Emissões de CO2 afastam mundo do limite dos 2ºC no aquecimento global

Tanto as emissões quanto a concentração de CO2 bateram recordes em 2011
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Tanto as emissões quanto a concentração de CO2 bateram recordes em 2011 Mick Tsikas/Reuters

O mundo está cada vez mais longe de conseguir limitar o aquecimento global a 2ºC até ao final do século. Tanto as emissões, como a concentração de CO2 na atmosfera bateram novos recordes em 2011.

Um relatório divulgado esta quarta-feira pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP, na sigla em inglês) estima que as emissões de CO2 em 2010 estavam 14% acima do que deverão estar em 2020 para que se evitem as piores consequências do aquecimento global.

Cerca de 55 cientistas, de 20 países, participaram da elaboração do relatório da UNEP, que avalia a distância que falta para que se consiga cumprir a meta dos 2ºC, acordada internacionalmente. Segundo o relatório, é preciso que as emissões globais de gases com efeito de estufa atinjam o seu pico nos próximos anos e caiam para 44 mil milhões de toneladas em 2020. Hoje estão em 50 mil milhões de toneladas.

Os cenários não são, porém, animadores. Tudo o que há sobre a mesa, neste momento, são compromissos voluntários de dezenas de países para reduzirem a sua factura carbónica, incluindo os maiores emissores de CO2 – entre eles China, Estados Unidos, União Europeia, Índia, Japão e Brasil.

Mesmo que as promessas mais ambiciosas sejam adoptadas e que haja mecanismos eficazes para controlar se estão a ser cumpridas, o planeta chegará a 2020 ainda com mais emissões do que deveria – 52 mil milhões de toneladas

“A transição para uma economia de baixo carbono, incluindo a ‘economia verde’, está a ocorrer muito lentamente e a oportunidade para cumprir à meta das 44 mil milhões de toneladas está a estreitar ano a ano”, alerta o director-executivo da UNEP, Achim Steiner, num comunicado.

O relatório da UNEP surge um dia após a Organização Meteorológica Mundial ter divulgado um novo recorde na concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Agora, há 390 partes por milhão de CO2 no ar, ou seja, em cada tonelada do conjunto de gases à volta da Terra, há 390 gramas de dióxido de carbono.

A concentração de outros gases com efeito de estufa – como o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O) – também está a subir. Mas o CO2 continua a representar, de longe, a maior contribuição humana para as alterações climáticas. De 1990 a 2011, o poder dos gases com efeito de estufa aquecerem o planeta subiu 30%, sendo que o CO2 é responsável por 80% deste aumento.

Desde a Revolução Industrial, concentração de CO2 subiu 140%. A OMM calcula que, levando em conta todos os gases com efeito de estufa, desde então foram lançadas 375 mil milhões de toneladas de carbono para o ar, sobretudo devido à queima de combustíveis fósseis – petróleo, carvão, gás natural.

Metade deste carbono foi reabsorvido, seja pelos oceanos, seja pelas florestas ou outros organismos vivos. “Mesmo que conseguíssemos travar as emissões de gases com efeito de estufa hoje – e estamos longe disso – eles permaneceriam na atmosfera por muitas décadas, continuando a afectar o delicado equilíbrio do nosso planeta vivo e do nosso clima”, afirma Michel Jarraud, secretário-geral da OMM, num comunicado.

As emissões de CO2 – e não só a sua concentração – atingiram também um novo recorde em 2011, segundo a Plataforma Económica Internacional para as Energias Renováveis – uma organização com sede na Alemanha. Em todo o mundo, a queima de combustíveis fósseis terá sido responsável pela libertação de 34 mil milhões de toneladas de CO2 para atmosfera no ano passado, reforçando uma tendência de subida que havia sido interrompida em 2009, devido à crise económica.

Na próxima segunda-feira, as Nações Unidas iniciam, em Doha, Qatar, mais uma ronda internacional de negociações sobre as alterações climáticas. O tema central será a extensão do Protocolo de Quioto, que expira em Dezembro. Mesmo que seja prolongado, porém, o protocolo não contará com a participação de grandes emissores de CO2, como os Estados Unidos e o Canadá.

Se o calendário das Nações Unidas for cumprido, um novo acordo internacional para o clima será negociado até 2015,para entrar em vigor a partir de 2020.

Notícia actualizada às 11h40: acrescenta informação sobre novo relatório da UNEP e altera título e lead