Crónica de jogo

Benfica vence mas é o adversário quem mais convence

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Foto: Fernando Veludo/AFP

Às vezes há imagens que valem mais que muitas palavras e a forma como terminou o jogo, em Vila do Conde, diz quase tudo. Jorge Jesus corria e esbracejava junto à linha lateral enquanto a sua equipa se acantonava na frente da própria baliza e Matic pontapeava a bola para o mais longe possível. Foi assim que terminou uma partida onde, apesar de tudo, o Benfica foi sempre superior, dispôs de mais e melhores oportunidades mas nunca mandou verdadeiramente no jogo. Ou melhor, nunca se sentiu cómodo perante um adversário senhor do seu papel, que nunca abdicou dos seus princípios de jogo e que, mesmo derrotado (0-1), saiu debaixo de aplausos dos adeptos. Digamos que à equipa da Luz encaixa na perfeição o célebre dito sobre a mulher de César. Percebeu-se sempre que era superior mas acabou por nunca ou só raramente o parecer.

E a forma como o jogo começou logo o fazia prever. O vento frio pareceu contaminar as equipas e só com o decorrer da partida é que a emoção e as jogadas com mais objectividade foram aparecendo. Devagar e com cautelas, o Benfica parecia consciente da sua superioridade numa atitude ao estilo de maratonista, de começar devagar para ir marcando o ritmo à medida que avança o percurso. O problema era que esse ritmo tardava em aparecer e, mesmo dispondo das melhores iniciativas, a equipa carecia do dinamismo que fizesse oscilar o posicionamento do adversário.

Faltava engrenar a transição entre meio- campo e ataque e Enzo Pérez parecia longe de poder assumir esse papel. Não era ainda claro que tivesse que ser substituído, quando Jorge Jesus chamou Lima à lateral entregando-lhe a missão de recuar no terreno e procurar ser o elo que faltava e que se mostrou decisivo para o desfecho do jogo. Tinha decorrido já meia-hora de jogo praticamente estéril e o treinador resolvia também outro dos grandes problemas da equipa. Lima e Cardozo não só se atrapalhavam mutuamente, ocupando os mesmos terrenos, como a equipa se afunilava no ataque. O Benfica teve, nesse final da primeira parte, a sua fase mais esclarecida e acutilante, conseguiu chegar ao golo, mas nem assim a sua atitude quase displicente se desvaneceu.

E nem foi preciso ir longe na segunda parte para voltar a dor de cabeça para Jesus, que deve até ter suado mais que alguns dos seus jogadores. João Tomás falhou aquilo que para ele é mais do que um penálti: um cabeceamento à vontade e na frente da baliza. E o que se pode dizer é que todo o resto da segunda parte foi um grande sofrimento para o técnico do Benfica. Apesar de ainda ter procurado arrumar o jogo com a entrada de Gaitán, era o Rio Ave quem tomava as rédeas da partida enquanto o Benfica recuava mais para a frente da sua área.

É certo que, com excepção dos derradeiros dez minutos, o Rio Ave nunca criou reais oportunidades de golo e Artur só teve mesmo que fazer uma verdadeira defesa no último minuto. É que mesmo esta já não valia, porque a partida estava interrompida, mas não deixa de ser sintomática da forma como o Benfica terminou o jogo. E tudo quando a equipa parecia, mais uma vez, salva a partir do banco. Com a equipa encostada às cordas, Jesus fez entrar Miguel Vítor para o lado direito da defesa abdicando de um atacante.

Notícia actualizada às 23h18

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