Na realidade virtual com Fatima Al Qadiri

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LYNDSY WELGOS/ NICK SCHOLL

Cresceu no Kuwait, mas tornou-se artista visual e autora de música intrigante em Nova Iorque. Reinterpretando o passado, faz música verdadeiramente nova - anti-retro.

Kuwait, 1990. Fatima Al Qadiri está dentro de casa. Não tem estado noutro sítio desde que o Iraque invadiu o Kuwait. Lá fora, há um país a transformar-se noutra coisa.

"Não havia escola, não havia trabalho, não havia "das nove às cinco", não havia bancos, hospitais, nada funcionava normalmente. Foi assim durante sete meses", conta ao Ípsilon, via Skype, a partir da sua casa em Nova Iorque, metrópole onde vive desde os 17 anos. "A coisa mais segura para as crianças era estar dentro de casa", recorda. No dia em que conversou com o Ípsilon também estava fechada em casa, mas por causa do furacão Sandy.

Naquela "realidade anormal", Fatima, então com nove anos, viciou-se em videojogos. A guerra acabou, o Kuwait foi libertado. Um ano depois, Fatima, que continuava viciada em videojogos e ainda não tinha absorvido o que tinha vivido, encontra o jogo da Sega Desert Strike: Return to the Gulf. Foi "um momento muito surreal, de ficção científica, existencial".

"Não podia acreditar no que via. Jogava o jogo só para ver a introdução - é onde está a história, o resto era apenas um helicóptero a andar pelo deserto a bombardear coisas. Tem um personagem tipo Saddam, com um nome falso, um país como o Kuwait a ser invadido. Há uma cena de um homem a ser arrastado para ser torturado. O meu pai tinha sido torturado num campo de prisioneiros em Bassorá, no Iraque - foi prisioneiro de guerra na altura. Foi mesmo chocante", diz-nos.

Entretanto, haveria outro artefacto da cultura popular a marcá-la: o anime japonês Akira, com a sua Neo-Tóquio pós-apocalíptica de 2019. "Senti que tinha vivido isso tudo - depois da guerra, o Kuwait estava completamente destruído. Era um fogo. Não deixaram nenhum edifício [intacto]. Achei que tinha visto o apocalipse. Jogar aquele videojogo e ver o Akira mudaram-me enquanto criança", garante.

Fast-forward para 2012 e encontramos Fatima - hoje uma artista multidisciplinar, com obra nas artes visuais e, mais recentemente, na música electrónica - com um novo EP, Desert Strike (sim, o nome do videojogo). Os títulos dos temas (Ghost raid, Oil well, War games...) também apontam para o cenário de guerra no Golfo.

"Não é um disco conceptual, é um disco muito pessoal, autobiográfico, sentimental", descreve. "Não é sequer uma memória triste". É o quê, então? "É mais um disco sobre uma realidade adulta feia. Sobre como as crianças podem isolar-se e ficar completamente envolvidas num mundo virtual".

Fatima fez um EP que vai além da experiência extrema da guerra e que se enquadra em conceitos transversais à sua obra. Não está sozinha: semelhantes investigações sobre a realidade cada vez mais virtual em que vivemos estão a ser feitas por outros músicos (vercaixa).

Pensar, dançar

Mas porquê agora, 20 anos depois, um olhar sobre a guerra? "Enquanto música, não tinha as capacidades necessárias para fazer este disco até Outubro passado, quando comecei a trabalhar nele", assume Fatima. Começou a fazer música depois da guerra. "Melodias rudimentares, algo infantis", que memorizava e tocava "vezes sem conta" em teclados baratos. Com os anos, os teclados "tornaram-se maiores" e Fatima começou a gravar o que fazia em cassete, começando a compor e a produzir numa base mais regular. Até aos 19 anos, porém, queria ser uma compositora clássica. Os computadores e o domínio do software que lhe permitem fazer a sua música única só chegariam mais recentemente, permitindo-lhe dar corpo aos sons com que tomava contacto nos Verões passados em Londres, na adolescência.

Fez um disco em 2004 do qual não há registo (detesta o contributo do autor das batidas). A experiência serviu para se convencer de que precisava de ter "controlo completo". Mas a abordagem é ainda a de alguém sem cabal conhecimento das maquinações da música de dança, desvantagem teórica que lhe dá uma pitada extra de capacidade de desconcerto. "Não sei contar o tempo, não domino os compassos. Tenho uma abordagem muito disléxica à forma de fazer música. [Os meus temas] soam como soam porque são perigosamente improvisados".

Tal é particularmente evidente no anterior EP, Genre-Specific Xperience, no qual Fatima reinterpreta cinco subgéneros da música de dança. Em Vatican vibes, por exemplo, o que começa como uma apropriação da espiritualidade feita mercadoria de uns Enigma transforma-se num banger de pista (o teledisco, de Tabor Robak, transforma o catolicismo num videojogo 3D). Hip Hop spa engole clichés do género e devolve uma canção tristíssima. O vídeo de Kamau Patton explora as relações entre a solidão de um spa e a solidão da cadeia, local clássico na mitologia da cultura hip-hop. Podemos dançar, mas também devemos pensar.

Contra o retro

No quadro de uma cultura pop viciada no seu próprio passado, Fatima apresenta-se como uma futurista, alguém que não conseguimos encaixar. "Sou contra reciclar e coisas retro, não consigo ouvir nada retro", atira. O lugar único que já conquistou deve-se à sua capacidade de "reinterpretação" do já existente. "Todo o meu corpo de trabalho é sobre estilo e interpretação. Estou interessada no modo como as tendências viajam, são filtradas, interpretadas, acomodadas e expressas numa cultura. O bebé mutante que nasce no fim, seja na moda, seja na música", explica.

É esta globalização que Fatima expõe na coluna Global .wav na revista online Dis. Ali disseca música e vídeos de todo o mundo - kuduro, fusão sem freios de músicas tradicionais com tecno, rap do Cazaquistão, "rave rural" do Curdistão.

Reinterpretar e apropriar-se foi também o que fez em Muslim Trance, um mix que colocou na Internet com outra assinatura, Ayshay: "samplou" orações xiitas e sunitas, dois ramos do Islão, e misturou-as com batidas (ela assume a heresia). A base sonora foi encontrada numa visita ao Kuwait, em 2009. "Fui a lojas religiosas. Foi uma experiência difícil: ir, sem o hijab, a estas lojas e sair com 50 CD".

De novo, o desconcerto. ""O que é que se passa aqui?" É essa a música que me interessa. Se me perguntassem qual é o meu gosto musical, diria que é música que não consigo adivinhar para onde vai".