Isabel Jonet lamenta polémica mas mantém posição sobre pobreza no país

Foto: Malte Jaeger/arquivo
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Foto: Malte Jaeger/arquivo

A presidente do Banco Alimentar Contra a Fome, Isabel Jonet, que afirmou que os portugueses têm que “reaprender a viver mais pobres”, lamenta se magoou alguém com as suas palavras mas considera que foi mal interpretada e que as suas posições foram descontextualizadas, numa referência aos ataques de que foi alvo nas redes sociais, nos quais se chegou a pedir a sua demissão.

Num texto publicado na noite de sábado no site da Rádio Renascença, Isabel Jonet fala da “enorme polémica” e pede desculpa se a sua posição provocou alguma mágoa mas mantém o que defendeu no passado dia 8, no programa “Última Edição”, na SIC Notícias. Nessa quarta-feira, Jonet afirmou que “os portugueses vivem muito acima das possibilidades” e que, por isso, vão ter que “aprender a viver com menos”. “Vamos ter que empobrecer muito, vamos ter que viver mais pobres”, reforçou.

“Penso que muitas das criticas que me foram feitas, sobretudo nas redes sociais, foram por pessoas que nem ouviram o programa de televisão nem tudo o que eu disse mas que interpretaram parcialmente o que foi sendo comentado, descontextualizando totalmente o que expressei”, defendeu no texto que será divulgado segunda-feira na rádio SIM, do grupo Renascença.

“[...] lamento se porventura magoei algumas pessoas que não me compreenderam quando disse que tínhamos de mudar o modo como vivemos”, continua a presidente do Banco Alimentar. Jonet argumenta, no entanto, “que não estava a falar para os mais pobres, ou a dizer que são os pobres que têm de se habituar à pobreza”.

A responsável defende que “vivemos nos últimos anos muitas vezes acima das nossas reais possibilidades”, quer se fale de “despesas públicas” ou das “despesas individuais de uma camada significativa da população”. Jonet afirma que os portugueses adoptaram hábitos que não podem manter, “daí o facto dos países e de muitas famílias estarem endividados”.

Isabel Jonet lembra que é “presidente da Federação Portuguesa dos BA [Bancos Alimentares] e da FEBA [Federação Europeia dos BA], que congrega Bancos Alimentares, que com o mesmo modelo ajudam 330 mil pessoas em Portugal e cinco milhões em 21 países da Europa, pessoas em situações de pobreza e que necessitam de auxílio alimentar”. “Não quero ver em Portugal o que vi na Grécia, onde estou a preparar BA e onde há tanta miséria que nem se encontram medicamentos para os doentes crónicos, onde falta o gás e a luz, onde escasseia a comida nos supermercados”, refere.

Jonet termina o texto afirmando que “é triste ver a incapacidade de encarar com realismo que, se não mudarmos nada a situação, não é mesmo sustentável”. E garante: “Nos BAs, continuaremos a fazer o mesmo trabalho sem perder de vista quem efectivamente precisa."

A reacção da presidente do Banco Alimentar surge dias depois de lhe terem sido lançadas várias críticas, como a do Movimento Sem Emprego que divulgou uma carta aberta na Internet, na qual Jonet é acusada de proferir “insultos”, “declarações aviltantes” e de “mascarar de caridade o saque que estão a fazer às nossas vidas”.

Na Internet foi lançada uma petição a pedir “a demissão imediata de Isabel Jonet do cargo da presidência do Banco Alimentar Contra a Fome”. Nas redes sociais e nos blogues multiplicaram-se os textos e comentários a criticarem as declarações de Isabel Jonet, mas surgiram também depoimentos em defesa da presidente do BA. O bispo do Porto, Manuel Clemente, considera que Jonet se limitou a alertar para a necessidade de se reequacionar a distribuição da riqueza.