma marcada no crédito ao consumo, com taxas já acima dos 11%. O problema é bastante mais reduzido no crédito à habitação, com taxas pouco acima de 1%.

Nas empresas, a situação é mais grave, estando os rácios de incumprimento a subir de forma muito rápida nos últimos dois anos, superando já os 12%. De acordo com os dados do Banco de Portugal (BdP), os sectores da construção, imobiliário e comércio são aqueles que revelam maiores dificuldades em amortizar os seus empréstimos junto da banca.

Este é um dos factores negativos a afectar a situação do sector bancário português no actual cenário de crise. No relatório divulgado esta quinta-feira, o Banco de Portugal faz questão de assinalar as melhorias registadas ao nível dos rácios de capital dos bancos, salientando também que, ao nível da liquidez, a banca portuguesa dispõe actualmente de mais colaterais disponíveis para poder aceder aos fundos do Banco Central Europeu, o que lhes dá uma tranquilidade acrescida. Esse aumento de colaterais acontece devido à mudança de regras feita pelo BCE e permite ao sector bancário nacional algum espaço de manobra, numa altura em que continua muito dependente dos empréstimos provenientes de Frankfurt.

Como factor mais negativo, o Banco de Portugal identifica uma quebra da rendibilidade. Isto deve-se à necessidade de aumentar as provisões e as imparidades (devido à subida do crédito malparado) e a uma descida da margem financeira. Segundo o BdP, apesar de os bancos estarem a conseguir obter financiamento barato junto do BCE e de estarem a exigir spreads elevados no novo crédito que concedem, a margem global que praticam no seu negócio está a cair porque a maior parte do crédito que têm em stock continua a ter spreads muito baixos e porque se verifica uma diminuição muito acentuada do crédito que é concedido.

Os portugueses – particulares e empresas – estão a recorrer e a obter menos crédito para investirem e a pouparem relativamente mais. "Os particulares e empresas continuaram a ajustar os respectivos balanços, tendo estes dois sectores, em conjunto, apresentado uma situação em que a poupança é superior ao investimento, o que acontece pela primeira vez desde o início da área do euro", afirma o Banco de Portugal.