Nanotecnologia

Cientistas portugueses desenvolveram vacina oral contra a hepatite B

Há vários anos que Olga Borges e a sua equipa, do Centro de Neurociências da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, recorrem às nanotecnologias para tentar desenvolver vacinas não injectáveis contra diversas doenças. E fabricaram, em particular, uma vacina oral contra a hepatite B que já deu resultados positivos no ratinho. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que as doenças associadas à hepatite B são responsáveis anualmente, a nível mundial, pela morte de 600 mil pessoas.

A nova vacina experimental é feita de nanopartículas que transportam diversas substâncias a bordo, tal como se fossem vírus artificiais, mas inócuos. "Nós preparamos as nanopartículas, fizemos tudo aqui", disse ao PÚBLICO Olga Borges.

As nanopartículas, explica um comunicado da universidade, são feitas de quitosano, um derivado da quitina (o composto natural da "casca" dos crustáceos ou insectos), e transportam um antigénio do vírus da hepatite B - ou seja, uma molécula normalmente presente à superfície do vírus e que desencadeia, por parte do organismo a ele exposto, a formação de anticorpos contra o vírus. E, como foram feitas para resistir ao sistema digestivo, explica-nos ainda Olga Borges, "o antigénio é transportado intacto até a umas estruturas do intestino, chamadas "placas de Peyer", que pertencem ao sistema imunitário". Aí, as nanopartículas serão "engolidas" por células imunitárias especializadas e, passados uns tempos, libertarão o seu conteúdo.

Uma vacina oral teria várias vantagens em relação às vacinas injectáveis. Por um lado, a sua conservação não precisaria de refrigeração e ela seria obviamente muito fácil de administrar. E, mais, salienta a cientista: a vacina oral induz a produção de elevadas concentrações de anticorpos nas mucosas. Ora, como a hepatite B é uma doença sexualmente transmitida, que penetra pelas mucosas dos órgãos reprodutores, o vírus poderia assim ser combatido logo "na porta de entrada do nosso organismo".

Os cientistas administraram aos ratinhos três tomas da vacina oral, de 15 em 15 dias, e a seguir mediram não só os níveis de anticorpos anti-hepatite B no sangue, como também nas mucosas dos animais tratados. "Os nossos estudos correram bem, obtivemos uma boa resposta imunitária", frisa Olga Borges. O trabalho foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia e pelos laboratórios GlaxoSimthKline, que "forneceram o antigénio que usam na sua vacina injectável do mercado", refere Olga Borges.

A fase seguinte, a dos ensaios clínicos, não está ainda à vista, uma vez que requer "um financiamento gigantesco", acrescenta a cientista. Mas a equipa de Coimbra tem entretanto avançado para outras estratégias de imunização contra a hepatite B - nomeadamente, para uma vacina nasal. A via nasal promete "uma maior capacidade de induzir anticorpos na mucosa associada aos órgãos reprodutores do que a via oral", diz Olga Borges. Já estão há três anos a desenvolver nanopartículas especialmente destinadas a esta segunda forma de administração e os testes em ratinhos deverão começar no início do ano que vem.

Ainda uma outra vantagem apontada pelos cientistas é que este tipo de vacinas também poderá ser benéfico para as pessoas que já se encontram infectadas pelo vírus da hepatite B. "As [nossas] nanopartículas contêm também outras substâncias, ditas "imunomoduladoras", e a resposta imunitária que provocam é ligeiramente diferente da resposta às vacinas injectáveis. Isso pode ser útil para [tratar] os portadores do vírus", diz Olga Borges.