Morsi reforça poder no Egipto, oposição acusa-o de "usurpação"

O Presidente do Egipto também demitiu o procurador-geral e foi acusado de se estar a tornar um "novo faraó".

Nenhuma autoridade pode desafiar os decretos de Morsi
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Nenhuma autoridade pode desafiar os decretos de Morsi Khaled Desouki/AFP

O Presidente egípcio, Mohamed Morsi, emitiu uma declaração impedindo alguém de desafiar os seus decretos, leis e decisões. A oposição acusa-o de “usurpar todos os poderes”.

O Presidente pretende tornar-se um “novo faraó”, criticou sem demora uma das principais forças da oposição, o Nobel da Paz Mohamed ElBaradei.

Morsi demitiu ainda o procurador-geral, Abdel Meguid Mahmoud, que não tinha conseguido afastar no mês passado, e ordenou novo julgamento para os responsáveis acusados de atacar os manifestantes que pediam a queda do então Presidente Hosni Mubarak, entretanto afastado.

A decisão do procurador-geral Mahmoud sobre estes responsáveis tinha provocado, o mês passado, confrontos violentos.

A declaração de Morsi quer dizer, por exemplo, que nenhum tribunal pode dissolver a Assembleia Constituinte, que redige a nova Constituição do país, que substituirá a que foi suspensa depois da queda de Mubarak. Também dá a esta assembleia mais dois meses para redigir a nova Constituição

“Hoje, Morsi usurpou todos os poderes e proclamou-se o novo faraó do Egipto. Um enorme golpe dado à revolução que pode ter horríveis consequências”, comentou Mohamed ElBaradei, uma das figuras da oposição secular, no Twitter. 

Quem poderá parar Morsi? 
No Verão, Morsi tinha substituído o ministro da Defesa, o marechal Tantawi, que tinha assumido o poder na sequência da queda de Mubarak. Também declarou nulo o documento constitucional com que Tantawi tinha concedido enormes poderes aos militares. Foi assim que começou a sair assim de uma posição de um Presidente que parecia não ter quase nenhum poder para um com muito poder.

E depois do anúncio desta quinta-feira, o que poderá acontecer? Nathan J. Brown, especialista em política internacional e Médio Oriente da  George Washington University, perguntava concretamente “o que poderá pará-lo a curto prazo?”. Lembrava que “Morsi já exagerou antes, como a primeira vez que tentou libertar-se do procurador-geral” e que “a sua tentativa de Agosto de fortalecer o seu poder resultou porque o assumiu com moderação (isto é, até hoje)”.

Então, desta vez, há quem possa lutar contra esta decisão. “Os assertivos e ambiciosos tribunais poderiam dizer-lhe ‘não’. Várias forças políticas não-islamistas poderiam unir-se contra ele. Instituições neutras e associações poderiam gritar que há jogo sujo. Mas só se o fizerem em uníssono poderão ter alguma hipótese de obrigar Morsi a recuar ou encontrar um modo de mitigar o seu poder”, sugeria Brown.

Como comentava a correspondente da BBC no Cairo, Yolande Knell, Morsi “começa a soar mais poderoso do que o líder autocrático contra quem os egípcios se revoltaram para o derrubar”.

Os egípcios começavam já a sair à rua. Havia os que, como contava a estação de televisão Al-Arabiya, comemoravam a demissão do procurador-geral, que tinha impedido o julgamento dos responsáveis pela repressão. "O povo quer o julgamento de Abdel Meguid", gritavam. Mas também outros saíram à rua, fazendo outra variação dos slogans usados para a queda de Mubarak: "o povo quer a queda do Governo islâmico".