D. José I e o seu cavalo vão deixar de ser verdes até ao Verão

Os trabalhos de restauro da estátua equestre do Terreiro do Paço começaram há quatro meses e só terminam em Agosto. No fim, a estátua deverá ser cinzento-escuro. António Costa visitou o estaleiro na quarta-feira.

Antes do fim do mês vai ser feita uma endoscopia ao cavalo
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Antes do fim do mês vai ser feita uma endoscopia ao cavalo PÚBLICO
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Lá de cima o Tejo parece ainda maior, mais aberto. Há 236 anos que D. José I tem aquela vista do rio. Agora, rodeado de andaimes, conta também com os técnicos de conservação que estão a estudar e a restaurar a sua estátua equestre, uma criação do escultor Joaquim Machado de Castro.

 A estátua foi inaugurada no dia do 61.º aniversário do rei (6 de Junho de 1775), quando a cidade estava ainda a ser reconstruída e o arco da Rua Augusta não existia. Da plataforma junto às patas do cavalo do monarca é hoje difícil imaginar um Terreiro do Paço ainda sem os edifícios amarelos concluídos — para a festa de anos de D. José foi preciso construir uns a fingir, como se fosse um cenário de ópera.

O restauro da estátua, a obra mais importante daquele que é considerado o maior escultor português, começou em Agosto e deverão prolongar-se até ao Verão do próximo ano. António Costa, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, visitou ontem o estaleiro da Nova Conservação, a empresa de restauro que está a executar os trabalhos orçados em 490 mil euros e financiados pelo braço português da World Monument Fund (WMF), uma organização privada que desde 1965 se dedica à preservação do património em todo o mundo.

De capacete e máquina fotográfica, o autarca percorreu as várias plataformas de andaimes, atento a cada detalhe do conjunto escultórico de Machado de Castro (1731-1822). “A riqueza decorativa que a estátua tem demonstra bem a importância deste restauro”, disse aos jornalistas, falando do projecto que vai tirar ao rei e ao seu cavalo a pátina verde que hoje têm como “uma das últimas obras” da Praça do Comércio. Depois de concluída, explicou, ficam a faltar a intervenção nas fachadas dos edifícios, a iluminação que dará à praça a leitura cénica que merece e a instalação de um elevador no Arco da Rua Augusta, “para que se possa beneficiar de um magnífico miradouro”. Costa quer que a obra do ascensor comece já no próximo ano. “Repararam no pormenor dos punhos da camisa? E nos dentes do cavalo?”, perguntava ao descer os andaimes.

Depois da Torre de Belém e dos Jerónimos

Esta obra a cargo da WMF, entidade que já esteve envolvida no restauro de dois dos mais importantes monumentos portugueses, a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos, faz parte de um programa mais vasto dedicado ao escultor que já este ano, entre Maio e Setembro, incluiu uma grande exposição no Museu Nacional de Arte Antiga (O Virtuoso Criador) e um colóquio internacional organizado pela Universidade Autónoma.

É José Ibérico Nogueira, coordenador do projecto pela WMF, quem explica os principais problemas de conservação da estátua equestre, uma maravilha da técnica no século XVIII: 35 mil quilos de metal que levou 28 horas a derreter e apenas sete minutos e 53 segundo a verter para a forma concebida pelo escultor real – tudo curiosidades que se podem ler no tapume que envolve a obra. “A poluição provocada pelo trânsito e a salinidade, com o rio aqui mesmo ao pé, foram corroendo os materiais e cobrindo a pedra e o metal de manchas, dando à estátua do rei a cavalo aquela coloração verde que a do Marquês [de Pombal] tinha antes do restauro”, explica ao PÚBLICO, colocando muitas reservas à possibilidade de a escultura ter alguma vez sido dourada, hipótese que foi recentemente levantada.

“As estátuas dos monarcas franceses eram muitas vezes folheadas a ouro, para manter o dourado, o que não aconteceu aqui”, diz, acrescentando que o Terreiro do Paço era à data conhecido na Europa como a Praça do Cavalo Negro. Nuno Proença, o técnico da Nova Conservação que dirige a equipa no terreno, diz que é ainda muito cedo para tirar conclusões quanto ao aspecto que a estátua teria. “O que podemos dizer, com base num relatório do Laboratório Nacional de Engenharia Civil que já tem alguns anos e nos estudos que estamos a fazer, é que não é de bronze, como Machado de Castro regista na memória descritiva, muito completa, do monumento.”

Endoscopia ao cavalo

A estátua equestre do monarca, peça central da revitalização da cidade pós-terramoto, organizada pelo Marquês de Pombal, secretário de Estado de D. José I, tem uma estrutura interna em ferro, com seis toneladas, e é feita em latão almirantado, “uma liga metálica composta por cobre, estanho e alumínio, muito usada nas embarcações”, explica o coordenador de projecto da WMF. “Com tamanha concentração de estanho, dificilmente teria um aspecto dourado.” Ibérico Nogueira diz que o mais provável era que fosse em cinzento-escuro, “muito semelhante ao que tem hoje a do marquês”. E é a essa cor que deverá regressar em Agosto de 2013.

Até lá, muitos estudos e trabalhos estão ainda previstos. Antes do fim do mês, por exemplo, vai ser feita uma endoscopia ao cavalo, explica o conservador-restaurador Nuno Proença: “Vamos introduzir uma sonda através de um buraco na barriga do cavalo para avaliar o estado da estrutura que, em princípio, não apresenta grandes problemas de estabilidade”. Terá sido através desse furo que na anterior intervenção de limpeza da estátua (foi feita uma em 1926 e outra em 1983) foram retirados três mil litros de água que nela se tinham infiltrado.

Com o restauro e os estudos a ele ligados poderão acrescentar-se elementos à leitura do programa iconográfico desta obra de Machado de Castro. Porque insistiu ele em pôr uma coroa de louros sobre o elmo de D. José? Será uma pequena vingança por não o terem deixado vestir o rei como se fosse um imperador romano? Provavelmente nunca viremos a saber.