As coisas são o que são

Foto

A.J.P. Taylor, um historiador inglês, disse um dia que a Alemanha era grande de mais para a Europa. Esta frase foi naturalmente inspirada no papel da Alemanha entre o fim do século XIX e o fim da II Guerra Mundial. Em 1870 a Alemanha invadiu e bateu a França, em 1914 tornou a invadir e a bater a França e, em 1940, com uma vitória arrasadora, transformou a França numa espécie de colónia. A invasão de 1870 foi relativamente breve e localizada. Mas tanto a de 1914 como a de 1940 envolveram a Europa inteira, do Báltico ao mar Negro e ao Mediterrâneo, e do Cáucaso ao Atlântico: quase ninguém escapou. A devastação e os milhões de mortos que isto causou são literalmente incalculáveis. (A península Ibérica conseguiu ficar de fora, excepto por uma pequena expedição que Portugal, sob um Governo republicano, mandou para a Flandres).

A razão por que a Alemanha teve a possibilidade e a liberdade para fazer o que fez foi que ela dominava realmente a Europa económica e militarmente (excepto em 1870, quando a Inglaterra ainda julgava a França o seu maior inimigo). Das duas potências que a podiam limitar ou neutralizar, a Rússia era um país multinacional, politicamente instável e no princípio da industrialização (ou, pelo menos, em 1940, os nazis julgavam que sim) e a América ignorou 1870, chegou tarde à I Guerra Mundial (em 1917) e na II, por causa do isolacionismo doméstico, na altura dominante, só se resolveu a intervir depois do ataque do Japão à base de Pearl Harbor e de uma declaração de guerra, por ignorância e demência do próprio Hitler, em Dezembro de 1941.

Hoje, a Alemanha já não é uma potência militar, mas não deixou de ser uma potência económica. Pior do que isso, o colapso da URSS e a neutralização do império soviético do Ocidente afastaram a América e a Rússia das questões da Europa. A América, endividada e dividida, preocupada com a China e em guerra na Ásia, não mexerá um dedo para endireitar a UE, que de resto nasceu e cresceu sob a sua protecção e auspícios. Putin, com um Estado caótico e atrasado, não tomará qualquer compromisso externo no futuro próximo. E, nestas condições, não admira que a Alemanha, agora de novo independente, tornasse a estabelecer a sua hegemonia (agora económica) sobre toda a "Europa". Os pequenos países podem protestar e fingir que resistem. Não lhes servirá de nada. A Europa que aí vem será a Europa que a Alemanha quiser, como quiser e quando quiser. As coisas são o que são.