Entrevista

“Teremos muito mais censura personalizada”

Evgueny Morozov, polémico bielorrusso a trabalhar nos EUA, defende que devemos ser mais realistas sobre os benefícios da Internet. Ditadores apanharam dissidentes recorrendo à web, fazem também muitas campanhas de contra-informação. Quarta entrevista da série sobre a Internet.

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Morozov é muito crítico em relação à forma como as empresas e governos usam os nossos dados privados DanielSeiffert/CreativeCommons

Depois de defender que a Internet ajuda os regimes autoritários em The Net Delusion: The Dark Side of Internet (2011), Evgueny Morozov está neste momento a terminar um livro, com o título provisório Silicon Democracy, sobre a forma como a tecnologia, os novos media, a Internet e as redes sociais estão a mudar o funcionamento das democracias liberais.

Autor polémico, este bielorrusso tem dado uma visão negra da forma como as ditaduras controlam o mundo online, fazendo campanhas de contra-informação. Nascido em 1984, Morozov gosta de se envolver em polémicas e nesta entrevista não se inibe de usar metáforas fortes para criticar aquilo que vê como idealismo liberal.     

O que é que o surpreendeu mais no avanço da Internet, desde que a começou a usar?

Há coisas que me perturbaram: por exemplo, a forma como as empresas começaram a usar dados e informação privada dos clientes. Há agora uma crença de que tudo sobre dados privados é monitorizado e usado. O que se está a passar é que, apesar de as empresas terem muitas maneiras de monitorizar os nossos dados, poderiam pagar ou retribuir pelo facto de os usarem (por exemplo, se quiserem que os dados de alguém sirvam para uma empresa de pesquisa, dariam um desconto no seguro de saúde). E isto era um modelo diferente do que aquele que existe agora, em que nos vemos como vítimas.  

Critica o que chama “liberalismo iPhone” e a crença de alguns nas vantagens da Internet, dos que acreditam que, se derem aparelhos às pessoas, a democracia espalha-se. A democracia não beneficia da Internet?

Para mim a grande questão é perceber a forma como os governos autocráticos, e de alguma maneira activistas pela democracia, foram bem sucedidos ao colocar a tecnologia ao seu serviço. Se olharmos para os últimos três anos, encontramos exemplos que indicam que algumas destas tecnologias ajudaram as pessoas a organizar-se. Mas também ajudaram alguns ditadores a apanhar dissidentes, através dos seus telemóveis, vendo quem são os seus amigos nas redes sociais, ajudaram-nos a espalhar propaganda online através de bloggers contratados e ajudaram-nos a fazer ataques cibernéticos para desactivar websites que são críticos. Podem encontrar-se exemplos de como é que os movimentos de protesto foram bem sucedidos a gerar dissidentes e participação pública, mas também encontramos factos que permitem dizer que a tecnologia foi usada para a repressão. Não quero retratar a tecnologia como repressiva, só apontei as suas limitações e alertei para a forma como podemos ser mais realistas sobre a confiança que temos na Internet, em que na verdade nós e os que definem políticas públicas não querem absoluta liberdade da Internet – e isso cria um impasse. Por outro lado, isso deixa-nos de mãos atadas e facilita os ditadores a apanhar dissidentes, a fechar websites ou a abolir a Internet, como no Irão. É preciso ver como as coisas mudam tão rapidamente.

Diz que os pontos fortes da Internet – anonimato, interconectividade, ser viral– são também as grandes fraquezas. Como é que se corrige as fraquezas? Com mais regulação?

Não tenho a certeza que seja algo que tenha necessariamente de ser corrigido. Há esta luta pelo perfeccionismo que não considero saudável. No contexto dos regimes autoritários, não acho que o anonimato seja mau – até é positivo para proteger a identidade de dissidentes. O anonimato pode ser negativo para a cultura geral da Internet pelo tipo de comentários que gera. Mas, por outro lado, há provas de que esses comentários anónimos contribuem para o debate e servem para expressar opiniões que, de outro modo, não seriam expressas. Muito depende das pessoas para quem se está a falar. Se falo para diplomatas americanos, quero perceber como é que estas plataformas funcionam e quais os efeitos negativos, como é que podem ser usados pelos opositores, sejam os chineses, os russos ou os iranianos, e quero também perceber o que é que os políticos estão a fazer em termos de regulação da Internet - e como algum desse trabalho pode comprometer a liberdade.

Não posso dar uma resposta definitiva e dizer que a regulação é a solução – em alguns aspectos pode ser, mas noutros aspectos há regulação como a SOPA [Stop Online Piracy Act, polémico projecto de lei antipirataria americano que acabaria por ser reformulado] que provocou imensos protestos. Em alguns aspectos os problemas são estruturais. Por exemplo, os bloggers que precisam de atrair mais tráfico e transformam as suas histórias em histórias sensacionalistas – isto não se resolve com regulação. Houve esta história recente da Wikipédia do Reino Unido, em que o director estava envolvido em pagamentos de percentagens de uma empresa de relações públicas para as histórias que eles promoviam terem mais destaque. Pode-se dizer que isto é sobre como a Wikipédia funciona, mas na verdade é sobre como as agências de relações públicas se tornaram influentes junto da Wikipédia. Por isso temos de ser críticos, fazer mais perguntas sobre como as coisas funcionam, temos de fazer perguntas sobre aquilo que vemos e não vemos no Facebook.  São tudo grandes assuntos tecnológicos e culturais que precisam de ser analisados caso a caso. Temos de participar mais nestes debates para promover a transparência e saber melhor como as coisas funcionam.

Qual acha que foi o maior impacto de organizações como a WikiLeaks e como mudaram a Internet e o ciberactivismo?

Não penso muito na WikiLeaks, porque acho que a afirmação por detrás da WikiLeaks é a de que se se der meios às pessoas para descarregar documentos e torná-los seguros, vai ter-se muito material de whistleblowers [denunciantes].  E é o tipo de abordagem que não quer ver a realidade dos whistleblowers – a razão por que não estão a deitar cá para fora documentos não é por não terem os meios para o fazer, mas é por poderem ser acusados ou terem mais pressão das empresas e dos governos. Outro problema com a WikiLeaks é que, se não tem uma estrutura por trás que a proteja, não será a tecnologia a fazê-lo. De alguma maneira, com o libertar dos telegramas do Departamento de Estado norte-americano eles foram vítimas do seu próprio sucesso – muita da excitação que havia há três anos deu em nada.

Fala da contra-revolução Twitter feita por alguns governos autocratas e da contratação de alguns spinners [assessores de comunicação]. Que tipo de conselhos tem para dar sobre a forma como podemos distinguir os spinners dos verdadeiros activistas? E como podem os activistas proteger-se dos censores-repressores?

É muito tentador aparecer uma solução tecnológica a dizer que podemos medir a reputação das pessoas online, medir se o que dizem é credível ou não. Essas soluções tecnológicas não seriam positivas.

Infelizmente não há outra solução que não seja ter instrução em media e tentar verificar os comentários e posts dessas pessoas. Não seria saudável mudar para um sistema em que a tecnologia defina quem é credível online, em parte porque seria um ataque à liberdade de expressão e as pessoas estariam menos disponíveis para dizer coisas online. Temos de saber que os governos contratam pessoas para estar online, que contratam comentadores e agências de relações públicas – se se tiver isto em mente e se se passar algum tempo em comunidades online e perceber que tipo de comentários as pessoas fazem, consegue-se perceber se as pessoas têm comentários estranhos. Em relação ao controlo governamental é aconselhável ter uma presença online anónima e segura. O problema é quando os governos não restringem o seu controlo à Internet e prendem, por exemplo, os bloggers que são críticos. Nesse caso há pouco que se consiga fazer em relação ao controlo governamental – e os governos envolvem-se cada vez mais nesse tipo de coisas. É muito mais fácil tentar agarrar o administrador de um grupo online e obter a password do que violar a sua conta. Mas, em termos gerais, há que  tentar usar ferramentas mais seguras, não levar o telemóvel para todo o lado, usar aplicações para proteger a privacidade, mas também estar consciente de que, se se tornar bem sucedido, o governo pode perseguir e torturar – portanto, é bom ter uma estratégia para resistir a uma eventual perseguição.

Como é que imagina a Internet dentro de dez anos no seu papel de impulsionadora da democracia?

Não há uma visão única, mas uma visão positiva e negativa. Gosto de pensar numa relação dialéctica entre elas. A minha visão negativa, que descrevo no livro, significa que teremos muito mais censura personalizada e específica aplicada a utilizadores – por exemplo, o governo bloqueia-me muito mais sites do que à maioria dos utilizadores por achar que sou ameaçador. Como é que o governo faz isso? A partir dos dados que nós enviamos para o mundo online. E isto será um cenário pessimista. No cenário optimista, poderíamos pensar numa forma de as empresas ocidentais não venderem as ferramentas que permitem censura aos governos autoritários através de regulação. Tenho uma perspectiva flexível, não acho que a evolução da Internet seja apenas num sentido, há pequenos pontos de intervenção que são formas de nós, no Ocidente, interferirmos e regularmos as empresas de Internet. A tecnologia estará integrada em quase todas as esferas da nossa vida e a tentação de nos envolvermos em novas formas de intervenção, de fazer mais coisas que não faríamos de outra forma será irresistível. Precisamos de perceber como é que alguns destes esquemas podem funcionar e como alguns podem ter um efeito negativo – como é que empresas como o Facebook ou o Twitter trazem os seus preconceitos e interesses para o seu negócio, temos de relacionar a política económica deles com os algoritmos que criam, de perceber como tudo isso se relaciona e como é que os interesses deles podem ser contrários aos nossos interesses.

Na quarta-feira entrevista com Nicholas Carr

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