O excesso está de volta

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Viveu depressa, aos altos e baixos. Morreu cedo e deixou uma confusão genial como obra. Agora a Luaka Bop pega em parte de "Racional", duplo-álbum maldito, junta faixas da década de 1970 e pede ao mundo: amem este homem

Aqui há duas semanas houve uma festa em Lisboa dedicada ao genial músico brasileiro Tim Maia, que teria feito 70 anos a 28 de Setembro, não fora a sua morte prematura aos 46 anos. A dada altura, estava Mário Lopes, essa enciclopédia musical que escreve para o PÚBLICO, a passar discos, quando um brasileiro se aproximou para demonstrar a sua indignação com a selecção musical - não compreendia como é que Lopes tinha a lata de pôr funk em inglês numa homenagem a Maia. O jornalista muniu-se dos seus conhecimentos e tentou explicar que Maia havia gravado faixas em inglês. Mas não valeu a pena: o brasileiro abandonou o local, ofendido com a baixa percentagem de língua natal.

Isto serve de exemplo de quão complicado é, ainda hoje, lidar com a obra de Tim Maia - e com a figura. Homem excessivo, editou muito e com particularidades curiosas: uma boa parte dos discos da década de 1970 são homónimos, o que dificulta a tarefa a quem quer conhecer a produção.

A vida foi uma montanha-russa marcada pelo apetite voraz (não é piada, comia imenso): era viciado em Coca-Cola, cocaína e maconha - foi o uso de um charrito que o levou a ser expulso dos EUA, cuja cultura admirava: coleccionava discos de funk e soul quando no seu país ainda ninguém os tinha ouvido. Era impulsivo, ao ponto de contratar músicos depois de assistir a uma única actuação. Fez filhos de prostitutas, guardava o dinheiro num cofre e assinava contratos com várias editoras ao mesmo tempo.

A meio da década de 1970, e durante uns meses, aderiu a um culto religioso, o Universo Desencantado, e mudou de vida - o resultado pode ser ouvido no duplo álbum Racional (editado em dois volumes, em 1975 e 1976), extremamente mal recebido, convertendo-se em matéria de culto ao longo dos anos. Esse disco serve de base a Nobody Can Live Forever: The Existencial Soul of Tim Maia, edição da Luaka Bop que junta faixas desse disco a outras dos restantes álbuns da mesma década, e que poderá servir de re-apresentação de Maia ao mundo - convém não esquecer que foi a Luaka Bop que resgatou Tom Zé ao anonimato.

O disco foi a desculpa para a festa mencionada acima - houve outra em Nova Iorque, onde a Luaka Bop tem as suas instalações. Podíamos partir do princípio que Nobody Can Live Forever foi lançado agora para aproveitar uma data redonda, os supostos 70 anos do nascimento de Maia. Mas na realidade não foi aprontada para explorar uma data, antes adiada e adiada e adiada e só agora pôde sair.

Yale Evelev, director da Luaka Bop, conta que a ideia de fazer uma compilação data de 2002. "Pensámos que seria fácil, mas não demorou muito a descobrir que o mundo de Tim Maia ainda hoje é complicado".

A ideia partiu de Paul Heck, da Red Hot, com quem a Luaka Bop trabalha. "Em 2002 o Paul falou-nos do Tim Maia, mostrou-nos os discos, disse-nos que ele tanto tinha sido imensamente popular como caíra em desgraça e falou-nos desse período em que aderiu a um culto e o público voltou-lhe as costas. Contou-nos como esse disco se tornou impopular, que ninguém o queria ouvir, porque ninguém queria ouvir discos sobre cultos religiosos. Foi esse período turbulento que quisemos apresentar. Mal sabíamos no que nos estávamos a meter".

Segundo Evelev, quando Tim Maia morreu "tinha centenas de processos em tribunal, uns postos por ele, outros contra". O nó que Evelev teve de desatar era apertado, porque Maia "fez muitos negócios em simultâneo" e "umas pessoas dizem que este e aquele negócio é verdadeiro, enquanto outras dizem o oposto". Ainda por cima, no Brasil "Tim Maia é uma estrela e isso mete muito dinheiro, o que implica muita luta entre quem tem direito a direitos autorais", diz Evelev, revelando que entre quem gere o espólio "havia quem esperasse receber um milhão de dólares" pelo negócio - desata a rir, enquanto repete: "Um milhão de dólares, um milhão de dólares..."

A história de quem gere a herança de Maia diz bem de como este levou a sua vida. A maior parte do espólio está nas mãos de Carmelo, filho de Maia com Geisa, de quem também perfilhou o primeiro filho desta, Léo Maia. "O pai desse é o Jorge Vitório, ex-goleiro do Fluminense. O Tim nasceu na Tijuca, gostava do América, mas não ligava a futebol. Bem, o Léo só veio mais tarde a saber que o Tim não era pai dele - nessa altura a Geisa já tinha casado com outro homem e o Léo ficou com dois pais, nenhum o biológico". Quem conta isto é Don Pi, que se tornou pianista de Maia na década de 1970, aos 18 anos. Anda há anos a tentar editar um livro sobre os seus anos com Maia, mas diz que não é fácil negociar com Carmelo.

A Evelev falaram-lhe de "pelo menos cinco famílias" que Maia formou, embora só tenha "conhecido duas". Afiança que "ninguém sabe ao certo se ele casou com alguém ou quem é filho dele". Don Pi diz que "Tim nunca casou. O primeiro filho dele chamava-se Zé Carlos, era filho de uma prostituta da Lapa, de quem ele gostava muito". Pouco antes de morrer, conta, Maia "assumiu a paternidade do rapaz, mas ele morreu, de acidente". Na fase em que editou Racional Maia "teve o Carmelo". Estes, garante, são os herdeiros de Tim.

A seita

Don Pi sabe do que fala. Quando tinha 17 anos tocava com os Barra Mansa, banda de soul de Angra dos Reis, de onde vinha. Tim viu os Barra Mansa numa "inauguração de aeroporto". "Na época", lembra, "estava a dar muito o Jackson 5 e a gente fazia o show igual. Eu cantava, tocava e dançava - e o Tim gostou muito, porque para ele música para ficar parado no palco não tinha valor".

Don Pi estava no liceu, ainda, mas Maia insistiu, mesmo sabendo que o pai de Pi era contra, por considerar o meio complicado: "Drogas, bebida, mulheres, ‘cê sabe. A minha mãe é que deu um apoio, e quando fiz 18 anos fui. Depois o Tim mandou o cheque e quando o meu pai viu que me pagavam por três shows três vezes mais que o que ele recebia por mês, não queria acreditar".

Pi juntou-se a Maia em 1973 - no ano seguinte já estava a gravar Racional e envolvido com o culto. Morou sete anos com Maia e assistiu a mais voltas e reviravoltas que um Barça-Real em dia de inspiração de Messi e Ronaldo.

"O Tim tinha várias casas, espalhadas pelo Rio. Perdia os apartamentos porque não pagava e aí comprava outros. Dava a entrada, pagava os primeiros meses e depois não pagava mais. Ao fim de dois ou três anos perdia a casa". Viver diariamente com Tim Maia "era uma aventura, um filme".

Quando Pi se juntou a Maia, este tinha gravado um dos seus discos homónimos. Era ateu e debochado. "Ele estava a ganhar muito dinheiro, e entrava muita droga, cocaína, muita bebida, muita mulher, muito LSD, que a gente tomava bastante". Numa digressão, "com duas doses de LSD" em cima, Tim leu "um livro sobre uma seita, uma coisa com discos voadores, e gostou". No dia seguinte "já estava lá no templo" do Universo do Desencanto. "Conheceu o guru, que acabou ganhando o Tim como um membro proeminente". A transformação foi brutal: "No dia seguinte já não se podia beber, não podia haver parceiras, só esposas e sexo só por procriação. Eu ainda fumava a minha maconha escondido". Pi garante que durante a estadia na seita Maia "ficou limpo". Foi nesse período, oito meses, que Maia escreveu Racional - um disco tremendo, em que "só fala de libertação de um mundo sujo, de drogas, dinheiro, etc".

Don Pi conta que era impossível falar com Maia sobre o Universo do Desencanto: "Só eu é que me revoltei. O resto ficou tudo calado". Ao longo dos oito meses os músicos deram por si a "vender o livro [que Maia tinha lido] de porta em porta, vestidos de branco. Em Niterói, invadimos a praia, num domingo, éramos mais de 500 malucos, com os livros para vender e as pessoas... ‘Sai, meu filho da puta'. Teve de vir a polícia".

A relação com a seita alterou-se quando Maia fez "um balanço de contas" e "viu que estava a ser roubado". Pi afirma que o líder da seita, "seu Maneu, mandou matar o seu filho, o Atílio, que bebia e andava a dizer que as coisas que o pai pregava eram mentira". Vai daí, "o guru calou a boca dele, mandando matar". Maia terá então aberto os olhos.

O pós-Racional - algumas faixas entram na nova compilação, que abarca a produção até ao fim da década de 1970 - foi, segundo Pi, complicada: "Ficámos sem dinheiro, pegávamos comida fiado nos bairros da redondeza". Nessa altura aplicaram-se na editora Seroma, onde já tinham editado Racional. Foi lá que lançaram Tim Maia Em Inglês, que também foi um fracasso.

Familiar e diferente

Para Pi, esse disco - com Racional, o único, até 1978, não homónimo - faz sentido porque "Tim Maia era muito americanizado. Esteve nos EUA na época em que a Motown explodiu e andava a ouvir o Otis [Redding] antes do Otis ser conhecido". Diz que Maia também gostava de Sly Stone, Harold Melvin & The Blue Notes (hoje esquecidos, mas os inventores do disco-sound com The love I lost, e grande influência em Tima Maia Disco Club, de 1978), os O'Jays.

"Mas a gente tinha também a jinga brasileira", diz Don Pi. "Ele gostava do Jackson do Pandeiro, Nélson Gonçalves, Luiz Gonzaga, Cyro Monteiro. Gostava muito de música regional". Evelev acrescenta que foi isso que o interessou em Tim Maia: "Ele não é bem funky, é da soul, mas não o é de uma maneira americana. Nesse sentido é único. Adorámo-lo porque não soa a América. É-nos familiar e diferente ao mesmo tempo".

De qualquer modo a influência americana estendia-se a mais que a música. Don Pi diz que a razão pela qual até meio da década de 1980 os discos eram quase sempre homónimos excepto quando conceptuais era um "truque de marketing" - uma parte do negócio a que Maia tinha começado a prestar atenção na sua estadia nos EUA. "Se alguém quisesse saber o que era o disco tinha de o comprar. Isto funcionava naquela época, em que não havia pirataria. Hoje só confude", diz Pi.

O mais estranho na personalidade de Maia é que era mais acessível quando não tinha dinheiro. "Na fase pobre estava tudo calmo. Quando começou a fazer dinheiro, com o disco [homónimo] de 1976, em que lhe deram 150 mil dólares de adiantamento, foi a farra outra vez".

Quando o dinheiro entrou aumentou a confusão. Os amigos que o tinham abandonado voltaram: "As mulheres e os traficantes voltaram. O Tim começou a ficar paranóico, só eu é que que abria o cofre - bem, ele nem sabia o segredo do cofre. E a verdade é que o dinheiro não parou de entrar. Ficou muito rico".

No meio disto, Pi admite que nem sempre Maia era honesto - até hoje lhe deve o crédito de uma canção. Por outro lado, era generoso e deixava gente morar com ele anos a fio. Pi só o deixou em 1980. Até hoje tem na sua posse "fitas que nem a família conhece, guardadas a sete chaves num lugar secreto, com ensaios de horas e horas, porque a gente gravava tudo". Pi diz que Maia nunca quis saber das fitas. A razão pela qual essas e outras gravações não saem é simples: "Todo o mundo tem medo do filho dele. Mas quando as coisas acalmarem com o filho, isso há-de sair".

As de Pi são só de piano e guitarra - sendo esta tocada por Maia. "Quando ele não tinha sono apertava um baseado e punhamo-nos a tocar". O método de Maia, diz Pi, era um caos impulsivo: "Aquela casa estava sempre cheia de mulher. E mal chegava uma ele apaixonava-se logo e fazia umas 10 músicas de seguida, para ela. Não dormia, ia por ali a fora a fazer canções. Perdeu o controlo do que gravou".

Até ao fim Maia viveu intensamente: "Se comia, comia muito, se bebia, bebia muito, se cheirava, cheirava muito". Um exemplo simples: "Tomava 3 litros de coca-cola ao almoço. Não parava de comer doces. Quando recomeçou a cheirar [cocaína] cheirava 20 gramas a brincar, com duas putas pelo meio. Cheirava dois, três dias seguidos, vinte gramas. Já viu alguém assim?"

Sim, chama-se Keith Richards. Mas esse não precisa que o redescubram. Nem funka tão largo.