Talvez não haja nada mais democrático do que votar numa lavandaria

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Votação em Wheaton, no estado de Maryland. Apoiante de Mitt Romney em Columbus, Ohio. Votação na Nueva Lavanderia em Chicago. Romney e Obama nos comícios finais da campanha que ficou para a história como a mais cara de sempre MANDEL NGAN/AFP

Por que é que votar não há-de ser como lavar roupa? E por que não telefonar até ao último minuto para os eleitores para tentar influenciar o seu sentido de voto?

Ontem, os eleitores de Chicago podiam votar em escolas e igrejas, quartéis de bombeiros e esquadras policiais, centros de dia e blocos residenciais. Mas a melhor montra para ver a democracia americana em acção talvez fosse Su Nueva Lavanderia, uma lavandaria self-service em Marquette Road, a meia hora do centro da cidade, num bairro onde a velha imigração do Leste europeu e a nova imigração hispânica convivem.

Para os eleitores que tinham acabado de votar enquanto famílias hispânicas lavavam pilhas de roupa não havia, aparentemente, nada de estranho no facto de este ser o seu local de voto. "Não me importo. É um espaço amplo e com luz. E é mais tranquilo do que o salão de bowling onde costumávamos votar", diz Marie McCalip, reformada.

Existem regras para o tipo de estabelecimento comercial que pode acolher uma mesa de voto. Locais que vendem bebidas alcoólicas estão excluídos. De resto, a vida seguia normalmente na Nueva Lavanderia, com ciclos de lavagem de um lado e a escolha do próximo Presidente do outro, dois mundos coincidentes no mesmo espaço mas razoavelmente indiferentes um ao outro. Até às 9h25 da manhã de terça-feira, 76 eleitores tinham votado.

A comissão de eleições local montara seis cabinas de voto num canto, junto às máquinas de secar, e os eleitores tinham a opção de votar por escrito ou numa máquina automática. Talvez não haja nada mais democrático do que votar numa lavandaria, não só porque aumenta o universo de possibilidades dos eleitores, mas também porque torna o voto mais prático, menos solene, mais próximo do dia-a-dia das pessoas. Por que é que votar não há-de ser como lavar roupa?

Mas se isto é o que a democracia americana se parece, ela está longe de ser simples. Na Nueva Lavanderia, os eleitores recebem dois boletins de voto, com 60 centímetros de altura cada. Um deles diz respeito a um referendo sobre o aumento das pensões de professores, o outro inclui a lista de candidatos presidenciais - não só Barack Obama e Mitt Romney, mas também Gary Johnson, do Partido Libertário, e Jill Stein, de Os Verdes -, e candidatos ao senado, à câmara dos representantes, a procurador-geral do Illinois e juízes estaduais e locais. "É por causa disto que demora tanto tempo a votar", diz Mike, um juiz de mesa democrata, pegando num boletim de voto. "Veja a quantidade de juízes que aqui estão." A lista é interminável.

Depois de votar por escrito, o eleitor insere os boletins numa máquina como se estivesse a inserir um cartão de débito numa caixa multibanco. A máquina lê o boletim e produz um relatório - como um recibo numa caixa de supermercado. O último relatório dizia que o eleitor tinha "votado a mais" (over-voted), isto é, tinha votado em candidatos opostos para as mesmas funções - por exemplo, Obama e Romney. Acontece mais vezes do que seria de esperar, diz uma das juízes de mesa republicanas, Marialice Zintak. "Aconteceu cinco vezes só na última meia hora." Nesses casos, o eleitor é avisado e pode voltar a preencher o boletim de voto. Para serem considerados válidos, os boletins de voto têm de estar devidamente preenchidos, pelo que os eleitores não podem marcar as suas escolhas com uma cruz, um V ou um círculo. À direita do nome de cada candidato, existe uma seta cortada ao meio, com um espaço branco entre as duas metades e o eleitor tem de ligar as duas com um marcador preto, caso contrário não poderá ser lido electronicamente.

Noutra parte de Chicago, às 10h30 da manhã, um "banco telefónico" da campanha de Obama está a recrutar voluntários para viajarem até ao estado vizinho do Wisconsin para bater em portas e persuadir pessoas a irem votar. Cada novo voluntário é celebrado efusivamente. Umas horas antes, um outro autocarro cheio de voluntários partira para o Iowa, outro estado vizinho do Illinois onde as campanhas estavam a batalhar até ao último voto.

Nos últimos quatro dias, cerca de 130 voluntários têm passado por este quinto andar no centro de Chicago, para fazer telefonemas para o Wisconsin e Iowa - e não no Illinois, que é onde estamos, porque o Illinois é confortavelmente democrata. E como os americanos votam em quatro fusos horários diferentes, à medida que os locais de voto na Costa Leste começassem a fechar, os telefonemas iam mudar para Oeste.

"Falar com as pessoas sobre esta eleição tem sido muito sensível", disse CathyYoshimura, de 56 anos, uma professora de ballet que trabalhou nas duas campanhas de Obama. "Quando ligo para as pessoas, percebe-se que elas estão cansadas da campanha, sobretudo em estados como o Iowa." Por vezes, Cathy acaba os telefonemas a transpirar. Os voluntários recebem listas de eleitores democratas mas também independentes ou republicanos que votaram em Obama em 2008. A campanha sabe exactamente quando é que alguém na sua base de dados votou. "Isto é um bocadinho Big Brother", admite Cathy. "Nós somos fascinantes, não somos?", perguntou referindo-se ao processo eleitoral nos EUA. Não era exactamente uma pergunta, era uma constatação.