Animação nocturna

Crise arrefeceu o lado quente da noite do Porto e fechou vários bares de strip

No Cabana - Bar Dancing, o strip de sexta-feira à noite não tinha mais de dez clientes a assistir
Foto
No Cabana - Bar Dancing, o strip de sexta-feira à noite não tinha mais de dez clientes a assistir Foto: Paulo Pimenta

As luzes néon perderam o brilho e as portas fecharam-se encerrando no interior a média luz da sensualidade de outros tempos. A crise chegou ao clubes de strip-tease do Porto e parece apostada em provar que mesmo estes estabelecimentos, vulgarmente chamados de casas de alterne e de movida mais quente e lasciva, não estão imunes ao arrefecimento da economia.

O clube nocturno Paganini, aberto na década de 80 na Rua da Constituição, tem agora estampado na entrada o anúncio do definhar. Um cartaz, "vende-se", ocupa boa parte da porta envidraçada por onde antes entravam reputadas personalidades da vida portuense. Quando o PÚBLICO passou por ali, um sexagenário de roupa cuidada parou junto à porta. Viu o aviso, penteou os cabelos brancos olhando para a vitrina do clube, que terá fechado há poucos meses, e continuou caminho.

O PÚBLICO tentou sem sucesso obter informações da imobiliária. Na cidade, terão fechado pelo menos mais quatro casas nos dois últimos anos, segundo informações de empresários do meio confirmadas pelo PÚBLICO. O Calor da Noite, que contava quase 30 anos e era bem conhecido por acolher figuras do futebol, na Rua de Costa Cabral, o Playboy, aberta há 15 anos, na Rua Faria de Guimarães, o Bagdad, na Avenida da Boavista, e o Penthouse, na Rua da Alegria, sucumbiram, por fim, à crise.

"A classe média, a que pertenciam a maioria dos clientes, desapareceu. As pessoas não têm dinheiro. Deixaram de vir", conta António Torres, da gerência da Taverna do Infante, na Ribeira do Porto. O clube é há cinco anos uma sociedade anónima constituída pelos funcionários e outros investidores. Conta com 14 empregados. António não pensa despedir, mas admite a possibilidade no futuro. "Temos muito menos clientes. As receitas caíram 60 por cento. O que ganhamos dá para pagar as despesas", diz queixando-se da crise também imposta pelo aumento do IVA para 23 por cento. "Pagamos seis mil euros de IVA por mês. É muito", lamenta.

Afonso, português emigrado no Brasil que investiu no clube, sublinha que "para já a casa aguenta-se, mas nunca se sabe até quando". Para fazer face à crise, uma parte do espaço funciona como restaurante durante o dia. "Recebemos muitos turistas. O negócio corre bem. O restaurante paga-se a ele próprio durante o Inverno e no Verão ajuda com as despesas do clube nocturno", diz António.

A Associação de Bares da Zona Histórica do Porto (ABZHP), que tem alguns sócios no ramo, salienta, porém, que a crise não é apenas de agora. "Já chegou há alguns anos. Nos últimos sete anos, terá fechado uma dezena. Mas agora a situação agudizou-se. Há quebras de 60 por cento. É um negócio que tende a morrer", diz o presidente da ABZHP, António Fonseca.

Menos "meninas" nos bares

O dirigente aponta ainda o excesso de acções do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. "Incomodam e afastam os clientes e são apenas show-off". Um empresário, que pede anonimato, critica o excesso de fiscalizações da PSP. "Foi com isso que começou a nossa crise. Afastaram os clientes", diz. A PSP, através de acções preventivas, procura fazer cumprir os normativos legais, de forma a garantir a ordem, a segurança e a tranquilidade pública", explicou a PSP do Porto.


A Taverna do Infante, referenciada na noite do Porto como uma das casas de topo entre os night clubs, já chegou a ter largas dezenas de funcionárias, agora, de acordo com os responsáveis, "as meninas" - como lhes chamam - aparecem apenas de visita. São elas quem decide por que clube passam, sem vínculo, para fazer companhia aos clientes e, se tudo correr bem, aumentar a conta com várias bebidas à comissão.

Segundo alguns empresários, muitas mulheres que antes trabalhavam no meio preferem agora fazê-lo por conta própria, passando amiúde pelas várias casas. Outras apostam nos anúncios na Internet e nos jornais. "Assim conseguem fazer mais dinheiro porque não têm de partilhar comissões com ninguém. E algumas até se organizam e alugam apartamentos para trabalhar", explica outro empresário.

No Cabana - Bar Dancing, na Travessa de S. Brás, a maior parte das noites traz poucos clientes. "Fiquei com a casa há poucos meses. Vem pouca gente. Temos quebras de 60 por cento. As pessoas não têm dinheiro. Cortam no que podem", diz Paulo Lucas, responsável pelo bar. De dia, tem outra profissão para as despesas. "Vamos aguentando isto com o dinheiro que se consegue. Não sei quando a crise vai passar. Não sei se um dia não terei de fechar", reconhece.

Sexta-feira é um dos dias mais fortes. A casa compõe-se com uma dezena de clientes que não chega para preencher todas mesas. "Maria", nome artístico, faz um tímido show de strip-tease presenciado pela reportagem do PÚBLICO e alguns clientes sentem-se tentados a ficar. Uma garrafa de whisky custa entre 60 a 70 euros e uma de champanhe pode chegar aos 120, dependendo da marca.

Só o Pérola Negra, na Rua de Gonçalo Cristóvão, que abriu recentemente depois de ter ido a leilão e encerrado por dívidas às Finanças, parece estar a passar uma fase melhor. "Abrimos há um mês e meio. De momento está a correr bem", diz Jorge, da nova gerência do clube partilhada com um espanhol. O empresário, que tem experiência na noite do Porto, sublinha que a crise está "a fechar muitas outras casas" e admite a possibilidade de vir a fazer cortes se, no futuro, for afectado pela crise. O clube tem seis funcionários.

Por seu lado, "Ricardo", nome fictício de outro empresário que não quer ser identificado nem identificar o clube que gere, diz que "a crise foi a última facada no negócio. É um serviço supérfluo de que os clientes abdicam quando começam a ver onde podem cortar", explica. É um dos poucos empresários que admite falar sob anonimato. Muitos outros nem isso. Em muitos clubes, o PÚBLICO recebeu recusas simpáticas próprias de um mundo onde a discrição e o sigilo fazem parte da alma de um negócio que tenta resistir.

Quatro portas que se fecharamO Calor da Noite

Foi aberto na década de 80 e chegou a pertencer a um empresário ligado ao comércio de automóveis. Era frequentado por diversas personalidades do futebol nortenho. Na porta, o letreiro avisa que é um "salão de festas", mas no interior há alguns meses que a animação já acabou.


Paganini

Terá mais de 30 anos de existência e era frequentado por figuras reputadas da vida portuense, em que se contam também figuras do futebol, da política e da justiça. Fechou há cerca de seis meses, sem grandes avisos. Na porta, o único cartaz faz saber que está à venda.


Penthouse

Terá fechado há quase um ano e agora é o Bar Havana, que tem outro conceito. Funcionava na Rua da Alegria e foi, em tempos, o conhecido Colonial. Era frequentado por gente classe alta e era um dos maiores espaços do estilo no Porto.


Playboy

Criado na Rua de Faria Guimarães, em Santo Ildefonso, há cerca de 15 anos, era uma das casas mais pequenas de Strip Tease no Porto. Alguns guias turísticos descreviam-no como um "espaço com um ambiente masculino e uma clientela assídua", que entretanto a crise afastou.