Crítica de música: Evgeni Bozhanov, um talento em ascensão

O pianista Evgeni Bozhanov é aclamado pela crítica e pelo público e quando se ouvem as suas interpretações, como a ocorrida terça-feira no Grande Auditório Gulbenkian, percebe-se porquê.

Bozhanov não é apenas uma promessa, mas uma certeza
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Bozhanov não é apenas uma promessa, mas uma certeza Kiyotane Hayachi

Evgeni Bozhanov (piano)

Obras de Beethoven, Schubert e Chopin

Lisboa, Grande Auditório Gulbenkian

27 de Novembro, às 19h

Sala a três quartos

4 estrelas e meia

Ao lado das figuras de referência com extensas carreiras internacionais, o excelente ciclo de piano da temporada Gulbenkian tem dado também atenção a alguns intérpretes notáveis da nova geração. No início de Novembro foi possível ouvir o espanhol Javier Perianes (n. 1976), detentor de uma sensibilidade refinadíssima, em admiráveis interpretações de Chopin, Debussy e Falla. Esta terça-feira foi a vez da estreia em Lisboa do búlgaro Evgeni Bozhanov (n. 1984), pianista com um talento marcante, para além de uma portentosa técnica.

Evgeni Bozhanov tem sido finalista em prestigiados concursos internacionais e tem suscitado os mais entusiásticos comentários da crítica e do público. Quando se ouvem as suas interpretações, percebe-se porquê. Numa época de forte competição e com tendência a uma certa uniformização no que se refere ao virtuosismo técnico, Bozhanov deixa transparecer uma personalidade forte e uma leitura pessoal das obras, sem abalar a sua coerência. A variedade de nuances, a imensa gama de articulações (por exemplo os seus staccati soam de mil maneiras, conforme o contexto) e uma forma de enunciar o discurso que confere um carácter distintivo a cada frase musical, secção ou motivo foram qualidades bem patentes na Sonata n.º 18, op. 31, n.º 3, de Beethoven. A incisiva pujança rítmica do Scherzo e do impetuoso presto con fuoco final contrastou com as sonoridades mais plácidas do Menuetto e o seu recorte dançante e gracioso numa versão da obra de alto coturno, reveladora da força titânica do compositor.

Seguiram-se os 12 Ländler D. 790, de Schubert, colecção de miniaturas que situa por vezes na fronteira entre a valsa e as danças alemãs, também em compasso ternário. Acessíveis do ponto de vista técnico aos diletantes dos salões vienenses oitocentistas, estas pequenas peças encontram-se encadeadas através de um plano tonal arrojado e transmitem à maneira de aforismo uma grande variedade de expressões. Bozhanov esculpiu com inspiração as suas frases melódicas, ao mesmo tempo que mantinha o balanço rítmico nos aparentemente uniformes acompanhamentos da mão esquerda, e percorreu uma extensa diversidade de contrastes: das efusões líricas aos episódios mais veementes.

Apesar do programa de sala indicar o intervalo a seguir a este ciclo, Bozhanov deu início quase sem respiração e sem hesitações às três Valsas de Chopin previstas para a segunda parte, formando assim um arco em relação à Sonata de Beethoven e tornando mais evidentes os elos subterrâneos que unem as danças de Schubert às mais exuberantes e virtuosísticas páginas do compositor polaco. Se na Valsa em Lá bemol Maior op. 64, n.º 3, o pianista acentuou os rasgos inesperados, fazendo oscilar um cantabile de grande nobreza com gestos impetuosos como espectacular acelerando final, nas grandes Valsas op. 42 e op. 18, fez-nos mergulhar num turbilhão de ritmos obsessivos sem perder os alicerces da arquitectura formal.

Depois do intervalo, na Barcarola op. 60 Bozhanov mostrou a modernidade da obra através de uma sedutora gama de planos sonoros e uma inspirada veia poética, e ofereceu-nos uma leitura épica da Sonata n.º 3, de Chopin. Uma técnica desenvolta foi posta ao serviço de um Chopin de carácter viril, fazendo alternar passagens poderosas com momentos introspectivos e uma leitura pausada do Largo que criou a ilusão de um tempo suspenso. Com apenas 28 anos, Bozhanov não é apenas uma promessa, mas uma certeza que convém não perder de vista no futuro.