Manifestantes no Egipto dispersados com gás lacrimogéneo

Manifestantes tinham prometido ficar uma semana. Em causa estão protestos contra uma decisão do Presidente.

Os protestos contra Morsi fizeram pelo menos 100 feridos
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Os protestos contra Morsi fizeram pelo menos 100 feridos Mohamed Abd El Ghany

Os milhares de manifestantes que se encontravam na Praça Tahrir, no Cairo, em protesto contra a Declaração Constitucional do Presidente Mohamed Morsi, foram dispersados com gás lacrimogéneo.

Em causa está a mais recente decisão de Morsi, que declarou que todos os decretos provenientes da Presidência não podem ser revogados ou cancelados por “nenhum indivíduo nem nenhuma organização política ou governamental”. Os EUA já criticaram o reforço de poder e apelaram à calma no país.

Os manifestantes tinham prometido manter-se no local durante pelo menos uma semana, enquanto planeavam novas formas de luta com dois grandes objectivos: reverter a intenção do Presidente egípcio sobre a Declaração Constitucional e dissolver a assembleia constituinte que está neste momento a trabalhar numa revisão da Constituição do país.

Alguns balanços apontam para que pelo menos 100 pessoas tenham ficado feridas em confrontos com as autoridades e as testemunhas no local indicam que durante a madrugada de sábado a praça ficou quase vazia, avança a BBC na sua edição online. Na rede social Twitter várias são as mensagens que dão conta que os manifestantes foram forçados a abandonar o local depois de ter sido lançado gás lacrimogéneo.

Os manifestantes querem que Mohamed Morsi se demita, acusando-o de ter “sequestrado a revolução” num aparente golpe de Estado e comparando-o a Mubarak, o antigo Presidente deposto depois dos protestos populares de 2011.

Morsi já garantiu que nunca seguirá os passos do seu antecessor e que em relação à Declaração Constitucional não abusará da sua autoridade legislativa nem utilização a lei para “exercícios de vingança”.

A Irmandade Muçulmana, do Presidente Mohamed Morsi, tinha apelado aos seus membros para não saírem do país pois poderiam ser precisos para “apoiar decisões revolucionárias”. A oposição secular apela a protestos queixando-se de que Morsi tem agora tanto poder como o Presidente derrubado, Hosni Mubarak.

Medidas mais populares

Tudo depois do anúncio, de que as decisões de Morsi passavam a não poder ser contestadas por qualquer instância, incluindo a judicial. A par deste poder, foram anunciadas medidas mais populares: o afastamento do procurador-geral que tinha deixado ilibados responsáveis acusados pela repressão das manifestações anti-Mubarak. A primeira ordem do novo procurador-geral,Talaat Ibrahim, foi reabrir a investigação contra Hosni Mubarak (condenado em Junho passado a prisão perpétua); o seu último ministro do Interior, Habib al-Adly; e seis dos seus colaboradores, acusados e ilibados das mortes de manifestantes a 25 de Janeiro.

A Irmandade Muçulmana defende a decisão do Presidente como necessária para fazer a “limpeza” do sistema judicial e “proteger as decisões revolucionárias”. Os jovens activistas que estiveram na linha da frente dos protestos contra Mubarak discordam e vêem uma tomada de poder que dá ao novo Presidente uma esfera de acção tão alargada como a que tinha Hosni Mubarak.

O reforço dos poderes do Presidente Mohamed Morsi já foi comentado pelas autoridades norte-americanas. Num comunicado publicado no site do Departamento de Estado norte-americano, a porta-voz Victoria Nuland afirma que a Declaração Constitucional de Morsi "preocupa muitos egípcios e a comunidade internacional".

"Uma das aspirações da revolução era a garantia de que o poder não ficaria concentrado em demasia nas mãos de qualquer pessoa ou instituição. O actual vazio constitucional no Egipto apenas pode ser resolvido com a adopção de uma Constituição que inclua deveres e direitos e que respeite as liberdades fundamentais, os direitos individuais e uma legislação consistente com os compromissos internacionais do Egipto", lê-se no comunicado do Departamento de Estado.
 
 

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