Este fim-de-semana é a última vez que Lisboa se Mistura desta forma

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Macacos do Chinês viajam hip hop, funk e kuduro DR

Em 2013, as Festas da Cidade adoptarão o festival, mas Macacos do Chinês e Orelha Negra fazem já a festa amanhã

Não é a primeira vez que Lisboa se rende à mistura dos sotaques e das culturas, que todos os dias preenchem as ruas da cidade. Mas é, no entanto, a última vez que o faz com um festival, o Lisboa Mistura, que acontece este fim-de-semana no São Luiz. Não, o festival, que tem trazido para os palcos da cidade comunidades artísticas de várias origens, apostando na interculturalidade, não vai acabar. Mas vai mudar. Se correr como planeado, acontecerá durante as Festas da Cidade, em Junho, e vai abranger ainda mais áreas. Lisboa vai adoptar o festival e a Mistura vai ser ainda maior.

Mas antes de lá chegarmos temos a edição deste ano, que, mesmo com todas as restrições orçamentais, conseguiu manter-se fiel à linha dos anos anteriores. Ou seja: mostrando o que de melhor as comunidades imigrantes a residir em Portugal fazem. Mas para um festival que aposta no debate intercultural, imigrante não será o termo mais indicado a usar. Independentemente das suas origens - começou com a imigração africana, depois a brasileira e, mais recentemente, do Leste da Europa -, pertencemos todos a Lisboa.

"É este sentido de comunidade que torna o Mistura num festival diferente dos outros", disse ao PÚBLICO Carlos Martins, responsável da associação Sons da Lusofonia, promotora do festival. "As pessoas já não querem fugir a este confronto de culturas, pelo contrário, querem perceber, querem conhecer a vivência dos outros", continua. Acredita que em tempos difíceis como os que vivemos estas iniciativas fazem falta. "Este sentido comunitário que defendemos é cada vez mais preciso, temos de estar unidos."

Programa

Teatro, música, cinema e debates fazem o festival, que arranca hoje no Jardim de Inverno do São Luiz (às 19h) com uma conversa sobre interculturalidade e as novas formas de comunicação. Kalaf, dos Buraka Som Sistema, vai estar presente, e além de falar vai também apresentar uma instalação multimédia preparada para o Mistura, onde questiona a vida liberta de qualquer bem, qualquer lugar ou pessoa. A noite continua depois na sala principal do teatro com o folk português dos Dazkarieh e termina no Musicbox com a viagem aos sons latinos dos Combo Nuevo Los Malditos e de Trio Pinchadiscos.

No sábado, como não podia deixar de ser, voltamos ao encontro com as comunidades, através daquele que para Carlos Martins é o projecto mais especial do Lisboa Mistura: a Oficina Portátil das Artes (OPA). "São espectáculos inéditos desenvolvidos ao longo do ano nas comunidades dos bairros da periferia e que são apresentados ao público no âmbito do festival", explica o responsável, que criou esta oficina em 2009 - o festival arrancou em 2005. O espectáculo, que começa às 16h, é preparado com o apoio de várias associações locais, e não olha a áreas (há projectos de dança, música ou teatro) nem a idades. "É para ser para todos e o melhor é que com isto conseguimos trazer para um grande palco de Lisboa pequenos artistas que de outra forma dificilmente conseguiriam cá chegar." Por arrasto, vem toda a comunidade.

"De repente temos no São Luiz um público que não é habitual mas que aprecia da mesma forma a cultura e isso é muito gratificante", diz, lembrando que nas últimas edições todos os espectáculos tiveram as lotações esgotadas. "Ao mesmo tempo que temos este lado popular e comunitário, em que nos propomos a reflectir sobre todas as questões da nossa vivência, tentamos também apresentar uma visão contemporânea, não descurando a qualidade artística", explica, destacando, ainda que com dificuldade porque está a falar da sua própria programação, a noite de concertos de amanhã, encabeçada pelos Macacos do Chinês, que viajam na música portuguesa entre o hip hop, o funk e o kuduro, e os Orelha Negra, projecto dos lisboetas Sam the Kid, Cruz, Ferrano, Gomes Prodigy e Rebelo Jazz Bassl.

Antes sobe ao palco o músico Tcheka, para apresentar o seu mais recente trabalho Dor e Mar, e é exibido o documentário de Filipa Reis e João Miller Guerra, Orquestra Geração.

O festival encerra domingo com a Festa Intercultura, que é nada mais nada menos que a celebração de todas as comunidades. "É para terminar mesmo em festa."

E para o ano, ambiciona-se a participação de artistas internacionais e a abertura a mais áreas. Os contactos já estão a ser feitos e a mistura a ser preparada.