Como é andar na escola com todos os meninos do concelho?

Desde 2005 que as escolas primárias têm vindo a ser fechadas, enquanto vão abrindo centros escolares. Paredes de Coura foi a primeira a mudar.

Paredes de Coura parece conviver com a única escola de 1.º ciclo existente no concelho como se nunca tivesse conhecido outra realidade.

Oito anos passaram desde que se tornou no primeiro concelho do país a encerrar todas as escolas primárias e a concentrar os alunos num novo centro escolar, colocando-se na vanguarda da reforma educativa que o Governo levaria a cabo a partir de 2005. Desde então, abriram 232 novos centros escolares e encerraram milhares de escolas por todo o país, sob protesto da maioria das populações. Mas a polémica, também acesa no início do processo, já se dissipou em Paredes de Coura, entre conformados e rendidos.

Um edifício polivalente com a altura de dois andares faz de hall de entrada à Escola do 1.º Ciclo do Ensino Básico de Paredes de Coura. No interior, por volta das 8h30, as correrias e os gritos das dezenas de crianças vão dando lugar a filas ordenadas à frente de cada professor, que depois de conferir a presença dos seus alunos os encaminha pelos corredores labirínticos até à respectiva sala. É o início de mais um dia de aulas no arranque do ano lectivo e, passados poucos minutos, já se conferem os trabalhos de casa numa das salas do primeiro ano. Pela primeira vez desde a abertura da escola, apenas três turmas aprendem as primeiras letras.

Apesar de o número total de alunos nunca ter sido tão baixo como no ano inaugural, foi precisamente a redução drástica de crianças em Paredes de Coura, distrito de Viana do Castelo, que fez a autarquia optar por encerrar as 23 escolas primárias e construir um único edifício no centro da vila. “De 1985 a 2003, o número de alunos diminuiu 70%. Percorria as escolas e frequentemente encontrava-as com quatro, cinco, dez a 12 alunos. Só duas é que tinham 30”, revela António Pereira Júnior, no quinto mandato à frente da Câmara Municipal de Paredes de Coura. Entre as jornadas municipais da educação em 1994 e o avanço definitivo do projecto, o número de alunos tinha diminuído tanto que a autarquia decidiu construir uma única escola em vez das duas inicialmente planeadas.

Na inauguração do centro escolar, um ano após a entrada em funcionamento, o então primeiro-ministro, José Sócrates, e a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, consideram-no um “exemplo” para aquilo que pretendiam implementar no resto do país: uma escola com mais de 21 alunos, aberta até às 17h30, com cantina e ensino de Inglês. Mas a “escola-modelo” não foi recebida de forma pacífica pela população. Havia quem temesse pela segurança nos transportes, quem lamentasse a morte das freguesias, quem condenasse a aglomeração excessiva de alunos.

Maria Fernanda Lopes, professora do 2.º ciclo, foi a primeira a subscrever um abaixo-assinado de protesto. Tal como hoje, apesar de concordar com a concentração, “achava que deveriam ser criados dois, três pólos: um na parte debaixo do concelho, outro na parte de cima e outro em Coura”. Depois de a primeira filha ter vivido a transição e a segunda já ter feito todo o 1.º ciclo no centro escolar, Maria Fernanda Lopes continua a defender que a concentração excessiva “cria um ambiente que não é muito propício”, apesar de ser “mais enriquecedor” ao nível das actividades realizadas.

"Com o tempo até gostei, mas ao início preferia ter ficado lá em cima [na escola primária de Castanheira]", confessa Paulo Sousa, hoje com 17 anos. "Lá era mais natural, aqui sentíamo-nos fechados. Depois fomo-nos habituando ao espaço, ao que podíamos e não podíamos fazer, já não fazia muita diferença", afirma o estudante. Daniel Rodrigues, 16 anos, também vive na freguesia de Castanheira, mas já frequentava a escola primária da vila. Por isso, a transição para o novo complexo escolar foi mais fácil. "Na outra, o dia-a-dia era quase sempre a mesma coisa. Aqui, as aulas eram diferentes, os espaços e as actividades que fazíamos eram diferentes. Gostei mais de vir para cá", garante.

Bonita mas pequena para tantos alunos

Em Setembro de 2004, as 16 salas de aula foram estreadas por mais de 300 crianças, do pré-escolar ao 4.º ano. O edifício, cinzento por fora e colorido por dentro, tem ainda hoje uma arquitectura diferente da maioria das escolas primárias, com os níveis de ensino divididos por blocos; as janelas ora circulares ora a rasgar paredes à altura das crianças; os recreios separados por ciclos; e equipada com todo o tipo de espaços – polivalente, sala de informática, biblioteca, videoteca e refeitório.

Apesar da diversidade de espaços, oito anos passados, as maiores críticas recaem sobre o edifício que, segundo Ermelinda Alves, “se revelou muito bonito, mas pouco prático”. O espaço “cria conflitos, as salas são pequenas, os meninos têm dificuldade em movimentar-se, não têm espaço para brincar”, acrescenta a professora do 1.º ciclo. Cecília Terleira, directora do Agrupamento de Escolas de Paredes de Coura, reconhece que foi preciso alternar os horários de intervalo, mas mesmo assim os recreios são os equipamentos que os alunos “criticam mais”. Se ainda há quem condene a falta de um campo de futebol, é o polivalente, o único espaço coberto, que parece pequeno de mais para tantos dias de chuva.

Tiago Correia, um dos arquitectos responsáveis, rebate as críticas, relembrando ter sido projectada uma ponte que une o edifício ao gimnodesportivo existente do outro lado da rua. O objectivo era que os alunos fossem “jogar à bola nos intervalos”, mas a regularidade das idas ao pavilhão não se concretizou como previsto na discussão do projecto com a comunidade escolar. “Acabaram por pedir para fazer um espaço de jogos dentro do recreio que é uma coisa já completamente fora do que era o projecto antes. Se havia o gimnodesportivo, porque é que haveríamos de fazer um campo de jogos minúsculo para aquela gente toda?”

Aldeias sem alunos dão novos usos às velhas escolas

Numa manhã de chuva incessante e por entre curvas e contracurvas, o autocarro escolar vai subindo em direcção a Castanheira, onde recolhe porta a porta cerca de duas dezenas de meninos pelos lugares da freguesia. Este ano, o transporte dos alunos é feito por uma nova empresa, mas o sistema é semelhante. Aos poucos, entre manobras apertadas e colocações de marcha-atrás, as paragens constantes junto aos portões das residências vão enchendo o autocarro de crianças, que após cerca de 40 minutos são deixadas junto à entrada da escola, para serem recolhidas oito horas depois.

O transporte foi inicialmente um dos principais motivos de contestação entre os pais, mas o sistema implementado – uma rede de miniautocarros de recolha porta a porta pelas 21 freguesias e uma equipa de vigilantes – terá acalmado os encarregados de educação. Contudo, a factura continua a ser uma dor de cabeça para a autarquia, que sempre suportou na totalidade os custos com o transporte, exceptuando dois anos de financiamento estatal. Em 2004/2005, a conta ascendeu aos 300 mil euros. Este ano, o contrato com uma nova empresa estabelece o pagamento de pouco mais de 170 mil.

“A concentração de escolas acarreta despesas bastante grandes para uma câmara de fracos recursos. Mas acho que não estamos a fazer despesa, estamos a investir nas nossas crianças e jovens”, defende António Pereira Júnior. O autarca já retira resultados positivos de todo o processo. “Hoje [os alunos] são absolutamente iguais, têm todos as mesmas oportunidades e acesso às mesmas coisas, quer sejam do ensino, do desporto, da cultura ou da arte.” A directora aponta ainda outros benefícios como a “melhoria da socialização”, a “partilha entre professores” e o “aproveitamento”. Depois de um número recorde de retenções no ano inaugural devido à “nivelação do grau de exigência”, a taxa de chumbos foi diminuindo, mantendo-se abaixo da média nacional desde 2007.

Com iguais argumentos, o Governo já tinha aberto guerra às escolas isoladas, com poucos alunos ou maus resultados, dando arranque definitivo à reforma da rede escolar em 2005. Desde então, existem menos 3720 escolas primárias e 232 novos centros escolares foram abertos por todo o país. Mais de metade foram inaugurados em 2010, a grande maioria (111) na região norte, onde anos antes várias autarquias já se tinham antecipado ao executivo, fechando dezenas de pequenas escolas, como em Melgaço, Alfândega da Fé ou Paredes de Coura.

Naquele concelho, o novo complexo escolar já precisa de algumas reparações. Muitas janelas têm os vidros partidos e pelo menos um quadro interactivo está estragado. Mas quase todas as escolas encerradas foram entretanto recuperadas e têm agora novas funções, entre jardins-de-infância, sede de associações culturais ou juntas de freguesia, bibliotecas e até um albergue de peregrinos. No entanto, o autocarro escolar leva as crianças muito cedo de manhã e devolve-as nunca antes das 18h. Nas aldeias, já não se ouvem os gritos e correrias das crianças durante os intervalos ou nas horas de entrada e de saída. “Isso perdeu-se e claro que não se vai recuperar nunca mais”, afirma Cecília Terleira. “É o grande medo, que as crianças se afastem um bocadinho das suas tradições e se percam essas tradições nas aldeias.”

“Sinto pena porque a freguesia ganhava alguma vida. As avós vinham ver os meninos ao recreio, davam movimento”, defende Ermelinda Alves. “Mas é nostalgia. Em termos profissionais não tenho nada a dizer. Ainda acredito neste projecto. Se calhar são alunos de mais nesta escola, se calhar se fossem dois núcleos conseguia-se dar mais qualidade ao serviço. Mas não está mal de todo”, conclui.