JP Simões, Hélder Moutinho e Gisela João cantam esta noite à mesa no São Luiz

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Hélder Moutinho (à esquerda), Gisela João e JP Simões vão passear por músicas de que gostam DANIEL ROCHA

Esta noite, as vozes dos três cantores juntam-se no espectáculo Canções Urbanas, no S. Luiz, em tom de tertúlia despreocupada

Primeiro, foi apenas uma vontade abstracta de Gisela João, habituada a ver o também fadista Hélder Moutinho programar encontros inesperados em cima do palco. Quis participar em algo semelhante, cantar o que não lhe é habitual, colaborar com outros músicos. Depois, tendo sido convidada no concerto de JP Simões, em Junho, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Hélder propôs-lhes juntarem-se os três e inventarem qualquer coisa de raiz. Canções Urbanas, hoje no palco do lisboeta Teatro S. Luiz, é algo de tão elaborado quanto isto: "Um encontro de amigos", diz Moutinho.

Quando acompanhamos um dos poucos ensaios, a menos de uma semana da actuação, experimentam-se ainda tons, Hélder Moutinho estuda ainda as letras e vai aplicando o seu vibrato - "muito fundo e elegante", chama-lhe JP Simões - a Tom Traubert"s Blues, essa canção de Tom Waits que o imaginário popular recorda como Waltzing Mathilda. A ideia é, precisamente, que o espectáculo não funcione como um concerto tripartido em que cada um traz apenas o seu universo de partida. "Para isso a malta vai ver os concertos individuais de cada um", argumenta Gisela João. "Mostramos aquilo que fazemos, mas depois passeamos por músicas de que gostamos e que nos influenciam." No seu caso, isso significa paragens na música brasileira, em Nat King Cole ou Ella Fitzgerald; enquanto JP interpretará Kurt Weill, David Bowie, Carlos do Carmo e Glenn Miller; e Hélder juntará a Tom Waits Paulino Vieira e Trovante.

"Isto é quase como se estivéssemos juntos os três, à volta de uma mesa, depois do jantar, a beber uns copos, ora agora canto eu, ora agora cantas tu", resume Moutinho. E é esse ambiente que Gisela diz ter sido mesmo o cenário para o desenho do espectáculo - sentados à mesa da Bela (bar de Alfama) a puxar de canções que fizessem sentido. "No fundo, é mostrarmos também em palco aquilo que às vezes acontece entre nós nos bastidores e a que o público não tem acesso" - "não queremos que as pessoas sintam que vão ver um espectáculo muito elaborado, queremos que sintam que estão três pessoas a curtir e que se envolvam connosco nisso", complementam-se os fadistas.

Foi também à mesa que nasceu um dos duetos que aquecerá a noite - afinal, o subtítulo da função, extraído por Simões ao poema Pensamento Sem Linguagem de Francis Picabia, diz que "o céu é frio debaixo da fogueira pública" -, com Gisela e JP a ensaiarem vários temas de Chico Buarque até pararem em Bem Querer, exemplar "mais antigo e complicado" da discografia do herói pessoal de JP. Os dois cantores vão igualmente dedicar uma canção a Gisela, em jeito de "disputa para ver quem a conquista primeiro" e que, aí sim, obrigará o ex-Belle Chase Hotel a navegar até terras do fado. Ele que, fazendo o auto-elogio da sua "capacidade mimética", afirma que só se sentiria fora de pé com música ambiental ou rap, e aproveitará o espectáculo para estrear uma peça para guitarra reminiscente de Carlos Paredes.

Todas as argumentações são válidas para a inclusão de temas num conjunto que é pouco picuinhas. Se Hélder Moutinho escolheu uma morna de Paulino Vieira pela partilha das músicas de cidades portuárias e das trocas operadas pelas rotas marítimas, JP foi guiado por "motivos mais afectivos" ao escolher Moonlight Serenade, de Glenn Miller, depois de "um ataque de saudades" de um avô profundo admirador do mago das big bands.

Idealmente, finaliza JP, Canções Urbanas deve ter o alcance de "uma estação de rádio decente", capaz de albergar todos estes autores e "aquecer o coração das cidades".