Investimento

Autódromo do Algarve afundou-se com a crise no imobiliário irlandês

Plano de viabilidade da empresa apresentado pede aos credores que perdoem 40 milhões e estejam dispostos a só receberem os 160 milhões de dívida.

Autódromo Internacional do Algarve está ameaçado pelas dívidas
Foto
Autódromo Internacional do Algarve está ameaçado pelas dívidas Nuno Ferreira Santos

A Parkalgar, empresa que gere o Autódromo Internacional do Algarve, apresentou na sexta-feira em tribunal um plano para recuperar o projecto, que só será viabilizado se os credores estiverem dispostos a perdoar 40 milhões e, nalguns casos, disponíveis a esperar 15 anos até que a dívida seja liquidada. A aceitação, ou recusa, do Plano Especial de Revitalização (PER), está dependente da homologação pelo juiz do processo, que tem 20 dias para se pronunciar. Ao fim de quatro anos de funcionamento, o projecto acumula dívidas de mais de 160 milhões de euros.

O que afundou este projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN), reconhecem, foi a crise no sector imobiliário. Por concluir ficou um hotel de cinco estrelas, com 194 quartos e 160 apartamentos, mais um parque tecnológico que não se construiu. A falência do grupo irlandês Harte Holding, com que a empresa tinha assinado um contrato de compra e venda dos apartamentos e hotel, deixou a Parkalgar numa situação periclitante. Ainda recebeu de sinal dois milhões de euros, em 2009, mas o negócio de 34 milhões e 350 mil euros pela venda dos apartamentos, mais sete milhões pela venda do terreno do hotel, não se concretizou.

O circuito automobilístico, apesar de o aluguer ser dos "mais elevados da Europa", diz o plano, tem conseguido obter taxas de ocupação "elevadíssimas", sempre superiores a 85%. Para o futuro, a empresa retoma a ideia de desenvolver o projecto como "um todo", compaginando a área do desporto automóvel com os negócios do imobiliário, tendo no sector imobiliário/turístico "uma das peças fundamentais desta estratégia e deste plano de viabilidade". O hotel, construído com recurso a uma linha de crédito do BCP, parou as obras em Março. A dívida acumulada a credores (bancos e fornecedores) "impede a gestão da empresa em moldes que permitam sustentar a sua viabilidade económica".

A estratégica para recuperar a empresa passa pela "ocupação permanente" da pista, captando eventos e marcas internacionais. Mas há um "pressuposto fundamental", lê-se no documento, que é a "conclusão imediata" do complexo turístico (hotel e apartamentos). O sector imobiliário representa "um potencial de receitas brutas de cerca de 38 milhões de euros".

Além do autódromo e de um kartódromo, o projecto prevê ainda a construção de um parque tecnológico, com dez lotes de terrenos que no total possuem uma capacidade de construção de 60 mil metros quadrados, mais um lote para um complexo desportivo com dez mil metros quadrados.

15 anos de espera
O Plano Especial de Revitalizaçãoprevê para 2013 e anos seguintes alcançar um volume de negócios de 10,1 milhões de euros pelo aluguer do autódromo e do kartódromo, mais 13,5 milhões com a venda de apartamentos. Num cenário de crise no imobiliário, uma das peças fundamentais da estratégia passa pela "finalização da construção dos apartamentos", sendo também "necessário que o hotel previsto para o complexo esteja terminado e apto a ser explorado".

O empreiteiro que arrisque avançar com a obra não terá um "prazo fixo" para o retorno do investimento, mas estima-se que o reembolso poderá ocorrer num período de dois anos. No que diz respeito aos credores comuns, é-lhes proposto um prazo máximo de 15 anos para serem ressarcidos da dívida. Em alternativa, poderão optar pelo pagamento através do recebimento de apartamentos e lotes do futuro Parque Tecnológico. O Estado poderá vir a liquidar a dívida num prazo até 12,5 anos. O fisco terá a receber mais de 318 mil euros euros, a Segurança Social 295 mil euros e o maior credor - o Millennium BCP - 117,35 milhões de euros.

PIN falhado
Apresentado pelo presidente da Câmara Municipal de Portimão como "um dos maiores projectos jamais realizados" no Algarve, "determinante" para o futuro "económico e turístico" da região, o Autódromo Internacional do Algarve (AIA) teima em não corresponder às expectativas quatro ano depois da sua abertura ao público.

Propriedade da Parkalgar - constituída em finais dos anos de 1990 pelo grupo Bemposta, de Portimão -, o complexo do AIA só seria inaugurado em Novembro de 2008. Pelo caminho, o Governo de José Sócrates atribuiu-lhe o estatuto de projecto de Potencial Interesse Nacional (PIN), não faltando à sua inauguração o então ministro da Economia Manuel Pinho.

Com um custo estimado de 200 milhões de euros, ocupando 310 hectares, o AIA apresentou-se como o mais moderno equipamento europeu do género. Paulo Pinheiro, administrador executivo da Parkalgar, garantia que o empreendimento não seria um "elefante branco", ao contrário do que dizia acontecer com o autódromo do Estoril.

Inaugurada a componente desportiva, foi-se adiando a vertente imobiliária do projecto.

Entretanto, os problemas financeiros foram-se avolumando. Bernie Ecclestone, patrão da Fórmula 1, apresentou uma acção de arresto dos bens por dívidas superiores a 3,2 milhões de euros e, mais recentemente, um consórcio liderado pela Siemens pediu a insolvência do AIA, acabando por chegar a acordo com a Parkalgar.