Câmara de Idanha-a-Nova convida portugueses a migrarem em vez de emigrarem

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Lançada em Agosto deste ano, a campanha tem como objectivo divulgar os programas de apoio a jovens empreendedores DR

Lançada pelo município de Idanha-a-Nova em Agosto deste ano, a campanha tem como objectivo divulgar os programas de apoio a jovens empreendedores desenvolvidos pela autarquia.

Segundo o vice-presidente da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, Armindo Jacinto, o município quer apoiar projectos das mais diferentes áreas, desde o turismo à agricultura, das artes ao ensino e cultura.

Em 2005, a autarquia criou a Incubadora de Empresas, neste momento com 20 empresas ligadas a áreas como a conservação e restauro, o turismo, a animação cultural, a gestão e o marketing.

Na Herdade do Couto da Várzea, a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova decidiu criar a Incubadora de Empresas de Base Rural, que apoia jovens que queiram dedicar-se à agricultura, oferecendo-lhes alguns hectares para que estes possam lançar o seu projecto agrícola.

Em 2007, a Câmara propôs arrendar ao Ministério da Agricultura os 550 hectares da Herdade, que não estavam a ser utilizado pelo Estado.

O processo durou cerca de quatro anos e só em 2011 é que a Câmara de Idanha-a-Nova pôde começar a atribuir terrenos. Desde essa altura, já foram entregues 512 hectares para cultivo, distribuídos por 35 empresários agrícolas.

Em 2013, a Câmara espera lançar a Incubadora de Indústrias Criativas, que contará com parcerias com a Manchester Metropolitan University e com a Escola Superior de Artes Aplicadas do Instituto Politécnico de Castelo Branco, revela Armindo Jacinto.

Em 2011, entre 100 mil a 120 mil portugueses decidiram emigrar (números da secretaria de Estado das Comunidades). Um ano depois, com uma taxa de desemprego de 15,7%, não se espera que esse número desça.

“Dois terços do território estão totalmente abandonados. Ainda querem mandar pessoas para o estrangeiro?”, critica Armindo Jacinto. “O que estamos a dizer aos jovens é: antes de emigrares, vem falar connosco. Estamos a dizer-lhes que o mundo rural é um mundo de inovação, onde têm oportunidades para desenvolver os seus projectos”, afirma o vice-presidente da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova.

Em conversa por telefone com o PÚBLICO, Armindo Jacinto explica que o papel da Câmara é o de “dinamizar estes projectos, criando equipas de apoio à instalação das empresas, estabelecendo contactos, alertando para oportunidades de negócio, incentivando a qualificação e a formação e promovendo a participação em feiras internacionais ”.

A Câmara de Idanha-a-Nova “patrocina alguns custos (como custos de campanhas de publicidade) e monitoriza as empresas, acompanhando as suas dificuldades e procurando instrumentos de apoio aos empresários”, diz.

Um Portugal different

Filipe Cordeiro, 31 anos, fundou a Different Portugal em 2011, uma empresa de animação turística que opera a partir de Lisboa, mas tem sede em Idanha-a-Nova.

Filipe licenciou-se em Gestão de empresas e foi consultor na área da banca.

Há cerca de dois anos fartou-se do que fazia. Para além disso, assustava-o ver tantas pessoas a perder o emprego.

Através dos pais, naturais da região de Idanha, teve conhecimento da iniciativa Incubadora de Empresas. Filipe confessa que sempre teve uma paixão pelas viagens. Então, decidiu tentar fazer dessa paixão um modo de vida.

Em Janeiro de 2011 apresentou o projecto na Câmara de Idanha-a-Nova. Explicou a sua ideia: dar a conhecer um Portugal diferente aos turistas e mostrar-lhes os hábitos e os costumes, para que eles os pudessem vivenciar. A Câmara ajudou-o com contactos e suportou alguns custos de publicidade.

Segundo Filipe, o objectivo é criar experiências personalizadas para os clientes, que podem ir desde moldar barro numa fábrica de olaria, a acompanhar um pastor e ajudar na produção do queijo.

A maior parte dos clientes da Different Portugal são norte-americanos e australianos. Filipe pensa que a empresa não é muita conhecida a nível interno.

Este ano, ganhou um Certificado de Excelência, atribuído pelo TripAdvisor.com, um site onde os utilizadores podem deixar comentários e avaliações das suas experiências de viagem, podendo, assim, aconselhar outros utilizadores.

Filipe Cordeiro pensa que uma das grandes vantagens do seu projecto é ajudar as economias locais, levando os seus clientes aos restaurantes e às lojas das zonas que estão a visitar. Para ele, dar a conhecer aos estrangeiros que visitam Portugal produtos regionais, como vinhos, queijos e enchidos, “pode abrir portas nos mercados internacionais, criando oportunidade de exportação”.

Filipe tenta incentivar outras pessoas a desenvolverem pequenos negócios nas regiões onde vivem. Porque, afirma, “se vamos todos embora porque isto está mau, qualquer dia Portugal não tem ninguém”.

Japoneses e Brasileiros em Idanha-a-Nova

Neste momento, há quatro empresários à espera para assinar contrato, três projectos em análise e uma manifestação de interesse na Incubadora de Base Rural.


Por detrás dos projectos não estão só portugueses. À espera para assinar contrato está Paulo Oyama, administrador da Korin, empresa de agropecuária fundada no Brasil e baseada no método da agricultura natural, idealizado por Mokiti Okada, em que os produtos são cultivados da forma mais natural possível, sem utilização de químicos, nem adubos de origem animal.

A ligação desta empresa a Portugal começou em 2011, quando Hiroko Kageyama, uma japonesa arquitecta de interiores em França, que há mais de 20 anos passa férias entre a zona de Castelo Branco e o Fundão, se apercebeu da Iniciativa Terra à Vista (campanha que divulgou a Incubadora de Base Rural) e pensou que seria bom se alguns dos agricultores japoneses afectados pelo desastre nuclear de Fukushima pudessem trabalhar terras em Idanha-a-Nova.

Depois de a sua candidatura ter sido aprovada, Hiroko entrou em contacto com a empresa que trataria das terras onde os camponeses japoneses iriam trabalhar.

Essa empresa é a Korin, que ficou interessada no projecto e que, a partir do próximo ano, terá à sua disposição mais de 55 hectares de terras em Idanha-a-Nova, a juntar às quintas biológicas que já possui no Brasil, em Angola, na Tailândia, no Japão e na França.

Quanto ao desejo de Hiroko de dar uma nova casa aos agricultores japoneses afectados pela tragédia que assolou o Japão em Março de 2012, ainda não pôde ser concretizado. Mas, segundo Armindo Jacinto, a Câmara continua em contacto para receber japoneses de Fukushima.

Ainda este Verão, Hiroko Kageyama e a associação onde trabalha, a Carrefour de L’Art de Vivre, levaram 13 japoneses a Idanha-a-Nova, no âmbito de um projecto de solidariedade que quis dar a estes jovens a oportunidade de respirarem ar puro e passarem duas semanas de férias longe das áreas afectadas pelo acidente na central nuclear de Fukushima.

O objectivo, diz o vice-presidente da Câmara de Idanha-a-Nova é “criar, aos poucos, uma comunidade japonesa em Idanha. Queremos apoiar agricultores e jovens vítimas deste desastre”.