O meu governo por uma vírgula

Passos e Portas enterraram o machado de guerra. As razões do conflito continuam por resolver

As vírgulas não têm uma grande reputação na história da democracia portuguesa. Pelo menos desde que, em tempos, o dr. Almeida Santos deixou cair a sugestão de que mudar uma vírgula num decreto podia bastar para mudar o sentido final ao dito decreto. Ora, ao sugerir que "nem o Governo está para cair (...) nem o Governo não diz que não pode alterar uma vírgula no Orçamento", o primeiro-ministro voltou a convocar, ambiguamente, a vírgula para o debate público (teria sido mais simples dizer que o Governo estava disposto a mudar uma vírgula). Passos Coelho declarou-o numa intervenção na Roménia que visava pontuar o fim do diferendo entre os dois partidos da coligação. E que surgia depois de Paulo Portas ter assinado um comunicado em que assumia o compromisso do CDS em votar favoravelmente o OE. Paulo Portas, esse que deveria ter acompanhado Passos Coelho na viagem ao encontro do Partido Popular Europeu, em Bucareste, mas acabou por preferir ficar em Lisboa.

A declaração de Paulo Portas era assertiva, mas não estava isenta de vírgulas. É que o texto do presidente centrista dava como razão para o voto não os méritos do Orçamento, mas a necessidade de evitar uma crise política. Acrescentando depois que o partido está empenhado em "melhorar" o documento - a tal vírgula que Passos Coelho não diz que não pode alterar. Mesmo que os centristas tenham garantindo que vão aprovar o OE (estando no Governo, teriam outra opção?), o conflito não vai desaparecer. Instalou-se a desconfiança entre os dois partidos e, a prazo, essa situação dificilmente será sustentável. São poucas as vírgulas que Passos Coelho e Vítor Gaspar estarão dispostos a mudar. E o CDS continuará reduzido ao papel de sócio minoritário cuja voz conta cada vez menos. O ponto final de mais uma crise entre o PSD e o CDS não valeu mais do que uma vírgula.

Balão de oxigénio ou asfixia para a cultura?

O que se passa com a Capital Europeia da Cultura em Guimarães merece uma reflexão séria. A dois meses do encerramento, numerosos artistas e estruturas culturais ainda não receberam pelos trabalhos prestados. Há um milhão de euros em dívida. Os artistas, no entanto, cumpriram: empenharam-se, trabalharam e apresentaram ao público os seus espectáculos. Assim, são eles que estão a financiar o evento, porque sem eles a Capital da Cultura seria apenas um projecto, sem nada para oferecer. É um mundo às avessas: o que, em teoria, devia ser um balão de oxigénio para a cultura, permitindo desenvolver novos projectos e deixando alicerces para o futuro, acaba pelo contrário por asfixiar e até ditar o fim de vários projectos e agrupamentos. Há uma certa sobranceria em Portugal quando se fala das artes mas, na verdade, são estas e os seus criadores que acabam por pagar para que outros brilhem, vivendo elas na mais absoluta precariedade.