Daqui a dez anos, a Internet será como nunca a imaginaremos

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Michael Dalder/Reuters

Há dez anos, não imaginávamos que a Internet se tornasse num meio privilegiado de troca de mensagens, partilha pública da vida privada, meio de organização colectiva, instrumento de ajuda à democracia e às ditaduras. Daqui a outros dez anos, ninguém arrisca dizer como será um meio que todos os anos se transforma de forma avassaladora. A propósito do lançamento do novo site do PÚBLICO, entrevistámos cinco especialistas que trabalham nos Estados Unidos para tentar perspectivar tendências: Clay Shirky, Nicholas Carr, Jeff Jarvis, Ethan Zuckerman e Evgeny Morozov. Deixamos aqui o balanço das conversas que tivemos com eles

Em pouco mais de 20 anos, deixámos de escrever à mão, passámos a procurar toda e qualquer informação online, começámos a partilhar a nossa vida nas redes sociais. Não sabemos viver sem estar ligados à Internet e os avanços foram de tal maneira rápidos e avassaladores que estão a levar indústrias ao fundo.

Hoje, lembra Clay Shirky, não concebemos a Internet como uma esfera separada da vida. Autor de Eles Vêm aí: o Poder de Organizar sem Organizações (de 2008, em Portugal editado pela Actual Editora) e de Cognitive Surplus: Creativity and Generosity in a Connected Age (2010), também professor na New York University (NYU), Shirky tem analisado a forma como a Internet se transformou num meio de conversa e de organização de grupos.

Quando começou a usar a Internet aos 28 anos, tinha uma crença errada, diz-nos: achava que a Internet era um sítio a que se ia e voltava. "A Internet não é uma esfera separada da vida", afirma agora. "No momento em que alguém tem um telefone com acesso à Internet, a relação com a rede muda, estar ou não estar online deixa de ser uma questão. O real e o virtual misturam-se, tanto que já nem faz sentido usar as duas palavras."

Em Eles Vêm aí... Clay Shirky debate a questão da organização de comunidades e grupos que a Internet veio potenciar, analisando aquilo que considera serem quatro pontos essenciais: a partilha, a conversa, a colaboração e a acção colectiva. Num mundo pós-Primavera Árabe, onde o Twitter e as redes sociais permitiram mobilizar uma série de pessoas, o grande desafio é a passagem da conversa à acção colectiva, ou, como ele diz, mudar de "concordamos ou discordamos" para "vamo-nos juntar e fazer qualquer coisa em relação a isto". "Podem ver-se sinais disso nos protestos globais em 2011 - na Primavera Árabe, nos Indignados, nos Occupy. Todos estes grupos usam essas ferramentas para se coordenarem, mas continuam a ser protestos." Shirky está a pensar, como exemplo, num partido político que toma a Internet como garantida, fala e discute com os membros os temas que os preocupam a toda a hora - e tem a possibilidade de ser mais transparente.

Precisamente porque a Internet tomou tanto espaço na nossa vida, enfrentamos cada vez mais questões sobre a privacidade, que muito têm incendiado debates sobre os limites da liberdade, manipulação e controlo - dos governos, das empresas, de nós sobre os outros.

Devemos expor-nos mais ou ser mais reservados? Será que, como defende o guru americano Jeff Jarvis, se não partilharmos certas coisas, estamos a ser egoístas ou irresponsáveis? O autor de O Que Faria o Google? (Gestão Plus, 2010), Public Parts: How Sharing in the Digital Age Improves the Way We Work and Live (2011), director do Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism na CUNY (City University of New York) e consultor de várias empresas de media, é um dos defensores da ideia de tornar público aquilo que muitos consideram que deve ser privado. Como alguém que privilegia o lado de conversação em que se tornou a Internet, Jarvis considera justamente que a partilha e exposição pública é um dos grandes benefícios da Internet. Exemplo desses benefícios? Imagine-se que há um bairro onde de repente uma série de pessoas tem cancro da mama. "Se mantivermos isso secreto, não há forma de encontrar esse padrão e talvez a causa. Se formos abertos em relação a isso, e não há razão para não o sermos, então podemos encontrar um padrão, talvez uma correlação e a causa. Isto é um exemplo do como ser mais aberto nos pode beneficiar", diz.

Apesar de muito ter argumentado contra aqueles que diz estarem em "pânico moral" sobre a privacidade, Jarvis não nega que seja importante protegê-la. Não quer é que essa seja a única parte da discussão sobre a Internet e privacidade: "Por isso escrevi o livro sobre os benefícios de tornar as coisas públicas, quis sublinhar esses benefícios que incluem a capacidade de qualquer pessoa falar em público, de nos juntarmos como público, de nos organizarmos e de agirmos como público - acho que essas são capacidades preciosas e fantásticas que podem ser reguladas de forma cuidada."

Mais do que contarmos com a protecção dos governos, defende, devemos é proteger-nos dos governos, que podem usar dados privados como mais ninguém. Disso sabe Ethan Zuckerman, fundador do site Global Voices - comunidade de bloggers de todo o mundo e que se afirmou como fonte de informação alternativa. Colaborador de vários projectos, como o MIT Center for Future Civic Media, e investigador do Berkman Center for Internet and Society da Universidade de Harvard, analisa que ainda há muitos "buracos" negros e zonas sobre as quais estamos completamente em branco.

Encurtámos distâncias, mas não assim tanto: e para ele o exemplo mais flagrante foi a Primavera Árabe, por ter dado a oportunidade a milhões de assistir quase em directo a uma mudança de regimes em vários países do Médio Oriente, mas também pelo facto de o início da revolução em Dezembro de 2011 estar a ser relatada em redes sociais e a passar ao lado dos meios tradicionais - e que nos leva a pensar, diz, que sabemos muito menos do que se passa do que aquilo que pensamos. Continua a existir pouca informação sobre alguns países onde os governos exercem censura, embora casos como a China, em que as redes sociais tipo Twitter se desenvolveram, tornaram mais difícil o controlo do fluxo da informação em tempo real.

É certo que a Internet pode ser instrumentalizada, só que campanhas espontâneas como as que aconteceram contra a SOPA, uma lei antipirataria americana que a iria colocar uma série de restrições na Internet, provaram que o carácter descentralizado da Internet ajuda a democracia. "Quando pensamos em que é que a Internet pode ajudar a democracia, é o facto de ser descentralizada, de permitir que uma série de ideias circulem."

Zuckerman acha, por isso, exageradas posições como a do bielorrusso Evgeny Morozov, que defende que a Internet ajuda alguns ditadores a apanhar dissidentes e a controlar a informação. Morozov está neste momento a terminar um livro, com o título provisório Silicon Democracy, depois de defender que a Internet ajuda os regimes autoritários em The Net Delusion: The Dark Side of Internet (2011). Polémico, tem dado uma visão negra da forma como as ditaduras controlam o mundo online fazendo campanhas de contra-informação. "Se olharmos para os últimos três anos, encontramos exemplos que indicam que algumas destas tecnologias ajudaram as pessoas a organizarem-se. Mas também ajudaram alguns ditadores a apanhar dissidentes, através dos seus telemóveis, vendo quem são os seus amigos nas redes sociais, ajudaram-nos a espalhar propaganda online através de bloggers contratados, e ajudaram-nos a fazer ataques cibernéticos para desactivar websites que são críticos." Morozov diz, por isso, que devemos ser mais realistas sobre os benefícios da Internet.

Mas estes são os efeitos externos de um media que estava longe de se prever ser tão dominante nas nossas vidas ao ponto de, alerta Nicholas Carr, afectar a forma como raciocinamos: a velocidade e bombardeamento de informação constante vinda de todo o lado está a fazer-nos perder a capacidade de concentração e a tornar-nos menos reflexivos. Carr, cujo livro The Shallows: What the Internet Is Doing to Our Brains foi finalista dos prémios Pulitzer de não-ficção, tem-se dedicado a estudar os efeitos perversos da Internet no nosso cérebro, analisando a forma como tem tornado o nosso pensamento mais distractivo, errático e rápido. É ainda autor do amplamente debatido artigo Is Google Making Us Stupid? (pode ler-se na edição online da revista The Atlantic) e dos livros de The Big Switch: Rewiring the World, from Edison to Google (2008) e de Does IT Matter? (2004). "A forma como a Internet se desenvolveu tornou-a mais distractiva, exigindo às pessoas que retenham constantemente pequenas partes de informação e que monitorizem pequenas correntes de informação", contextualiza.

"Uma das grandes mudanças nos últimos anos, com o advento de novas redes como o Facebook e o Twitter, e isso combinado com o aparecimento dos smartphones e dos pequenos computadores, é que a forma como a Internet funciona mudou: passámos do modelo de ir a uma página Web ver o que tinha para oferecer para o modelo de informação que está a correr constantemente e que aparece de vários sítios: do sms, do email, dos updates do Facebook e dos tweets. Isso encorajou as pessoas a suportar interrupções constantes, a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Perdemos a capacidade de afastar as distracções e de sermos pensadores atentos, de nos concentrarmos no nosso raciocínio."

Quem diria, há 20 ou até mesmo há dez anos, que iríamos usar tanto a Internet para trocar mensagens - ou até para namorar? Daqui a dez, como será?

Leia as entrevistas na íntegra no novo site do PÚBLICO www.publico.pt