Luís Afonso e Serpa

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A partir do Alentejo profundo, o cartoonista Luís Afonso acompanha com inteligência fina e humor certeiro a realidade portuguesa. Chegou um dia para dar aulas, há 24 anos, e já não partiu. Alentejano de Aljustrel, sente-se bem onde tem tempo para tudo e aspira a que viver na província não tenha de ser forçosamente sinónimo de vida provinciana.

Chegar a Serpa foi fácil - viajar pelo Baixo Alentejo tem esse particular sortilégio -, mas depois tudo se complicou. A primeira rotunda, para quem chega de Beja, era a chave de tudo. A casa de Luís Afonso não ficava muito longe e as notas breves trazidas de Lisboa pareciam mais do que suficientes para dar com o local.

Quase sem surpresa, rapidamente se viu que as instruções de nada serviam e o resultado foi o inevitável: alguns minutos depois de entrar na cidade e duas ou três ruas mais longe, já não sabíamos bem onde estávamos e de Luís Afonso nem rasto...

Uma utilização judiciosa do GPS, que não havia, teria resolvido o problema sem mais demora. Mas se assim tivesse sido perder-se-ia uma experiência singular, com tanto de divertido como de déjà vu. Estabelecido o contacto telefónico, foi muito fácil seguir as indicações de voz dadas por quem, para cúmulo, dizia estar a ver-nos à distância - parecia uma situação pedida de empréstimo a um filme de Jason Bourne... E assim, em registo de filme de espionagem, chegámos até junto de Luís Afonso numa manhã amena e luminosa de Outono, como só as cores quentes e vivas do Alentejo são capazes de conceber.

O esforço para aqui chegar vale a pena. Num pequeno bairro calmo e branco, no topo de uma suave colina com vista a perder-se no horizonte para norte e leste, fica o duplex de Luís Afonso. Aqui vive e trabalha o cartoonista que os leitores do PÚBLICO conhecem diariamente do Bartoon (mas também com presença regular em A Bola, Jornal de Negócios e Sábado). É um ambiente acolhedor e de cores quentes, muita luz e espaço - no rés-do-chão, a dar para um pequeno pátio interior que faz lembrar as casas sevilhanas; no primeiro andar, prolongado num terraço sobre a planície alentejana, vasta e ondulada, com fronteira nas serras espanholas ao longe.

Em qualquer grande cidade, o preço a pagar por esta soberba localização seria o tráfego ruidoso, lá em baixo. Em Serpa, nem isso: são dez horas da manhã e quase não se ouvem outros sons que não sejam o vento ligeiro a soprar a espaços ou os chilreios de aves ocasionais que se sumirão quando o calor aumentar (a partir da Primavera, com a presença maciça de andorinhas, será um pouco diferente).

Nascido em Aljustrel há 47 anos, Luís Afonso assentou arrais em Serpa em 1988. Com um curso de Geografia no bolso e um passado recente a viver em Lisboa, veio dar aulas e nunca mais de cá saiu. Mas porquê Serpa?... "A minha mulher foi colocada na Câmara como técnica e eu concorri para dar aulas. Os nossos três filhos nasceram aqui e não havia nenhuma razão para sair."

Isto foi enquanto era professor. Depois começou a fazer cartoons para publicações que estão a 200 quilómetros de distância.

Luís Afonso é o primeiro a concordar que não parece fazer muito sentido trabalhar aqui quando se publica em Lisboa. Mas com o correio electrónico é o mesmo que estar a viver na casa ao lado da redacção do PÚBLICO: "Ninguém me diria para descer a escada e ir entregar o meu trabalho em mão quando posso enviá-lo por mail. A viver em Lisboa, Serpa ou Sydney, levo os mesmos 30 segundos a enviar a colaboração. Desde que tenha mail, estou safo." Não foi sempre assim, claro. No princípio, Luís Afonso mandava as tiras por fax e os cartoons semanais, a cores, seguiam pelo correio para a redacção. Com um pouco mais de trabalho do que hoje, o resultado era o mesmo.

Desse ciclo diário ficou assim excluído o tempo gasto em deslocações. "É uma coisa que não existe, está quase reduzido a zero", diz Luís Afonso. "Para ir buscar os jornais levo 45 segundos a ir de carro e outros 45 a regressar ao atelier. Até aos CTT gasto um minuto." Outra vantagem de peso é que a vida aqui é menos dispendiosa e os apelos do consumo menores.

Como em tudo o mais na vida, esta decisão teve consequências duradouras na existência do cartoonista. "Há um lado perverso na opção tomada: já conheço poucas pessoas que trabalham na redacção do PÚBLICO. O lado luminoso da coisa é estar afastado das confusões, conseguir ver o pôr do sol todos os dias, dispor de 24 horas completas para mim."

Falemos então um pouco do quotidiano do artista na cidade.

Luís Afonso levanta-se sempre cedo, faz ginástica e corre durante três ou quatro horas. Depois de tomar o pequeno-almoço sai para comprar os jornais. Lê-os atentamente e toma café e assim se escoa a manhã.

A partir das quatro da tarde começa a trabalhar "a sério". Esta organização do tempo não é arbitrária nem foi deixada ao acaso: "Não começo mais cedo para não ser surpreendido pela actualidade e ter de deitar fora um cartoon feito de manhã. Pode não se passar nada até ao fim do dia e a actualidade começar às 20h, quando um ministro faz uma comunicação ao país."

Quanto ao resto, o seu método de trabalho não o distingue de qualquer outro jornalista: "Não falo de coisas em que sou parte interessada, deixo as simpatias e antipatias pessoais de fora, abordo os temas com objectividade, respeitando sempre as normas deontológicas da profissão."

Mas o trabalho não é tudo na vida de Luís Afonso. Para lá das paredes do atelier, está uma comunidade que o artista conhece por inteiro e com quem mantém uma relação que ele próprio define como "pacífica".

Amigos e conhecidos

Em cada esquina um amigo, ou pelo menos um conhecido. É verdade: num passeio pelo centro histórico, de que se falará mais à frente, saúda toda a gente ou quase, detendo-se aqui e ali para um dedo de conversa ou um comentário breve com quem passa, um amigo de longa data, um lojista ou um mero conhecido. "Todos entre os 30 e os 40 anos foram meu alunos", remata com um sorriso aberto.

Talvez por isso, Luís Afonso costuma executar as rotinas quotidianas de carro, para ganhar tempo e evitar contactos demasiado prolongados ("Se for a pé até ao centro levo uma hora porque tenho de falar a toda a gente"). E, também isso, tem consequências: "Trabalhar em casa e não contactar com pessoas num local de trabalho cria distâncias. Para o bem ou para o mal, só sei das coisas depois de todos saberem. A vantagem é não me deixar absorver por coisas superficiais que acontecem. A distância é importante para ter capacidade de ver se o que se está a fazer fica ou não contaminado por esse inebriamento. É por isso que evito ter relações com quem está na área do poder - conheço poucas pessoas nessa situação."

Pouco passa das 11h quando saímos para a rua, depois de um saboroso café tomado em casa. Vindo da Rua do Progresso, onde vive, a primeira paragem de Luís Afonso é na Avenida da Paz (um "itinerário completamente utópico", comenta com humor), onde levanta diariamente os jornais na Papelaria Compasso. Segue depois para os Correios, estacionando no Largo da Corredoura, a dois passos dali, para apanhar a correspondência no apartado. Aponta para uma casa amarela mesmo ao lado, hoje em ruínas: está projectado para ali o futuro Museu do Humor e do Absurdo. Terá como ponto de partida o espólio de Sam (autor de Guarda Ricardo, a tira diária que antecedeu o Bartoon nas páginas do PÚBLICO) e a intermediação de Luís Afonso com os herdeiros ajudou a Câmara Municipal de Serpa a adquiri-lo para o efeito.

O cartoonista guia-nos depois pelo centro histórico, num passeio a pé pelo emaranhado de ruas estreitas e irregulares, ladeadas por casas imaculadamente brancas - ao acaso dos passos, a Rua dos Cavalos, onde fica a Casa do Cante, uma iniciativa autárquica para salvaguardar o cante alentejano; a Rua João Valente, um dos pontos onde a objectiva de António Carrapato o fixa para esta reportagem; a Praça da República, "coração" histórico de Serpa e um belo espaço fechado ao trânsito; a Rua da Barbacã e as escadas de Santa Maria, um lanço elegante e muito bem ordenado que leva ao Largo dos Santos e dá acesso ao castelo (infelizmente fechado para obras e sem nenhuma informação a respeito, para grande irritação de Luís Afonso)...

Passado e presente

Quase um quarto de século depois, as transformações na cidade são evidentes, e nem todas para melhor. "Em 1988 havia mais comércio de rua. Era mais fácil comprar um livro, um par de sapatos ou um presente. Também havia três bombas de gasolina e agora só há duas."

Em contrapartida, foram construídas auto-estradas e centros comerciais que levam as pessoas mais facilmente até Lisboa ou ao Algarve. O que resta agora na cidade "são só coisas típicas daqui - o pão e o queijo fantásticos, óptimos para os turistas -, mas quem cá vive o ano inteiro quer mais do que isso e não tem".

Luís Afonso interroga-se: "Porque deve a ementa dos restaurantes locais ter apenas comida alentejana o ano inteiro? Se algum oferecesse comida internacional seria um escândalo!" Por trás do exemplo está o desejo de que "viver na província" não seja sinónimo de "vida provinciana". E menciona o caso de um amigo que chegou a Serpa, telefonou a convidá-lo para beber um copo e lhe pediu para o levar ao Pulo do Lobo. Na ida seguinte a Lisboa, Luís Afonso contacta-o e pergunta-lhe se tinha tempo para beber um copo e acompanhá-lo na visita aos Jerónimos... Fim da história.

A conservação do património não está em causa. "A memória é para ser preservada, mas não podemos estar reféns dela ou não haverá futuro", diz o cartoonista. O que contesta é que as cidades e vilas de província tenham de ser pura preservação da memória enquanto as grandes cidades têm como condição serem cosmopolitas: "Serpa até fica mais perto de Berlim do que Lisboa. Nesta perspectiva, são ambas periféricas. Mas ser-se cosmopolita em Lisboa e viver das tradições em Serpa?!"

Luís Afonso repete que o património tem de ser defendido. A cidade alentejana, diz, tem um centro histórico "muito interessante", no qual a única coisa que falha são as casas abandonadas porque os seus proprietários não fazem nada por elas. "O futuro de Serpa passa pelo turismo e pela cultura e para isso é muito bom ter a cidade bem conservada. Apostar nas fábricas não tem sentido, não é caminho; hoje criam 500 postos de trabalho, amanhã vão embora."

Talvez por isso, a última paragem é no Musibéria, o centro internacional de músicas e danças de raiz ibérica, aberto em Junho de 2011. É um magnífico espaço, criado a partir de uma antiga fábrica de moagem de cereais, dotado com equipamentos e recursos tecnológicos que permitirão fazer dele um centro de formação e investigação de referência. O que ali existe não permite duvidar que está vocacionado, como conclui Luís Afonso, "para iniciativas não sazonais e para proporcionar uma oferta cultural duradoura" que atraia e fixe pessoas: "É dessa diversidade que se faz o crescimento e a evolução das comunidades."

A tarde começa a declinar. Na redacção em Lisboa esperam pelo Bartoon do dia, ainda por fazer. "Agora vou trabalhar", despede-se Luís Afonso sem stress. São horas de regressar ao atelier, que fica ao cimo das escadas.