Entrevista

Rui Rangel: "O Benfica divorciou-se dos sócios, da democracia e da liberdade"

"Benfica tem uma liderança tricéfala", diz o candidato da lista B
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"Benfica tem uma liderança tricéfala", diz o candidato da lista B Foto: Enric-Vives Rubio

Rui Rangel não viu um jogo do Benfica no Estádio da Luz antes dos 18 anos, idade em que saiu de Angola para a metrópole, mas ouvia os relatos na rádio e, assim que pôde, ia com a equipa para todo o lado. Depois de uma carreira feita na justiça, este juiz desembargador de 54 anos é a oposição a Luís Filipe Vieira nas eleições de amanhã. Com o emblema do pai na lapela, Rangel fala, em entrevista ao PÚBLICO, de um regresso do Benfica ao topo do futebol nacional.

Já pensou como vai ser a sua próxima segunda-feira?

A minha próxima segunda-feira será como presidente do Benfica, naturalmente.

Está com medo do que poderá encontrar em termos de contas?

Estou com medo desta realidade. A nossa lista tem duas componentes fundamentais. Uma tem a ver com a gestão desportiva, a outra é a gestão financeira. Há dias disse que o passivo consolidado do Benfica andava na casa dos 426,1 milhões e baseei-me no relatório que a Benfica SAD entregou à CMVM. Veio o líder da outra lista dizer que não era este o passivo consolidado bancário. Veio dizer que era 222 milhões. Das duas uma, ou o Benfica não fala verdade aos sócios, e tem de falar verdade, ou enganou a CMVM. Depois, veio o responsável financeiro do Benfica [Domingos Soares Oliveira] em entrevista dizer o que eu dizia, desmentindo as informações do líder da outra lista. Mas isto pode ser mais grave. Temos o passivo da SAD, 425, que é o que está no relatório, e temos o passivo do clube, 113 milhões. Temos o passivo de empresas Benfica Comercial, Benfica Multimédia, Benfica TV, mais 57 milhões, e temos o que foi determinado pela KMG, um passivo que não estava registado nas contas de mais cinco milhões.

Claro que isto não é somável. A SAD tem créditos sobre o clube, mas numa estrutura empresarial isto representaria cerca de 600 milhões de euros de passivo. A assembleia geral chumbou as contas porque as contas não estão claras. E foi o chumbo a uma gestão que se tem demonstrado um desastre, sobretudo no segundo mandato.

As que têm feito as auditorias não são isentas?

Há empresas que, do meu ponto de vista, são mais credíveis. Tudo o que seja sustentabilidade diária, teremos de assumir os compromissos. O Benfica é uma marca grande e poderosa, o que nos dá algum descanso. Se este passivo tivesse tido retorno desportivo tudo isto seria mais facilmente perceptível. O Benfica não pode ficar mais pobre enquanto as pessoas à volta do Benfica ficam mais ricas. Temos um programa, uma sede, a outra lista não tem programa nem sede. Utilizam as instalações do Benfica e os meios do Benfica em campanha. Isto não é aceitável. O Benfica tem um pensamento único, uma visão com resquícios salazarentos na sua estrutura interna, divorciou-se dos sócios, da democracia e da liberdade.

Por que não anunciou a candidatura há mais tempo?

Há timings para tudo. Primeiro estudamos os dossiers. Há 3 anos, quando fui um dos líderes, já se ponderava o meu nome. Não me poderia desvincular das coisas que tinha. O soldado tardio da outra lista [José Eduardo Moniz] que despertou para o Benfica aos 60 anos apareceu e foi equacionado para fazer parte da liderança. É preciso perceber que tudo tem um tempo. Temos medidas concretas. Dissemos que o Benfica não deixaria cair nenhum sócio por causa desta crise. Vamos criar uma plataforma com o Instituto de Emprego e Formação profissional. Ao Correio da Manhã, Luís Filipe Vieira diz que vai formar um gabinete para ajudar as famílias benfiquistas. Não tem ideias. Ele é líder há 12 anos. Já havia crise antes e onde estava Vieira?

No que diz respeito às relações com o FC Porto, provavelmente o soldado de última hora não conhece a realidade do Benfica, e disse que encarava o reatamento com bons olhos. Isto foi decidido em assembleia geral e só pode ser invertido em assembleia geral.

Quais são as suas medidas para reduzir o passivo?

É preciso reduzir os custos actuais. O custo da divida em termos de juros representa 17 milhões de euros, que é consumido globalmente pela quotização dos sócios e do Red Pass. Como teremos de actuar? Não fazer como o líder da outra lista, que diz, "Eu não me preocupo com este passivo porque tenho activos". Os activos são os jogadores. Permanentemente faz-se e desfaz-se a equipa. Gostaria de saber quanto se pagou nestes anos de comissões por jogadores. O Benfica tem sob contrato 95 jogadores, primeira medida, redução da massa salarial, reduzir o número de jogadores e fazer optimização dos custos salariais. Vamos diminuir o número de jogadores contratualizados para 45, não despedindo, mas vendendo. Temos também de estudar formas de financiamento que baixem o custo do capital. O Benfica pode ir buscar parcerias financeiras internacionais. É possível reforçar a colocação da dívida junto dos investidores individuais, uma vez que a dívida do Benfica tem uma taxa de juro bastante atractiva e de risco não muito elevado.

Quais são as suas ideias para os direitos televisivos?

Neste momento, estão nas mãos da Olivedesportos. Se o Benfica aumentar a sua massa associativa entre os seus 14 milhões de simpatizantes, há estudos que quantificam as receitas das transmissões televisivas na casa dos 60 a 70 milhões. Estamos com uma proposta de 22,5 milhões da Olivedesportos. Nós vamos à procura de parceiros internacionais, iremos trabalhar na base da exclusividade, com um parceiro que goste mais do Benfica que do rival do Benfica. Já temos contactos feitos que só vamos revelar depois das eleições.

Nesta campanha tem falado muito do excesso de jogadores contratados pela actual direcção...

Veja a quantidade de jogadores que passaram pelo Benfica sem se terem fixado, alguns que eu nem me lembro. Sepsi, Balboa, Bergessio... Onde é que está o Freddy Adu? Schaffer, Kardec, Jara, Fábio Faria, Carole... Não estou a dizer que não tenha havido bons negócios, mas são mais as contratações que foram ruinosas.

Eu tenho um benfiquista que deu provas no futebol português, Cunha Leal. Qual é o rosto da outra equipa responsável do futebol? É Domingos Soares Oliveira? O que tem faltado ao Benfica é liderança. Esta equipa tem obrigação de ganhar o título. Mas está desajustada. É evidente que andamos há um ano e tal à procura de um lateral-esquerdo. Adaptamos laterais e médios.

Vai fazer contratações em Janeiro?

O Benfica vendeu jogadores fundamentais, e não acautelou o futuro. A minha lógica é ter uma equipa competitiva que ganhe campeonatos. Dois campeonatos em dez anos, não há nenhum benfiquista que se reveja nisto.

Da actual estrutura, aproveitava apenas Rui Costa?

Obviamente que não conto com António Carraça. Durante esta gestão, FC Porto, Sporting e Sporting de Braga foram a finais europeias e o Benfica não foi a nenhuma. Isto tem de ser invertido. Só se consegue este caminho contando com ex-jogadores como Rui Costa, Veloso, Nuno Gomes, Vítor Paneira, Mozer, Humberto Coelho. A mística recupera-se com estas referências.

Já falou com Rui Costa?

Irei falar com Rui Costa quando ganhar. Não há problema nenhum do Rui Costa ter aparecido ao lado de Vieira e depois ter ido embora. Não tenho uma lógica de fechamento e de prepotência. Vou chamar benfiquistas para o interior do Benfica. Se eu tiver um treinador que é simpatizante do Sporting e outro do Benfica, dou preferência ao do Benfica.

José Veiga vai ter um papel na estrutura do futebol?

Não. As pessoas são livres. Ele esteve com Vieira, mas não está na minha estrutura.

E Jorge Jesus?

O Jesus vai continuar. Em cada época faremos a reavaliação da prestação. Mas também não podemos pedir tudo ao treinador e depois tirar-lhe jogadores como o Javi García e Witsel que representam 60 ou 70% da dinâmica da equipa. Veja se o FC Porto vendeu simultaneamente o Hulk e o Moutinho? Vendeu um. O Benfica tem a obrigação de ir ao mercado, mas com critérios muito bem diagnosticados. Ir buscar cirurgicamente e não comprar a grosso. Vou contar com a formação, temos jovens talentos que têm de ser integrados.

Gostava de ter uma equipa com 11 jogadores portugueses?

Não sou utópico. O mundo de hoje é outro. Temos de ter uma equipa competitiva. Se pudesse ter uma equipa competitiva à escala nacional e europeia só com portugueses, teria, mas a realidade é outra. A geografia politica mudou. Mas há algo que me preocupa e o Benfica tem de ser actuante. É preciso criar medidas restritivas para jogadores extracomunitários, como existe em Espanha, em Inglaterra.

Como vai ser a sua relação com os empresários?

O único critério é que não haverá nenhum jogador que venha só para servir os interesses dos empresários ou de quem está à volta do Benfica. Esse jogador tem de ser uma mais-valia para o Benfica. E não trabalharei em exclusivo com um empresário.

Nem vai rejeitar nenhum empresário, mesmo Jorge Mendes?

Não rejeito nenhum. As parecerias terão sempre de ser feitas respeitando os interesses do clube.

Duas semanas não é pouco para convencer os sócios?

Se fosse tardio, não teria recolhido perto de 16 mil assinaturas em três dias. Espero que haja jogo limpo em tudo. Quem está no poder tem sempre mais facilidades, mas se fosse sempre assim, quem está no poder nunca perdia eleições.

Chegou a temer não poder ser candidato?

Não. Mas um dos dirigentes da outra lista, Rui Gomes da Silva, andou a dizer que eu não podia ser candidato, sem sequer ter aguardado que o órgão próprio se pronunciasse. O problema está resolvido e eu quero acreditar que foi engano. Mas eu sou vigilante. Convido o senhor jornalista a ver a listagem que lhe mostre a antiguidade do líder da outra lista. E não digo mais nada.

Luís Filipe Vieira diz que a sua candidatura não tem qualquer projecto.

Tenho projectos para a área desportiva, financeira e solidariedade social. Já viu algum projecto apresentado pelo outro candidato? Nem um, limita-se a baixar o nível do debate, nem quer debater. Quem se esconde atrás da cortina de silêncio não sou eu.

Quem opinião tem de José Eduardo Moniz?

Não discuto pessoas, discuto ideias. Sou um sócio do Benfica e isto fez com que abraçasse este projecto e este é um momento histórico para virar a página. Conheço Moniz como um excelente profissional de comunicação, não o conheço como benfiquista.

Mas ele esteve a seu lado há três anos...

Ele esteve numa linha paralela que nunca se chegou a cruzar. Veja o que Moniz disse de Vieira e o que Vieira disse de Moniz há três anos. Isto chama-se carácter, se quisesse, estava do outro lado, mas não estou. Benfiquistas tardios que há três anos foram a correr pagar 30 anos de quotas em atraso é sempre de desconfiar.

E Varandas Fernandes?

É um benfiquista de muitos anos, respeito-o mas tenho pena que ele esteja do lado de lá.