Orçamento dos portugueses para o Natal é o mais baixo desde 2005

O orçamento dos portugueses para a época natalícia nunca foi tão pequeno. Pela primeira vez desde que, em 2005, a consultora Deloitte incluiu Portugal no seu Xmas Survey, um inquérito feito em 19 países sobre as intenções de compra no Natal, o valor médio dos gastos das famílias com presentes, comida e eventos sociais é de 464 euros, menos 13,5% do que em 2011. É não só a maior quebra percentual, como o montante mais baixo de sempre.

Quando em 2007 a crise financeira e económica dava os primeiros passos, a expectativa dos portugueses era gastar 596 euros, valor que chegou mesmo aos 620 em 2009. O real impacto da recessão só depois começou a sentir-se na carteira dos consumidores: em três anos, entre 2010 e 2012, o orçamento encolheu 19%.

Mas este ano também é inédito por outro motivo. É a primeira vez que os portugueses têm a expectativa de gastar menos do que os alemães: 485 euros é quanto se poderá gastar na Alemanha este Natal, o mesmo que em 2009. Tradicionalmente mais contidos, os alemães esperam aumentar o seu orçamento disponível para compras em 7%, uma subida expressiva quando comparada com a tendência média europeia (menos 0,8% face a 2011 para 590,9 euros).

Nuno Netto, um dos responsáveis pelo estudo da Deloitte, já esperava uma “quebra bastante substancial” nos gastos natalícios dos lares portugueses. Reflecte “a conjuntura actual e a necessidade de os consumidores adaptarem os seus gastos” à realidade económica, disse ao PÚBLICO.

Há, contudo, questões culturais que ultrapassam os constrangimentos impostos pela crise no rendimento das famílias. Nos Países Baixos, por exemplo, as despesas são historicamente mais baixas (287 euros). No lado oposto está a Irlanda, onde cada lar gasta 965,8 euros com o Natal.

No retrato global, os países afectados pela turbulência da crise da dívida são os que colocam maior travão nos gastos. Na Grécia os inquiridos contam reduzir em 16,2% as despesas (para um total de 406,9 euros), em Itália a descida é de 3,7% (550,8 euros) e na Irlanda de 1,7%. Os espanhóis também apertam o cinto e reduzem gastos em 3,9% para 680,1 euros (acima da média europeia), tal como os inquiridos da República Checa (425,7 euros, uma quebra de 2,7%).

Os 464 euros que cada família portuguesa pretende gastar no Natal são quase todos destinados a presentes (233 euros). Segue-se a alimentação e bebidas que absorve 162 euros do bolo total e, finalmente, as actividades de socialização (como idas ao cinema ou jantares). Os protagonistas da festa são as crianças: 51% do dinheiro disponível para as prendas será aplicado em ofertas para os mais novos. Cada lar compra, em média, quatro presentes.

“As crianças fazem com que o orçamento seja menos elástico e que, mesmo na actual conjuntura, haja um esforço das famílias”, diz Nuno Netto.

À espera do Pai Natal

O presente mais desejado por 58% dos portugueses é dinheiro. O contexto alterou drasticamente as prioridades: em 2007 a prenda ambicionada era roupa. Na lista estão ainda livros, vestuário e sapatos ou viagens. Quando questionados sobre os presentes que tencionam comprar a amigos e familiares, os inquiridos escolhem livros e vestuário. Entre os países europeus analisados os livros são, também, a prenda mais citada.

O estudo da Deloitte, que é hoje oficialmente divulgado, reflecte ainda a “enorme ansiedade” em que se encontram os consumidores portugueses devido ao contexto económico e às medidas de austeridade. O sentimento é partilhado por mais de 50% dos europeus que classificam como negativo o cenário actual. Luís Belo, Bruno Costa Cabral e Nuno Netto, autores da versão portuguesa do Xmas Survey, antecipam “com um certo grau de conservadorismo” que o consumo privado não vai voltar aos níveis de há dois anos antes de 2020.

Neste contexto, o preço é cada vez mais determinante nas escolhas dos consumidores e o acto de comprar é planeado antecipadamente, ao contrário do que sucedia antes da crise. Para 95% dos portugueses e 92% dos europeus o “factor preço” é um “atributo crítico”.

Para chegar a estes resultados a Deloitte questionou 18.587 pessoas em 19 países - 776 em Portugal. O trabalho de campo foi realizado em Setembro e, por isso, antes de serem conhecidos os aumento da carga fiscal incluídos no Orçamento do Estado para 2013.

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