No Facebook, qualquer um poderá ser um deus

A falta de capital de risco em Portugal foi um dos principais obstáculos para os dois informáticos que estão a criar um jogo de estratégia

Foi já no limite, com os contratos de financiamento por assinar, que Pedro Fernandes, 38 anos, e Pedro Lopes, 36, deram o salto: os dois programadores informáticos abandonaram os empregos para fundar a Yucca Tech e desenvolver um jogo de estratégia para o Facebook.

Godz coloca o jogador no papel de um deus que tenta expandir a sua religião. É preciso conquistar fiéis, arrecadar matérias-primas para fazer a civilização florescer, construir edifícios, atacar ou aliar-se a outros jogadores.

Contrariamente ao que acontece com a generalidade dos jogos no Facebook (que se prolongam enquanto durar a paciência para cuidar de hortas virtuais ou fazer parte de bandos mafiosos), Godz terá um fim: quando um jogador (ou, mais provavelmente, uma aliança deles) derrotar uma deusa maligna.

O jogo está a ser desenvolvido em Arruda dos Vinhos, cerca de 20 quilómetros a norte de Lisboa. Num escritório de paredes coloridas que tem aspecto de já ter sido um apartamento, trabalham seis pessoas: além dos fundadores (que fazem de tudo), há dois ilustradores, um programador e uma responsável pela comunicação e gestão das redes sociais. “Não tínhamos muito dinheiro para arrancar e aqui os preços são mais acessíveis [do que no centro de Lisboa]”, explica Pedro Fernandes.

Capital de risco?

A ideia nasceu há mais de dois anos. Na altura, Fernandes e Lopes trabalhavam no BPI e começaram “a fazer umas experiências”. Pouco depois, decidiram que queriam um jogo para Facebook. Mas não um jogo simples, para quem quer ocupar 15 minutos do dia. “Nós somos jogadores mais hardcore”, diz Fernandes. O objectivo era fazer um jogo de que os próprios criadores também gostassem.

O problema foi passar da ideia a um negócio. “O conhecimento que naquela altura tínhamos era na sua grande maioria técnico. Tivemos de fazer um esforço para nos cultivarmos, para sairmos da nossa área de conforto”, recorda Fernandes. Começaram por participar num programa de uma associação sem fins lucrativos chamada beta-i, que se dedica a acelerar start-ups.

A dupla acabou por se candidatar aos fundos do QREN. “Termos só o QREN não é darem-nos um cheque”, sublinha Fernandes. “O QREN paga a posteriori [depois de as despesas já terem sido feitas] e temos de ter o dinheiro para investir”, explica Fernandes. A candidatura foi feita em Setembro de 2011, a resposta positiva foi recebida em Janeiro deste ano. O projecto total foi avaliado em 720 mil euros, o QREN cobre até cerca de 500 mil. Faltava o resto – e não foi fácil, recordam os dois fundadores.

“Precisámos de ir atrás de investidores. Tínhamos algum [capital], mas não tínhamos o total. Falámos com todo o tipo de casas: private equity, business angels, capital de risco, investidores privados, muita gente…” A cada porta que batiam, as respostas negativas sucediam-se. “Desde Janeiro até Abril foi uma luta. No limiar de não conseguir. Estávamos a duas ou três semanas de desistir. Estávamos quase no limiar de dizer: ‘É melhor não arriscar.’”


O dinheiro acabou por chegar. Uma fatia pequena veio do consultor que tinham contratado para ajudar a elaborar a candidatura ao QREN, a maior parte do capital é de um investidor angolano. Mas a experiência deixou os dois sócios com má impressão do capital de risco em Portugal. “É uma coisa engraçada”, ironiza Pedro Lopes. “Ficámos com a noção de que em Portugal existem empresas de capital de risco que não percebemos muito bem por que é que se chamam capital de risco, porque não investem em risco.”


Os próximos capítulos

O jogo deverá ser lançado no primeiro trimestre do próximo ano, mas a história que lhe serve de cenário começou a ser narrada em Maio, através de tiras de banda desenhada que vão sendo publicadas na página da empresa no Facebook: é uma narrativa de contornos bíblicos entre deusas antagonistas, uma do bem e outra do mal.

Godz assenta num imaginário que mistura elementos a fazer lembrar as civilizações maia e azteca com tecnologia de ficção científica. O objectivo do jogador é tornar-se poderoso o suficiente para defrontar a inteligência artificial da deusa maligna. Quando esta for derrotada, acaba o capítulo, mas os dois criadores têm a meta de lançar mais capítulos dentro do imaginário já criado.

O acesso a Godz será gratuito, mas, como é típico no Facebook, é possível comprar itens virtuais (poderes e milagres, por exemplo) e assim obter vantagens. Estas compras poderão ser feitas através de micropagamentos. Em alternativa, o jogador poderá optar por uma assinatura mensal. Para complementar as receitas, a equipa de Godz pondera a opção de colocar itens patrocinados dentro do jogo e até de apresentar aos jogadores missões em torno desses patrocínios: por exemplo, encontrar e conquistar um objecto de uma marca que tenha pago para isso.

Os dois fundadores da Yucca Tech traçaram vários cenários de adesão. Apontam para “um máximo de 600 mil utilizadores, mas, em média, 400 mil, a jogar”. E mostram-se confiantes: “Não achamos que os 600 mil sejam difíceis. Se conseguirmos esse objectivo, acho que vamos fazer muitos mais jogos.”

O artigo foi corrigido para reflectir o facto de os 720 mil euros referidos como orçamento para o jogo serem a avaliação do QREN para todo o projecto Yucca Tech, que inclui outros jogos.