As Boas Raparigas e o teatro do nosso tempo

Devagar parte de duas peças de Howard Barker que prolongam aquilo que o autor define como Teatro da Catástrofe

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Os corpos absolutamente hipnóticos de Anabela Sousa, Carla Miranda, Maria do Céu Ribeiro e Sandra Salomé João Tunas/TNSJ
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Miguel Eloy em Corporal Webb João Tunas/TNSJ

Crítica de Teatro

Devagar

Enc. de Rogério de Carvalho

Um espectáculo de As Boas Raparigas…
Porto, Teatro Carlos Alberto, 18 Novembro, 16h, meia sala
Até 2 Dezembro

5 estrelas


Há mais do que uma atenção ao texto e ao modo como este pode ir mais longe do que a própria imagem que a partir dele se cria nos trabalhos da companhia As Boas Raparigas. É como se o movimento dos corpos fosse já exausto, vivesse já exangue do próprio esforço da palavra para se impor. E, por isso, suspenso o movimento dos corpos nas pausas da respiração, ficasse no ar a terrível sensação de finitude que tão bem acolhe as intenções de Howard Barker.

Devagar

, que parte de duas peças de Barker,

Corporal Webb

, uma das narrativas de

Five Names

, e

Slowly

, que dá nome ao espectáculo, são textos de 2011 que prolongam aquilo que Barker define como Teatro da Catástrofe. Há na sua exemplar reflexão filosófica um modo de expor, de dar a ver, de denunciar, um mal-estar que começa por ser um reflexo interior do que rodeia as personagens para passar a ser o agente activo da acção exterior. Como se nessa circularidade Barker fosse mais longe na ideia de inferno pessoal, mostrando afinal o modo como a violência, a sexualidade e o desejo pelo poder emanam de condições naturais, empíricas ao ser humano. E é isso que As Boas Raparigas… percebem como ninguém e, pela mão seguríssima de Rogério de Carvalho, levam aqui a cabo, uma vez mais, num espectáculo que nos revela um teatro de actualidade, atento a um abandono da poética simplificada, consciente da ambiguidade da palavra, resistente a um exercício de composição retórico, militante de uma ética das ideias como acções.

Quando Miguel Eloy se insurge, em Corporal Webb, contra uma força ausente, projectando numa inamovível coluna o desejo de compreensão, ele que seria um soldado servidor e cumpridor, transporta, naquele corpo esgotado, naquela voz seca que não quer ceder à revolta, o reconhecimento de um abandono. O modo como o faz, numa tessitura física e oral reveladora de um conhecimento profundo do corpo como material textual, é profundamente comovente. E, isolado pela penumbra, ouvindo ao longe os gritos de morte e sangue, percebe-se, afinal, peão de um jogo maior do que si mesmo.

É nessa condição de abandono que nos deixa o teatro de Barker. Um teatro onde nem o homem é a sua última esperança, porque vive já abandonado de princípios. Por isso, quando o palco é ocupado por princesas de máscaras feitas, como se a impassibilidade dos corpos e dos rostos lhes valesse fortuna, o que nos fica, o que ainda ecoa, é o barulho que vem do exterior. Um barulho que, expondo as forças oponentes que se esmagam, esmagam afinal, no interior, as esperanças de redenção das princesas, perturbando e tolhendo os nossos sentidos. E o texto, uma aguda desmontagem do discurso sobre a honra, a pátria e os valores nobres e perpétuos, coloca-nos, afinal, e com uma derrisória ironia, perante a ambiguidade da vitória.

O que Rogério de Carvalho consegue, através dos corpos absolutamente hipnóticos de Anabela Sousa, Carla Miranda, Maria do Céu Ribeiro e Sandra Salomé, é transformar a eminente invasão dos bárbaros num exercício de contrição dos pecados e dos desejos daquelas mulheres. Abandonadas, são também elas, afinal, vítimas de uma cegueira totalitária que obriga a um abandono da moral e da ordem. Assim, ao sujeitar estas mulheres à sua condição feminina, libertando-as de um jogo de representação, fá-las entrar, de modo muito agudo, num outro estádio de consciência, onde deverão, eventualmente pela primeira vez, ver-se responsáveis pelas suas palavras.

Não há, em momento algum deste Devagar, espectáculo tão breve quanto breves, porque duros, são os momentos de dolorosa revelação, espaço para a redenção. O teatro de Barker não o deseja, nem os corpos dos actores o insinuam. Mas há, eventualmente numa rememorização dessas palavras e desses movimentos, uma hipótese de não-repetição. Talvez o teatro de Howard Barker tenha, afinal, encontrado no desejo de materialização da companhia As Boas Raparigas... um modo de nos ensinar a escapar de nós mesmos.